Embrulho, nova obra da escritora e dramaturgista Gabriele Rosa, contém em si um plural: a palavra, a potência do dobrar-se e o movimento de desvio. A palavra, criada no mundo dos homens para sustentar estruturas feitas de papéis sistematicamente distribuídos, esvazia-se de corpo para que possa ser asfixia e soterramento de tudo aquilo que se movimenta para fora de seus limites. Esse processo de molde pelas palavras é, invariavelmente, violência. Lá, onde o corpo-mulher encontra a si como bigorna violentada, é preciso ir contra o martelo-palavra.
Em vez de reproduzir o sistema de desvitalização e violência, ela contragolpeia com uma nova estratégia: devolver a palavra ao corpo e o corpo à palavra, desfazendo a cisão. Contra a brutalidade, fixa em sua rigidez, somos presenteadas com vulnerabilidade e encantamento. Mas Gabriele não apazigua, ela expõe que lá onde houve a cisão é precisamente onde vida e morte coincidem. E é de lá que nasce a fratura, a mesma que sinaliza a fragilidade da estrutura dos papéis que, com sua arrogante imutabilidade, carrega uma fratura de revolta ― o desmoronamento por onde escapa o movimento. Nosso corpo, tal como a palavra encarnada, tem o poder de criar poros nas estruturas introjetadas em quem somos.
Ao propor uma dramaturgia poética, Gabriele devolve à palavra-corpo o movimento de corte, capaz de atravessar a carne, encontrar os ossos e chegar à medula. A palavra-corte rasga os papéis, criando buracos por onde se torna possível olhar do avesso e, assim, ter uma nova perspectiva de si, insistindo em novas possibilidades de ser e existir. Fazer-se mulher é um processo de encontrar a própria língua.
Embrulho também é um contra-ataque contra o script, indo em direção a um novo vaticínio coletivo. Somos muitas: a velha e a criança ao mesmo tempo, herança e futuro. É um percurso para frente e para trás, que se dobra sobre si, e que se faz presente, feminino, desejo, gozo. Aquilo que aponta para fora e escapa, desmontando e remontando o real sentido pelo qual se deve viver.
É um convite a parar, respirar, olhar. Investigar a brutalidade, dar-se conta dela, senti-la dentro dos músculos, dos ossos, dentro dos nervos. Sentir dentro dos ouvidos e com a língua o que escapa quando se insiste, ali, de novo e de novo. Aquela palavra, aquela miudeza de palavra, até que, de repente, o que escapa da mulher é aquilo que nela a faz relembrar, aquilo que resiste a ser definido, o que a movimenta em direção à colisão surpresa.
Mariana Mello
Atriz e jornalista