João Pereira Vale Neto


Nasci no Recife, Pernambuco, filho de pais de Sertânia, interior do estado, que migraram para a capital na década 1970. Minha vida é um alumbramento que está a memória afetiva sertaneja e um Recife melancólico, exuberante e traiçoeiro.
A casa dos meus avós, no Sertão, pela sua simplicidade e gratuidade de afetos, é uma das referências mais importantes da minha subjetividade. O Sertão era a terra mística que aliviava as pressões da capital. Era também onde meu tio, poeta e griô Josessandro Andrade, fazia questão de apontar a força nas histórias as quais nós, descendentes dos povos originários, estávamos envolvidos.
Meu corpo era um florescimento particular, não encontrava identificação com os papéis de gênero estabelecidos. Por isso, digo que logo entendi que nasci catingueiro e veado. Meu corpo só podia pertencer às histórias fabulosas.
Passava mais tempo na biblioteca do que com os meus amigos. Depois de uma infância e adolescência atribuladas pelos conflitos ligados à minha sexualidade, comecei a estudar Jornalismo no Centro de Artes e Comunicação da UFPE, onde cursei também o mestrado.
Parte fundamental da minha trajetória foi o encontro com a comunidade do Coque — no centro do Recife —, polo multidimensional onde a luta social, a espiritualidade e o amor se reúnem. Esse encontro se deu junto com a dedicação à visão e às práticas do budismo mahayana.
Trabalhei no serviço público, cursei o doutorado em Sociologia e migrei, em 2018, para Lisboa, onde comecei a estudar Psicanálise e Psicoterapia. Hoje, exerço a função de psicoterapeuta.