Limpo, de Lucas Miyazaki, é uma evocação de sensações que dão à palavra um caráter tátil. Andamos nesse espaço imaginado pelo autor, sentimos a densidade e a secura do ar, o cheiro de decomposição, o som extenuante dos aviões que nos recorda a angústia de sermos absolutamente telúricos. Estamos imersos nesse terreno diante da presença roxa e oblíqua da bananeira, da artificialidade das embalagens prata que se misturam com a matéria orgânica em decomposição, sentimos a gravidade que prende seus personagens nessa terra, quase morta, salvo pelo resquício do húmus amarelo e escamoso.
Miyazaki consegue provocar todas essas sensações fazendo com que seu texto seja menos sobre entender uma história e mais sobre habitar uma atmosfera, da qual o nojo e a raiva suscitam uma determinada sensibilidade. As palavras são a transição do lugar em que o vivo encontra o morto. Em diálogo com a escatologia do nascimento e da morte, a narrativa revela que mesmo com os pés fincados na origem também é possível sentir o desterro, que se expressa na obra como a ânsia refletida nas memórias de um corpo.
Essa memória é a de um corpo que arranca o próprio cordão umbilical, extirpa de si o seu lastro de origem e joga-o na terra, com repulsa. Acompanhamos um personagem na sua angústia de perceber-se parte da terra, de ver nascer um duplo da sua própria matéria em putrefação. Um duplo que revela a outra face, a menos limpa, a que evoca certa animalidade e se instaura na fusão visceral dos próprios excrementos com a lama, o lixo e os rastros do mundo que não podem ser apagados com a limpeza.
Limpo se apresenta como uma dramaturgia do afeto e da matéria, em que a escritura da cena é gerada na relação entre corpos. O tempo cronológico e produtivo que se expressa no rangido metálico das hélices de avião, na fumaça e no ambiente caótico e alarmante, é contrastado com a lentidão orgânica da natureza e com o tempo dos corpos que se chocam em atos de extrema violência. Em sua própria forma, a dramaturgia propõe uma ruptura com a estrutura dramática tradicional, demorando-se nas digressões e no aspecto sensorial das imagens. É assim que Lucas Miyazaki opera as palavras como entes vivos: lemos o seu processo de decomposição e o húmus asqueroso a escorrer e a nos lembrar que onde há sujeira há vida, há uma proliferação de microrganismos com seus próprios ecossistemas. As palavras não são limpas, pois no espaço limpo e asséptico jaz o que está morto. Onde há sujeira, há novas formas de existir.
Giovanna Paiva
pesquisadora, crítica de arte e atriz