— Essa merda vai matar-te.
Perdi a conta às vezes que lho disse. Conhecia-a desde sempre, não havia momento da minha vida em que não me lembrasse dela lá, a irradiar positividade e a desconsiderar as pedras no caminho, como se não existissem, não pesassem e não fossem capazes de nos esmagar. Não quero parecer mal-agradecida, reconheço-lhe a coragem louca e imparável que tantas vezes me deu a mão, resgatando-me da espiral embriagada e destrutiva parida pela ausência de autoestima com a típica venda de banha da cobra, “o Van Gogh só foi reconhecido depois de morto” ou “também disseram ao García Marquez para se dedicar a outra coisa”, mas há limites para tudo. A gravidade puxa-nos para baixo, não é por acaso que nos dizem para ter os pés assentes na terra, voar é uma metáfora bonita, tirar o brevet também, mas sonha-se melhor deitado numa cama feita de lavado e com uma almofada a guiar-nos o espírito do que estatelado no chão. E ela era das que saltava de chapa na piscina.
(Vício dos astros, página 11)
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_sobre este livro
Com cinco “Delírios e um “Testemunho”, Joana Barata oferece, neste livro, uma oportunidade de nos posicionarmos no lugar de quem olha de fora para dentro. Não se trata apenas de julgar do outro lado do espelho, é uma apropriação das experiências alheias como quem corre ladeira abaixo, na fronteira entre ficção e realidade.
“(…) brincar com a semiótica, a inventar absurdos” e “experimentar uma inconveniência”, são modos de assumir o papel dos múltiplos “eus” — que se cruzam, opõem e distorcem, como os quatro imaginários da fotografia de Roland Barthes: quem se julga ser, quem se pretende que os outros pensem que se é, quem o fotógrafo percebe, e de quem este se serve para expressar a sua arte.
Este livro apresenta-nos seis contos com ecos de relato, temperados com o resgate de mitos, referências literárias, cinematográficas e, porque não?, quotidianas do universo da autora. A voz e o ritmo próprios revelados não se esgotam na estrutura narrativa. Em “Quem?”, a composição visual tece uma relação com o leitor que transcende o decifrar do sentido, envolvendo o corpo, e até o pulsar do sangue, nas variações da leitura de uma palavra.
Números ímpares não são divisíveis em dois números inteiros iguais, não têm par nem igual, são únicos, extraordinários, e jamais poderiam ser (apenas, arrisco acrescentar) múltiplos de dois. Constituem, por isso, um convite ao delírio e ao testemunho da vida destas mulheres — também elas — ímpares e múltiplas.
Para a pergunta “Quanto custa a liberdade, por favor?”, não tenho respostas, mas feitas as contas, ler estes delírios que precisavam ser imaginados e o testemunho que não pode ser calado pode bem ser um acto de resistência.
Isabel Peixeiro
_outras informações
isbn: 978-85-7105-238-3
revisão: marcella sarubi
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5 cm
páginas: 54 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª