Entre marés há o quê? O fundo encharcado e exposto.
O primeiro livro de Otávio Tavares anuncia desde o seu título o interesse por um lugar que é, simultaneamente, um instante. Seus poemas são instantâneos feitos durante décadas, séculos — refeitos a cada verso. E são biografia, a escrita da vida — a palavra que inclui tudo, enquanto brilha mais forte se colocada ao lado da morte. O índice nas primeiras páginas é um mapa, mas também uma pista de que estamos diante, sim, de uma biografia, mas também de uma certidão de nascimento, e de um diário, e de uma memória, e de um presságio e de uma invenção.
Os lugares na poesia de Otávio Tavares são animados e colocados em movimento pela artesania das pessoas amadas que moldaram as lembranças do poeta. O mercado é o avô, a casa é o irmão, e cada um desses sítios é a materialização de uma ausência: as palavras, aqui, como de costume nos poemas que permanecem, atestam a impossibilidade de captura do tempo e confirmam que estamos destinados a essa trágica tentativa. Uma tragédia também alegre, à maneira brasileira, pois começamos no exercício melancólico das andanças e chegamos à eufórica partilha dos festejos.
E, observado por gatos, serpentes, urubus e árvores, o poeta se constrói como objeto e como sujeito, celebra o olhar silvestre das paisagens que atravessa e seus ecos, de cujas ruínas originam-se os versos, invadem nossos ouvidos numa tranquila e assombrosa inundação de imagens-sons; mas qual o principal? Ou melhor, qual a origem de tudo isso? De todo esse rejeito sentimental? Desta matéria que não serviria para nada se não para isto que chamamos poesia?
Entre as marés há um suspiro, uma impressão, um finíssimo véu que se levanta por um átimo de segundo. Nesse instante-espaço encharcado e exposto, Otávio escreve. Traz consigo tudo o que já tocou e tudo o que já imaginou. A correnteza dos seus versos, sua força e sua ressaca, são intenso sinal de que na precariedade honesta do poeta é dado a ele ser também o oceano.
Felipe Cruz