Terapia do abuso

Disponibilidade: Brasil

Se disser “é tudo verdade”, terei que encarar as consequências de ir ao programa da Fátima Bernardes e lá dizer, às onze horas da manhã, que sim, fui abusado aos doze anos de idade por meu psicanalista de cinquenta e seis e que escrevi um romance sobre isso. Me tornarei um porta-voz, compulsoriamente um representante. Como dizer à multidão algo que é impossível dizer ao parente mais próximo, ao amigo mais querido, ao inconsciente mais raso? Mas escrevi um livro contando tudo, como depois não discorrer longamente sobre? Gostaria de ter a opção de não dizer mais nada, mas imagino que, depois de um livro escrito, serei obrigado a continuá-lo escrevendo sempre. Quando me leem e se aproximam de mim abrindo lentamente os lábios me perguntando algo como: “O que você escreveu é… verdade?”, respondo: “Que isso… é só literatura”.

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_sobre este livro

Uma escrita na antessala da escrita — ou na sala de espera da sessão de terapia, de psicanálise, ou no momento anterior ao de se ajoelhar no confessionário (ou para o sexo oral entre homens) —, assim se pode descrever Terapia do abuso, curto romance do novato Guido Arosa.

O texto, estranho de início, forte, apresenta uma técnica de narrar em camadas sobrepostas de sentido e de elementos narrativos.

No enredo, numa atmosfera de suspense, um narrador em primeira pessoa, molestado aos 12 anos de idade por um pedófilo, busca por este homem que era seu psicanalista na época e que abusava dele nas sessões de terapia.

A tensão que conduz a narrativa é movida pelo desejo do narrador de encontrar o pedófilo para denunciá-lo e se vingar dele — ou matá-lo, ou destruí-lo — ainda que quase duas décadas já tenham se passado desde o evento.

Uma escrita na antessala da escrita, não como defeito, mas como processo de quem se prepara para dizer, de quem ensaia para dizer, de quem, com esse discurso arrumado, arranjado, pré-pensado, espera livrar-se do confronto, espera convencer (o terapeuta) e se convencer de que, sim, apresentou-se como apresentável.

Apresentou-se como apresentável, por meio de uma fala qualquer coerente a ponto de livrar o paciente-narrador do terapeuta, da terapia e do trauma (e da própria escrita?).

Nada mais incômodo (em certo sentido) do que uma sessão de terapia. Nada mais incômodo (em certo sentido) do que escrever literatura, essa espécie de suicídio.

O trabalho de detetive do narrador, que procura o abusador criminoso, corre em paralelo ao do escritor que busca elaborar a experiência-limite, o sofrimento psíquico que carrega desde aquele episódio de infância, mas não sem julgamento moral (a vergonha, a culpa) do abuso e da própria condição de quem exerce clandestinamente sua sexualidade.

O mais interessante talvez seja o fato de que, desta escrita na antessala, tudo vai aos poucos virando sala e se revelando: o set terapêutico que se desdobra em quarto do jovem narrador na casa dos pais (onde ele recebe, escondido, homens para transas fugazes), que, por sua vez, se transforma na “sala” do “aplicativo de pegação” ou nas cabines de trepação entre homens anônimos, nos submundos do universo gay clandestino.

Marilene Felinto

Folha de S. Paulo

17/4/2021

 

_outras informações

isbn: 978-65-5900-146-0
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5cm
páginas: 116 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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