Teatro é isto: encontros. Entre encenador e dramaturgo, entre encenador e atrizes e atores, entre cenógrafos, coreógrafos, iluminadores, músicos. Encontros entre cena e público. É um espaço/tempo de encontros, contatos, diálogo. Ao trilhar os caminhos para o e no palco, sempre haverá muitos encontros. Um desses, em minha vida, foi com Lígia Soares, em Portugal, em um projeto que envolvia em uma equipe portugueses, brasileiros e santomenses.
O encontro com uma nova dramaturgia, fascinante, cheia de propostas de novas relações entre a cena e o espectador, que, diante de Lígia, não tem mais como ser aquele que especta, precisa ser aquele que é parte.
Este Um Nó Apertado é isso. Um texto que já nasce em cena encarando o espectador, espelhando-se nele ao tempo em que lhe mostra seu reflexo. Uma tragédia onde o coro muda de lugar e se transfigura. Ora se encarna no herói/heroína que interpela a plateia, como fazem os coros diante do herói, ora a plateia é o coro que interpela em silêncio o herói/heroína que, do palco, faz as vezes de deuses ou titãs em guerra acirrada consigo mesmos.
É uma tragédia, não há dúvidas. Fragmentos de antiquíssimas tragédias apontam para outros lugares, para pontos de fuga em perspectivas a rever a história da humanidade e seus mitos, agora reais — não mais mitos: seres homens ou mulheres. Seres de ser, não de estar. Seres de ser e seguir sendo. Nos textos de Lígia a saída é para dentro. Já vêm encenados — encarnados.
Com o suave estranhamento de uma outra língua portuguesa. Língua e linguagem que são nossas, mas não são, são de outros além-mar. O texto de Lígia traz o espectador para os problemas deste palco que desaba, para o engenho da dramaturgia, para o mistério da atuação, o mistério de ser o outro a falar de si, quando fala do outro. Para este mundo mais que real.
Um Nó Apertado que não se desata, que nos enforca à medida que tentamos afrouxá-lo. Um nó que não se afrouxa, mas segue apertado, estendido em tensão entre a vida e a não vida do palco. Entre o simulacro que vivemos no dia a dia e sua verdade maior que mostramos no palco.
O texto de Lígia é um tirar a máscara e mostrar uma outra ficção por trás dela. A ficção que vivemos no dia a dia e que só o teatro pode revelar plenamente ao transformar um em outro.
Sempre tenho vontade de encenar os textos de Lígia, descobrir com atrizes/atores como se pode ser tão cru e cruel e colocar a palavra como dedo em riste, como lábios húmidos, como pele seca à disposição do espectador. Inventar um modo de fazer com que este não saiba o que fazer do que está ouvindo e vendo, até descobrir quem ele não é mas poderia ser se quisesse. Se tivesse coragem de romper a barreira das palavras, de atravessar som e representação gráfica, de estar nu no palco à espera de que ele desabe.
Marcio Meirelles