Cleidi Pereira


nasci numa pequena cidade chamada maravilha, no oeste de santa catarina, brasil. deve ser por isso que, além do sul, o encantamento é o meu norte…
tinha 16 anos quando fiz minha primeira grande travessia: de ônibus, com apenas uma mala, para trabalhar como empregada doméstica em uma mansão naquele porto que prometia ser alegre. e foi, muitas vezes, durante treze anos.
na capital gaúcha, virei gente. além do primeiro emprego de carteira assinada, votei pela primeira vez, me formei em jornalismo graças ao prouni, financiei um apartamento, trabalhei em redações dos principais jornais do sul do brasil, ganhei prêmios por reportagens investigativas, econômicas, sobre direitos humanos… casei e pari.
quando minha filha mais velha nasceu, senti o impulso ir além e, assim, viemos parar em lisboa, onde tive mais duas filhas para completar a mística tríade, fiz um mestrado em ciência política e, agora, um doutorado em sociologia. estudo violência obstétrica envolvendo mulheres imigrantes.
me (re)descobri poeta e escritora em meio aos escombros deixados pela maternidade e imigração — apesar de, teoricamente, ser migrante há mais de duas décadas.

já entrevistei frei, artista, presidente e torturador, cobri tragédias, protestos, eleições, escalei um vulcão, publiquei um livro, plantei inúmeras árvores, mas nenhuma experiência foi tão intensa, transcendental e avassaladora quanto a de ser mãe-migrante, com dois puerpérios em meio a uma pandemia.
por isso, escrevo para desatar os nós, resistir, existir… pratico escrevistência.