Nesta primavera europeia do ano de dois mil e vinte e seis, depois de Coisas difíceis de ressuscitar, Juliana Garbayo traz-nos Neutralidades que matam.
Como a morte nos títulos das suas obras, os poemas que nos traz situam-se entre o detalhe que o diabo carrega consigo e a universalidade onde deus não chega: como escreve Juliana num dos seus poemas, não beijo a lona/eu não esculpo verdades amargas, eu não defendo inocentes. Mas antes que se assuma que esta poesia se regozija na análise cínica do mundo, o poema esclarece: nunca me deito de costas na areia quente/antes de o sol se pôr.
Esta poesia não negocia, não discute e não pede desculpas por isso, mas também não se presta à sobranceria. A dureza é mesmo esta: assumir o permanente desconforto como consequência natural de conseguir, talvez, assistir a tudo: a Dona Rute pede ajuda para fechar o sutiã, e aquilo que o poema vê é a proximidade da morte; a mulher que parece uma grávida feliz luta, na verdade, contra a violência e contra o desespero comendo em pé diante do espelho.
E sim, há estações que demoram muito tempo a iluminar-se — como a estação subterrânea de Espinho, onde a vida se terá agarrado aos versos, esperando sobreviver à voracidade de uma viagem que, tantas vezes, nos engole antes que a possamos mastigar. É esta a carruagem onde Juliana viaja, a das colagens alucinantes que nos cruzam a retina sem descanso (o forno de Sylvia Plath, Marylin Monroe e Whitney Houston, o boxe que pode ser um baile, a cotação do euro e do dólar: o preço, no fundo, da carne humana). Não por acaso, muitos destes poemas foram escritos em viagem — e os seus agradecimentos assim o evidenciam. Mas Juliana não deixa de ser uma mulher que vem do Brasil para Portugal, este país melancólico e frequentemente cruel, que recebe mas também, tantas vezes, repudia, e há depois essa mulher-poeta que, como é descrita no prefácio, tem força vital e entrega humanitária. Faz então sentido a coincidente sensação de versos que jogam com a impermanência, com um afogamento demasiado consciente, essa não desistência do oxigénio e de poder, eventualmente, chegar além da linha de água.
Por outras palavras, se, como escreve Juliana, se rejeita Deus numa roda gigante, onde fica a esperança? Se a neutralidade mata, será de todo possível uma vida que nos redima num segundo de paz?
Os seus versos acendem estas dúvidas e, aqui e ali, talvez vão respondendo: o homem será enterrado amanhã/o poema ainda dura alguns meses.
Francisca Camelo