Uma escrita na antessala da escrita — ou na sala de espera da sessão de terapia, de psicanálise, ou no momento anterior ao de se ajoelhar no confessionário (ou para o sexo oral entre homens) —, assim se pode descrever Terapia do abuso, curto romance do novato Guido Arosa.
O texto, estranho de início, forte, apresenta uma técnica de narrar em camadas sobrepostas de sentido e de elementos narrativos.
No enredo, numa atmosfera de suspense, um narrador em primeira pessoa, molestado aos 12 anos de idade por um pedófilo, busca por este homem que era seu psicanalista na época e que abusava dele nas sessões de terapia.
A tensão que conduz a narrativa é movida pelo desejo do narrador de encontrar o pedófilo para denunciá-lo e se vingar dele — ou matá-lo, ou destruí-lo — ainda que quase duas décadas já tenham se passado desde o evento.
Uma escrita na antessala da escrita, não como defeito, mas como processo de quem se prepara para dizer, de quem ensaia para dizer, de quem, com esse discurso arrumado, arranjado, pré-pensado, espera livrar-se do confronto, espera convencer (o terapeuta) e se convencer de que, sim, apresentou-se como apresentável.
Apresentou-se como apresentável, por meio de uma fala qualquer coerente a ponto de livrar o paciente-narrador do terapeuta, da terapia e do trauma (e da própria escrita?).
Nada mais incômodo (em certo sentido) do que uma sessão de terapia. Nada mais incômodo (em certo sentido) do que escrever literatura, essa espécie de suicídio.
O trabalho de detetive do narrador, que procura o abusador criminoso, corre em paralelo ao do escritor que busca elaborar a experiência-limite, o sofrimento psíquico que carrega desde aquele episódio de infância, mas não sem julgamento moral (a vergonha, a culpa) do abuso e da própria condição de quem exerce clandestinamente sua sexualidade.
O mais interessante talvez seja o fato de que, desta escrita na antessala, tudo vai aos poucos virando sala e se revelando: o set terapêutico que se desdobra em quarto do jovem narrador na casa dos pais (onde ele recebe, escondido, homens para transas fugazes), que, por sua vez, se transforma na “sala” do “aplicativo de pegação” ou nas cabines de trepação entre homens anônimos, nos submundos do universo gay clandestino.
Marilene Felinto
Folha de S. Paulo
17/4/2021