Rosana Carvalho Paiva
Nos últimos vinte anos me mudei vinte e cinco vezes. Montei e desmontei três apartamentos. Um deles de compra. Antes disso, contando todos os deslocamentos, saí da minha Salvador natal e me entendi por gente em Viçosa, Minas Gerais. De volta a Salvador, anos depois da infância e da adolescência, perambulei por tantos lugares, apartamentos, casas, vazias ou compartilhadas entre vivos e mortos, caminhei pelo sertão da Bahia, para onde nunca me mudei, mas que me deu lastro para seguir a Manaus, a Barcelona, de volta a Salvador e a Manaus e à Catalunha, lugar que há sete anos, e por enquanto, chamo de casa. Nesses andares, estudei antropologia e aprendi com a escrita etnográfica a falar sobre o realismo, as dores, sucessos e entrecruzes alheios. O realismo etnográfico completou seu ciclo da graduação ao doutorado, e a literatura se consolidou como a válvula de fuga para os absurdos da vida, minha e alheia, que, olhando bem, são mais extemporâneos na realidade que na ficção. Peripateticamente, quase tudo que fiz se dissolveu em ares netunianos, mas restaram o chão, a terra, as violências cravadas como punhais e o amor aos próximos, os que ficam e os que perdi pelos caminhos.