Cafés e Lattes é o livro de estreia de Fernanda Maria de Miranda. O título joga com a cafeína que move a escrita e com o currículo Lattes, registro oficial da vida acadêmica brasileira, criando uma referência oculta para quem conhece esse universo. Não é um manual de sobrevivência nem um romance linear, mas uma coletânea de sonhos, frustrações e pequenas vitórias. A autora escreve como pesquisadora brasileira, imigrante e mulher, e encontra na literatura um espaço para o que não cabe no Lattes. O subtítulo “ensaio sobre as entrelinhas científicas” marca esse lugar das margens, onde a experiência cotidiana ganha voz.
As histórias são contadas em diferentes formatos, como relatos pessoais, fábulas reinventadas, cartas, poemas e paródias. Elas mostram como a vida acadêmica se mistura com imigração, trabalho, relações afetivas e crises cotidianas. A autora parte de sua própria trajetória em um recorte de quatro anos entre doutorado e pós-doutorado. O resultado não é uma narrativa de superação, mas um retrato ácido das contradições que existem nesse caminho. O fio condutor não é a busca de respostas, mas o gesto de escrever para tornar concreto. O ato de digitar palavras se torna companhia, e ao fazer isso, convida o leitor a reconhecer também as suas próprias histórias.
Os capítulos revelam que o prestígio convive com a precariedade, o reconhecimento público divide espaço com a solidão privada e a objetividade científica contrasta com as subjetividades do pesquisador. O humor aparece sempre em tensão com a crítica. Há capítulos em que a escrita raivosa torna-se autocuidado, outros em que burocracias se convertem em sátira, outros ainda em que uma simples placa na porta vira motivo de reflexão sobre identidade e pertencimento. O livro alterna momentos íntimos e políticos, confessionais e analíticos, sempre com a acidez de quem observa o próprio percurso sem filtros.
Cafés e Lattes é para quem está vivenciando a corrida acadêmica (seja você um estudante ou um professor) ou para quem quer compreender melhor alguém querido. Um mosaico que revela a vida por trás das produções científicas. Com franqueza, ironia e acidez, o livro mostra que essa experiência é feita tanto de conquistas quanto de contradições, e que contar essas histórias pode ser, por si só, um modo de resistir.