De cabeça para baixo
encostada aos seus joelhos
eu e a minha avó fundimo-nos
numa máquina humana de lavrar terra.
Enquanto ela abre carreiros pela terra fora
com uma pá cheia de cicatrizes
enfaixada de fita cola
eu deito à terra um grão de milho
e rego-o com cuspe
para que nos alimente no verão.
Nunca lhe disse
que também eu abria caminhos
às escondidas
na pele fértil do meu braço
com uma lâmina de barbear
e o mesmo rigor retilíneo
onde semeava angústias
regadas de sangue.
(colheita, página 21)
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_sobre este livro
Quão difícil é segurar a beleza ao narrarmos a perda. Será necessário reler estes poemas uma e outra vez, já que a perda só encontra a sua forma, delicada e acutilante, nos territórios do mundano. “Lembras-te?”, lê-se repetitivamente num dos poemas de Massa mãe, porque o exercício da memória obriga-nos a retomar tudo o que perdemos. Visitamos os lugares por nós abandonados, ou que alguém por nós abandonou. É o encanto das assombrações: a cada partida, a sua pequena e sombria melancolia. A hipótese que ruiu antes de qualquer fruição. Somos reféns da memoração. O luto faz-se assim: é intermitente, entranha-se na matéria que se avoluma dentro de nós, em cada poema, esbracejando, rompendo a fina película de um ovo. Uma e outra vez. Num esforço contido e interminável. Num corpo, outro corpo, que reconhece que há um ciclo que recomeça e, talvez, nunca termine. Quão difícil é encontrar ternura na feiura da morte. É querer ter uma avó quando nunca se teve nenhuma. É a fantasmagoria de um carinho. Mas reconforta quando um poema arrisca e se engrandece e dói de tão desarmante, com tamanha convicção. Quebro a casca do ovo, observo o líquido gelatinoso, o visco da clara, a gema contida na sua margem prestes a rasgar. Toco com o dedo e sei, instintivamente, o quão difícil é escrever — como tu, como a autora — com esta destreza. Massa mãe é feito de canções, de retratos, de uma fatídica paragem de autocarro. Tudo o que advém da morte é aqui desenhado com minúsculos contornos de luz. “Lembras-te?”, e logo imagino todas estas mulheres, amassando o pão, lavrando a terra, rompendo guerras. Mastigam o interior das suas bocas, acostumadas à dor e às perdas, outrora fantasias, batendo suavemente o ovo frio contra a dureza da porcelana ou de um osso. Na morte também se celebra. A poesia nunca entenderia o ritmo belíssimo e frenético destas imagens. Será necessário reler estes poemas uma e outra vez, como um fotograma velado pelo tempo, para que se revelem na sua totalidade: uma configuração do luto, da perda e, acima de tudo, a possibilidade da rendição.
Stella Faustino
_outras informações
isbn: 978-989-9348-14-1
revisão: Marcella Sarubi
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5 cm
páginas: 74 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª