Quando Alexandre me convidou para escrever a orelha deste novo livro, fiquei muito honrado, evidentemente, mas também muito apreensivo.
“Quem sou eu para escrever qualquer coisa a respeito de um livro do Alexandre?”, não pude deixar de pensar. Eu, que toda a vida tentei expressar minha admiração a ele, fui formalmente intimado a escrever a orelha de seu terceiro livro publicado — o primeiro em prosa.
O menino que não veio talvez seja a escrita mais fluída e leve do Alexandre — algo que, o conhecendo, custou muito, muito caro. Quase dá para ver cada palavra sendo cuidadosamente forjada. Natural para um trabalhador da palavra como ele, mas dolorido.
Ao mesmo tempo, quase dá para dizer que foi escrito de uma vez só. Parece que O menino que não veio chegou de supetão e que o autor do livro teve uma verborragia.
A despeito de tal leveza e fluidez, não há absolutamente nada de superficial nesta obra. Existe, aqui, um cotidiano, uma banalidade profundamente humana. Como alguém que entendeu um pouco do que é a vida — e que as coisas são mais complexas do que parecem.
Um passeio de Alexandre sobre as miudezas da vida, mas, sobretudo, precisamente sobre as grandezas dessas banalidades.
Uma família e uma perda, o chão vermelho de Brasília e a época de chuva, os silêncios e as músicas de Milton Nascimento, os sumiços e os acenos, o humano e o éter.
A vida, a morte e tudo aquilo de cinza e de colorido que há no meio.
Tudo em um espaço-tempo que parece não ir muito além de uma entrequadra — ao mesmo tempo que chega a Aparecida de Minas, triângulo mineiro, e ao nosso íntimo.
Neste terceiro livro de Alexandre, parece haver um tensionamento ainda mais evidente, algo que estressa ainda mais a corda entre realidade e ficção, discussão que me parece superada por ele já em outros momentos, mas em definitivo aqui.
Se é real, o que importa? Se é ficção, importaria mais, ou menos?
Real ou não, ficcional ou não, ao longo de todo o livro, busco desenhar visualmente a existência desse menino que não veio. E é quase como se o visse em alguns momentos. Algo que me incomoda, por vezes, e acalma em outros — como se estivesse aqui.
E não está?
De todo modo, vejo muito do Alexandre nesta obra e essa talvez seja a maior característica e qualidade deste livro.
Sem querer jogar pobremente com palavras — ou cometer trocadilhos infames, com o narrador do livro —, mas, de alguma forma, Alexandre é, paradoxalmente e simultaneamente, o menino que veio e o que não veio.
Muitas vezes, dolorido. Outras tantas, bonito. Em ambas, singular. Para ler em um fôlego só. Um fôlego dolorido e bonito.
Mateus Vidigal
jornalista e fotógrafo