Metástase: o que muda de lugar, um contínuo deslocamento. Aqui, o singular não dá conta — as mudanças são tantas e tão profundas que se anunciam no plural. A obra Metástases solares, de Irlim Corrêa Lima Jr., faz o leitor acompanhar o borbulhar de células de um verso a outro formando três capítulos que, no fim das contas, se mesclam e prolongam raízes.
No capítulo “Desvãos”, o poema que abre o livro convoca uma imagem solar, com o olhar da infância que precisa experimentar e se deslocar pela casa — e por si mesma — testando o que é o mundo e tomando decisões: “e já crescer é escolher/ ser ilha ou restinga”. O sol apresentado nos primeiros versos se desconfigura e somos convidados a assistir ao espalhamento de sombras, que, ao longo da obra, pode ser expressão sinônima disso a que chamamos viver. Cenas do universo infantil aparecem em diferentes momentos: pular amarelinha, desenhar, cortar, colar, inventar palavras… Todas distribuídas em imagens feitas para nos desconcertarem, e nos conduzindo a versos como “Qual a porcentagem de feto resta comigo?”. Aqui o que há é carne e uma não beleza de sermos algo “nem nascido nem abortado”.
No capítulo “Desvios”, somos mais direcionados ao lado externo da criança-casa. A manualidade, os toques, as experiências primeiras aparecem agora como simulação e tentativa mais profunda de entender o lidar com o outro. Encaramos esboço, rabisco, tentativa de ser — “(…) Existo/ como entressafra, rascunho a pele” — enquanto olhamos tudo o que é diferente de si mesmo seja pelo mundo carnal ou virtual: “Se o metrô não faltasse… mas e trem?/ Muvuca, comércio, gritaria, ali o corpo/ Existe demais. Oxigênio das telas/ Some com a atmosfera da carne”. Os desvios não se fazem por caminhos fantásticos, mas pelos buracos do cotidiano em que o indivíduo, ao cair, tenta se situar, descobrindo-se sempre como areia em ampulheta que gira sem parar.
Essas fendas compõem a última parte do livro, “Deságios”. Talvez a perda de valor percebida/vivida pela criança dos versos esteja atrelada às redes. Se antes, rede era aconchego de casa e mais um item de pertencimento ao espaço, hoje é “dispersão/ O crânio grudado na tela”. As telas e tudo a que chamamos “sistema” se amalgamam à pessoa e nos fazem perguntar, talvez ainda curiosas como quando crianças, o que é ser humano? Ao fim do livro e em deslocamento que não cessa, resta a pergunta: “Era eu um trajeto. Hospital, igreja, banco./ E a casa desacoplando do umbigo,/ Pra onde foram as pessoas?”.
Marcella Lima
Escritora e professora de História. Publica textos no Substack pela página Autorizada