Como as palavras lidam com o luto?
Como elas permitem a passagem do vazio que sobra em nós, que cresce no silêncio da dor, para a outra margem, uma margem feita de uma nova presença, que nos traz de volta para o movimento da vida?
O livro de estreia de Aline Guimarães Couto parece mover-se a partir desse “precipício invisível”, título do poema que abre a coletânea, para refletir e narrar o desdobramento da experiência da perda em quem fica, nos vivos. Nesse sentido, a escrita torna-se, para ela, um gesto quase concreto, necessário, para compreender, ou melhor, para dar outro sentido àquilo que permanece sem respostas, como lemos nesses versos: “com as mãos/ toco o buraco/ esse cheio de silêncio/ ele precisa de um nome/ um completo”.
Preencher esse “cheio de silêncio” é também uma resposta que tentamos dar, nós humanos, por meio da poesia e da arte, talvez para ensaiarmos dizer algo, como se tivéssemos que “medir o vazio” anterior e posterior à nossa passagem sobre a Terra. A poeta parece assumir essa tarefa, não tanto como quem conhece algum mistério e deseja confiá-lo ao seu leitor, e sim como quem sabe que perguntar é o que nos cabe, apenas isso, principalmente diante do irreversível, como um luto. Perguntar para dentro, perguntar para si mesmo — ou para a folha em branco — como diante de um espelho, para olhar para si e para o mundo, outra vez, com a consciência de que o luto está ali, à espreita, atrás das coisas vivas, no movimento inicial da mão de um recém-nascido ou na planta que cobre o rio.
A poesia da autora se alimenta, portanto, do dispositivo da pergunta como elemento constante que introduz densidade e abertura ao longo do livro, multiplicando as cenas e as vozes. Sua poesia assume por vezes tons narrativos, e o diálogo — ainda que sem um interlocutor explícito — atravessa todos os textos como um convite para que possamos, nós leitores, juntar-nos à dança do poema que encerra o livro, uma dança que é uma “marcha da alegria”, uma celebração urgente da vida nos que ainda estão aqui, após o luto. Apesar do luto, depois do luto.
Prisca Agustoni