Eis Grisalhos e, como sugere o título, uma obra senescente do mais que ciente poeta Paulo Roberto Sodré da sua bioficcionalidade. Autor de longa data em poesia e prosa, a verificarmos, ambas porosas. Deixe-me explicar, com todos os poros à prova, ao sabor do tempo das personas e dos leitores, a saberem do autor ludo. Este que nos dedica, por vezes, cheio de dedos; sempre, de língua, predominantemente portuguesa, seu amor pela vida. Assim, vai transpirando em frentes e versos ternuras homoafetivas, a demonstrarem elas que para tanto toda idade é de ouro, desconsiderar isso passaria a ser alguma coisa de muito tolo. Aproveitemos então esta orelha para sussurrar nela algum de seus quase degredos:
“O peso dos dias de espera,
o ardor das horas de imaginação,
o áspero das vezes de insônia:
tudo escorre corpo idoso afora
quando as digitais dos seus lábios
marcam os recantos do meu nome
todo entregue para sua caça
aos meus arrepios todos em murmúrios”
Sussurros, murmúrios; quiçá: gemidos, grifos, acompanhados de espasmos voluntariosos, estão aqui para lá de sugeridos, mesmo em templos de tantas proibições, ódio e rancores com relação a sentimentos sentidos, ainda que somente pela imaginação, tão vital para o desejo, pelejante, a locupletá-la. porque não lhe faz jus nenhuma mesquinhez. Se há algo entre nós que realmente pode romper todos os limites é o pensamento. Por meio dele podemos possuir qualquer coisa e também nos tornamos possessos para além das convenções e aquém das margens: “serei, serei, serei leal contigo, quando eu cansar dos seus seixos lhe digo!”, diria o cantor popular!
Há muitas camadas a serem transpostas e transportadas pelas páginas presentes, entre a tez e o tesão em lê-las. Venham conosco nessa lida a desfilar com os rapazes que nelas estão, quando cada nome ou desnome sugere lascivos percursos delineados pelo poeta, de alegres a alegóricos. Queer+: não sei se o mundo é gay, mas sei que ele não cabe num armário. Assim sendo, não temos como não nos sentir parte do intento, atento a cada minúcia, buscando um todo pelas partes postas nem tão particularmente num labirinto de sensações, isentas de heterotoxidades, ainda que possa parecer a alguém aqui haver um certo lugar de falo, à maneira formal de uma cantiga de amigos:
“Ai eu, cativo, arreitado, idosado,
numa aula em forte dia o vi,
desde quando não me deito sem aspirar, eu
que vejo seu pau azeitar de porra o paulino anel:
em forte dia o vi barbudo
e cheio de porra para servir!”
Peita, por ora cheguemos de transbordamento!
Pedro Gazu