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	<title>Artes Visuais &#8211; Editora Urutau</title>
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		<title>Exercícios de observação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Nov 2025 19:24:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Caminho de volta. A sombra é invertida. Agora já são mais de 60 borboletas. Parei de contar quando uma estava para morrer. Não tive coragem de guardá-la.
Estou numa porção de terra cercada de água por todos os lados, menos um, ligado ao continente. Quase ilha.
O cheiro de mangue ativa alguma parte da memória e me joga para longe. Precisamente dez anos atrás. A incompatibilidade entre o tempo corrido, o vivido, o lembrado, o esquecido, o sonhado. Pessoas e lugares que não posso resgatar. Pequenos falecimentos coletivos. (...)

(<em>De murunduns e fronteiras</em>, 2010)
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Não são evidentes as relações entre a arte e a escrita. Saindo do campo tradicional da crítica e da história, geralmente lemos mais textos que informam sobre uma obra do que aqueles que seguem contribuindo para abrir ainda mais o que pode estar em jogo. No caso de artistas que escrevem sobre os próprios trabalhos, esses produzem com uma liberdade rara, já que não há fórmula prévia para uma escrita desse tipo. Do teórico ao telúrico, eles conseguem produzir algo que, neste livro de Luiza Baldan, é precioso: fazer com que as palavras sejam parte de um tempo espiralado que atravessa duas décadas e seis países.<br />
Com uma rara capacidade fabuladora, Luiza Baldan é esse tipo de artista que faz da escrita uma eletricidade plástica. Em outras palavras, quando lemos os textos deste volume, cada um dedicado a uma série criada pela fotógrafa, as imagens ganham outra voltagem. A excelência literária, sua liberdade de estilo pra cada situação (autobiográfico, jornalístico, poético, investigativo), a beleza original das imagens construídas, tudo isso expande cada foto e vídeo associados pelos títulos àquelas escritas. Se a maioria de seus trabalhos são dedicados a espaços, arquiteturas, geografias, seus textos mergulham em retratos humanos, desnudando anônimos e nos tornando íntimos do que não vemos.<br />
É como se a escrita de Luiza fosse uma contra-pele de suas imagens, pois ela aguça os sentidos e nos fornece um laço sensorial com o visto. Passamos a ouvir os sons, sentir as texturas e perceber os cheiros em cada fotografia. Em suma, como diz a autora, “de histórias vivemos mais que de imagens”. E são as histórias sobre a História, as fabulações que falam do tempo — de sua perda, mas também de sua busca — que transformam as imagens em recortes de algo sempre maior. Talvez seja esta a singularidade da arte de Luiza: a imagem não basta, e a escrita só existe porque há imagens para serem feitas. Uma simbiose que produz um arquivo incompleto, porém perfeito em sua incompletude.<br />
Se as suas fotos são afirmações autônomas de uma força plástica na história da arte, seus textos são peças impecáveis em sua força escritural. Cada um deles conta uma história em si, sustenta uma narrativa delicada de uma artista em trânsito, sempre aberta ao novo e sempre perplexa com o comum. Em um mundo cujo sentimento de perda é constante, Luiza Baldan escreve para que o tempo não seja apenas aquilo que se esvai, e sim o que, ainda, se pode.</p>
<p><strong>Fred Coelho</strong></p>
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		<title>A curva infinita</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Mar 2023 11:13:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[estou, estivesse esta noite pronta para receber a água, o
sonho, o corpo, o espírito de algo que nasce a partir do
meu corpo, receber o parto, o gesto de partilha, o verbo,
tenho tido no entanto sonhos de águas que correm entre
as minhas pernas e descem pelo ralo, que brotam
e criam desertos sobre a cama seca, o frio seco do
vento que entra pela janela, a planta que coloquei
no canto e que deposita sobre a campa perguntas
sobre o frio que a lâmpada incandescente
não será capaz de responder.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Ilustração de Julia Panadé</p>
<p><a href="https://editoraurutau.com/wp-content/uploads/2023/01/ilustra-1.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone wp-image-15653" src="https://editoraurutau.com/wp-content/uploads/2023/01/ilustra-1-205x300.jpg" alt="" width="400" height="586" /></a></p>
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		<title>O mar sem nós</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Aug 2022 14:22:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p class="font_8">quando o mar
verter sua memória
nos vidros da estante
meu mundo
estará mais completo
:
abrirei a porta
por onde saem os monstros
e investigarei
os fragmentos de meu corpo</p>
<p class="font_8">(Poema do vidro)</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>Personificamos tantas vezes essa terra escura, essa terra seca e quieta, estendida num tempo que nunca há de caber em relógios ou calendários. Somos tantas vezes esse território onde está o tudo que só o nada pode conter. Que podem os olhos saber duma paisagem assim? Que podem fazer o sangue e a pele, que podem as vozes construir para despertar um mundo assim, para o revelar, para o trazer ao <i>mundo? </i>Que ossos é preciso cuidar de ter para suportar um peso assim, um equilíbrio assim, uma perfeição assim do tamanho duma borboleta, ou do sopro certeiro dum vento? É hercúleo o trabalho do poeta: ligar o visível ao invisível, redesenhar o bem e o mal, escolher as linhas e os traços, meticulosamente, até tudo se tornar vida, esta vida, uma vida. E ler tudo isso, fluentemente, como se fosse água, a água que tudo ocupa, que toma os mais ínfimos espaços e que corre, que corre até à sede de alguma coisa ou de alguém.</p>
<p>Que beleza ir buscar aos séculos (todos os séculos são remotos, como a verdade) a explicação <i>deste </i>momento, <i>deste </i>segundo, que a tropeçar no coração ou no olhar, cai sempre num gesto que se revela ou se esconde, num papel, numa tela, num muro, numa confissão que é preciso fazer aos outros, que é preciso trazer para o lado em que nós próprios existimos como outros, porque «tudo o que temos são trapos fervidos» e é com eles que «desafogamos o mercúrio» da nossa mortalidade.</p>
<p>Às vezes uma palavra é um mapa. É o itinerário dum corpo, «uma bússola desesperada» que nos aspira centripetamente para a retorta do amor, transformando a terra escura, seca e quieta num frenesim de fendas e de rasgões por onde toda a loucura das sementes pode enfim extravasar. Como este livro. Um poeta nunca dá um nó que não possa desatar. <span style="color: #ffffff;">Augusto Meneghin</span></p>
<p><strong>Gil T. Sousa</strong></p>
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		<title>Cosmos e casas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Nov 2021 17:04:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[sendo o coração pedra,
estrutura regular poliédrica, cuja morfologia
move em constante vocação hialoide,
o embuste do silêncio incide

<strong> </strong>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Cosmos e Casas</em> é o livro de estreia de uma poeta que pressentimos vir de há muito constelando vozes, e que logo de entrada, “sendo que amor e palavra alinham distâncias,” assume o ofício de fiar versos para constituir e cruzar corpos, para correr riscos, para descobrir (mas não colonizar) o eu, para ligar e se alterar. Daí também, desde o início, a assunção da aventura do amor, desafio e metamorfose no outro pela palavra, a reivindicação e dádiva de uma encarnação: “sou teu corpo / dito / génese.” Transmutando-se, prossegue-se pela aliteração e pela invenção das imagens, por guinadas de sintaxe e dobras de morfologia (por exemplo adjetivos a agirem como verbos). As associações não surgem meramente por contiguidade mas por ondulações e feixes, procurando ramificados desenhos, mais amplos e melhores prolongamentos, a desfazer convenções e espartilhos, a pretender uma compreensão do cosmos à margem da discriminação do logos: “Em vez de ciência crua quero tratados alquímicos pura magia tudo o que existe e se conquista pelo sono ou se expande no segredo da meditação”. Não que se rejeite o que revela o conhecimento científico, antes se valoriza o seu abalar do sólido, o desfazer da ilusão de ser fixo o solo: “a crosta afinal terreno / móbil resvaladiço içando fraca barreira / ao avanço líquido”.<br />
Crente na emergência a partir do movimento, esta poesia evita dualismos, e, imbuída de uma ironia capaz de matizar acusações, não se demora na mera contraposição. Se “Madame Bovary” ou “Princesa de Clèves” lamentam a tipificação literária da mulher dividida entre a liberdade passional e a circunscrição social, nestes textos vai-se descobrindo um feminino lírico capaz de se reinventar, de se multiplicar, inclusive de alargar o sentido da maternidade além da biologia, da família ou da genealogia – a um fazer da comunidade, ao evento generativo do poema: “a palavra cantante / o verbo ardente / muro vivo do poema / corpo sílaba / sangue” . Por outro lado, se há em certos textos revisionismo literário, há, acima de tudo, restauração: dos textos e ritos sagrados em que a palavra é corpo e profecia, em que poesia é oração e êxtase, de uma tradição espiritual herética e erótica, evocando o “Cântico dos Cânticos” ou o misticismo desejante do andaluz Al Mut’Amid, bem como legados de sabedoria e visões sagradas do Oriente. Comparecem ainda a música e uma memória moldada pelas artes visuais (“imagem treme tangente tragando resquícios por ela conduzo”), e celebra-se, pelo saber dos sentidos, enfim, a união dos corpos como ascese caleidoscópica a mais vastos planos, de que a palavra é inscrição, gesto de mistura e desvendamento: ou “as mãos entrando na pele / até outro reino onde somos um no outro.”</p>
<p><strong>Margarida Vale de Gato</strong></p>
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		<title>Banana feijão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Jul 2021 17:52:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<strong><span style="color: #ff0000;"><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/maria-carolina-marchi">Maria Carolina Marchi</a> </span></strong>[ilustração]

a tropicália é a obra-mapa
cartografi a afetiva
labirinto-corpo
você experimenta
e faz de si um ser-atuador.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nossa senhora dos cordões: é assim que chama aquela que amarra caminhos, costura tempos, entrelaça palavras? Eu<br />
não sei, mas peço bença pra pisar devagarinho nesse trançado em que lá e aqui ora se juntam, ora se afastam. Nos intervalos entre um bloco e outro, a poeta organiza o carnaval. É carnaval! É benzimento isso que se faz na mistura, ou é o feitiço da ondulosa? Porque a receita pode levar vários nomes: colagem, montagem, sampler, citação, afeto, apropriação, macumba. Também, por que não? “Não tenho nada a dizer. Somente mostrar. Não vou roubar nada de precioso nem me apropriar de fórmulas espirituosas. Mas sim, dos arranjos, dos restos: não quero fazer o inventário disso, mas permitir-lhes obter justiça da única maneira possível: utilizando-os”. Peço a bença também a Benjamin, saúdo a ancestralidade e sopro a palavra: Juliana Pithon estreia na literatura fazendo corpo, fazendo mediação de acontecimento. Corpo médium meio baiano meio paulistano. Ela poeta serpenteia no terreiro. E não faz corpo sozinha. Maria Carolina Marchi segue cambonando poesia: ilustrando, mostrando, demonstrando. Criando imagens do tempo-monstro que engole a si mesmo regurgitando novos sentidos: antropofagia, tropicália, a treva do agora, governo e desgoverno, baile funk, transe, transa, tudo entregue no centro da gira, rodopia poemapoesia e teatro de impossíveis. Porque o desejo é a ativação de novos mundos.</p>
<p>Entremundos: entidades encarnadas e desencarnadas, guitarras-elétricas e orixás. Intermundos: arte, política e ética: bateria-corpo-instrumento é / ritmo dança movimento / no palácio / no carro / no portão / que se abrem / para o ato de renúncia: Banana feijão é isso: um corpo aberto. Por isso, generoso. É poesimagem que convida à participação porque não subestima a leitura. Muito pelo contrário, giro pensamental: corpo de fé esse livro que esperanceia que outre também saiba trançar o interrompido, que possa continuar a criação. Porque é na interrupção – dos versos, das histórias, da História – seu ato político-poético e procedimento filosófico: “o que as práticas de apropriação operam como diferença é justamente a mudança da leitura como autoria implícita para uma autoria explícita” (Villa-Forte). E é bonito isso de ver a palavra incorporando, a ideia virando força, a paixão despenteada rindo largo com o copo na mão&#8230; salve a corpa que carrega e faz falar o que não pode calar! Tomara disse nada: [spoiler é coisa de narrativa frágil, portanto]</p>
<p><strong>Geruza Zelnys</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Ficamos eu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Apr 2021 14:15:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[eu estive tão perto
minha calma assistia solene
cada fibra do fio que partia
como se eu não estivesse]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Escrevo esta orelha para que outras ouçam as palavras da Talissa Ancona Lopez, que batem à porta do ouvido, desesperadas por entrar. Recordam-nos que o desejo não espera, pois onde crepita, feito reticências fúlgidas — “bom, evidente que o desejo ele…” —, as perguntas brotam e a eternidade se desdobra.</p>
<p>Mediante uma poética do “contrapé” delicadamente gozadora, essa ânsia traz na esteira do seu tremor uma contraposição: é “meio pé” de equilibrista que rodopia em “meio-fio” de verso boiado, antes de dar “meia volta”, por “meio querer”. A palavra tombada da ponta da língua desdiz ao mesmo tempo que arrisca, e a prontidão da escrita, empenhada em costurar lembranças semiditas, palimpsestos ruidosos e cantadas suspiradas, desemboca numa airosidade buliçosa e aérea.</p>
<p>Em um primeiro espasmo do livro, o poema <em>Dictionnaire du corps</em> traz à luz a espessura altamente carnal do caldeirão onde ferve a escrita. A dobra mais sensível do “origami” se entreabre, ofegante, em <em>Carona na capital</em>: “por baixo das palavras as mãos teimam”. Envolto em palavras que o “rondam” e “apressam”, o corpo insiste em se dizer. Sensual, obstinado, espalhado entre mil contorções desvairadas e algumas convulsões silenciosas. Em <em>Ficamos eu</em>, a poesia não irrompe, tampouco surge. Ela jaz, à flor da pelepapel.</p>
<p>Aí, frisa-se a importância da psicanálise para a autora. Além do leitmotiv da sessão como componente do cotidiano pincelado neste livro, sua leitura recoloca de forma original a questão da relação entre o suor analisante e o elã poético, notoriamente aberta pela poeta H.D. em <em>Tribute to Freud</em>. Se ambos nascem do mesmo arrebatamento diante do “mar de palavras” escorregadias que parece não acabar nunca, a frequentação do divã não seria uma extensão da cama de lençóis desarranjados em que, segundo André Breton, a poesia se faz como o amor?</p>
<p>Os versos aqui selados, frutos de uma aposta inédita, respondem à pergunta de modo singular, pela public-ação. Assim, enquanto uma análise pode levar à redução do ego imaginário a um puro “eco seco”, ao lançar seu primeiro livro, Talissa demonstra um passo dado além (ou aquém? ou simplesmente fora?) da depuração que o título evoca, discretamente, do lado da solidão com a qual cada um há de carregar sua dor.</p>
<p>Convidado a se constituir como horizonte renovado de escuta, cabe ao leitor, doravante, tornar-se a caixa de ressonância do grito íntimo da poeta. Basta abrir essas páginas “devagar, como se economizando o tesão do ruído do papel pelo corpo”.</p>
<p><strong>Marie-Lou Lery-Lachaume</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Quem dera o sangue fosse só o da menstruação (vol. II)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Nov 2015 13:39:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ellen maria martins de vasconcellos / mariana paiva / thaís campolina / isabela sancho / julia bac / lara carvalho / paula silva / sabrina dalbelo / kalina paiva / carolina hidalgo castelani / mariana pio / lia d’assis / yolanda lópez / maya falks / susy freitas / clarice landi / ayssa norek / gabriela gonçalves / carolina braga ferreira da costa rosa / luísa zanni / carla beatriz / milene moraes / gabriela luna / eilún del pazo moa / maria do carmo costa e silva / neysi oliveira / carolina lobo camila morgana lourenço / cris guimarães / martina camini / clarissa comin / jéssica andrade / tássia veríssimo / mandi moreira rafaela miranda / pilar bu / andreia tavares de sousa / paula quinaud / maria azenha / luísa monteiro / mar becker /cristina corral soilán / adolfina mesa / aline macedo / amanda bambu / annalau / capitu / coletivo duas marias / fran rebelatto / giselli m / giulia cavalcanti / jéssica saggin / júlia bertú / lana maciel / lara marques / li vasc / lionizia goyá / m céu costa / marianna viana / milene tafra / paula holanda cavalcante / tatiane rebelatto]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#8221;Da alma de uma mulher só saem palavras de amor. É o que dizem. Se não é amor, é silêncio.</p>
<p style="text-align: justify;">O tempo escondeu a voz das mulheres em um mundo que não as aprecia. O vento abafou todos as frases que elas tentaram dizer. Tudo parecia em vão.</p>
<p style="text-align: justify;">Na hora de escrever falavam a mesma coisa, tudo que vem da caneta da mulher é amor. E a tinta borrava o que não fosse isso. O papel tremia se as palavras viessem com mais força.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas os dias passaram e com ele as paredes começaram a cair, não resistem a passagem dos séculos. E a voz feminina, antes temerosa e aflita, ganha um novo som: a resistência que vem do coração, palavras duras se desenham nos cadernos, frases reais se desenham no papel com a tinta. Tudo o que foi calado começa a ser escrito.</p>
<p style="text-align: justify;">É muita dor. Sim, muita. A dor de séculos de silêncio. As palavras que saem agora não são doces nem amáveis, são flechas carregadas de dor, indignação e revolta. E a necessidade de ser escutada.</p>
<p style="text-align: justify;">Não espere em ‘’Quem dera o sangue fosse só o da menstruação’’ frases caramelizadas, versos açucarados, momentos cálidos e passagens amáveis. O que está aqui vem de almas quebradas, fraturadas, mas resistentes e dispostas a mostrar ao mundo o peso da verdade, o que é real nas almas femininas.</p>
<p style="text-align: justify;">E atrás de tudo que é real existe uma infinita beleza, uma transparência que se espalha pelo ar. Mulheres têm muito à dizer, depois de séculos sendo caladas. Mulheres têm muito a escrever, depois de séculos sendo afastadas dos cadernos.</p>
<p style="text-align: justify;">Em ‘’Quem dera o sangue fosse só o da menstruação’’ algo fica claro: é um sopro de brisa ler o que existe na alma de todas as escritoras. A leitura é um momento de agradecimento ao tempo, que agora abriu passagem para que possamos conhecer o que a alma feminina tanto tempo foi obrigada a esconder. Ao ler o trabalho magnífico das escritoras nos identificamos com suas almas, percebendo que o tempo silenciou nossa voz, mas nunca a apagou.</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos vivas. Temos muito o que dizer, escrever e viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Libertar uma voz é libertar a voz de todas&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Iara Dupont</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Casa Zero</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Oct 2015 17:03:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[desenhos de <span style="color: #ff0000;"><strong><a style="color: #ff0000;" href="https://waldomiromugrelise.bandcamp.com/" target="_blank" rel="noopener">Waldomiro Mugrelise</a></strong></span>

extrair do muro
a polpa
fruta exótica
destroçada
porta retornada lenha]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>Sobre este livro</h2>
<p><iframe title="Casa Zero by d i b u k" width="500" height="450" scrolling="no" frameborder="no" src="https://w.soundcloud.com/player/?visual=true&#038;url=https%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Fplaylists%2F1067088304&#038;show_artwork=true&#038;maxheight=750&#038;maxwidth=500"></iframe></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>30 (poemas de amor) para (os) 30 (anos de alguém que nunca amei tanto assim)</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/30-poemas-de-amor-para-os-30-anos-de-alguem-que-nunca-amei-tanto-assim</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Sep 2015 17:33:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<span style="color: #ff0000;"><strong><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/titulo/elogio-da-divergencia" target="_blank" rel="noopener">Elisa Scarpa</a></strong> </span>[colagens]

Domador de nuvens,
Você penetra minha
cabeça e limpa meu céu.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>Sobre este livro</h2>
<p><em>E nem depois. E nem dentro</em>. E nem sequer em São Paulo em 2023 nem na Beira em 1918, nem neste dia que corre agora à nossa frente ultrapassada a muita distância a primavera.  Nada é absolutamente certo; como tudo aquilo que conduz ao poema, existe e não existe. Mais do que um presente por cada ano desses 30 por fazer, o que lateja sob estes textos e imagens é uma promessa, aí é onde a poesia opera: no trajecto entre a esperança e o futuro. O seu ritmo é o de um encontro pactado com o mistério, uma alegria um bocado azeda que convoca espaços e dilata tanto os tempos que até  os pronomes podem trocar, de <em>você</em> para <em>ele, </em>por exemplo; na cama de papel que acolhe as palavras, podem tornar-se outras facilmente. Assim a leitura torna-nos também de revés, como algumas das figuras que pendulam nestes <em>collages</em>, com a cabeça virada para um amor que não tem fim.</p>
<p>Como esse instante em que se sente <em>o vento na cara sem nada em troca, </em>da mesma forma avançamos por estas páginas receando que alguma coisa aconteça, desejando que alguma coisa devolva o oferecido e nos acalme,se calhar  o que esperamos como indica o paratexto é  “um amor existir” ou concluir uma verdade. Mas o que realmente acontece é que<em> o vento na cara é a troca, </em>temos que seguir ao próprio acto solitário de ler e de amar, com a dose de equilíbrio necessária e a coluna erecta, recebermos as palavras de Maria Giulia Pinheiro como quem brinca a um estranho jogo que inflige uma dor miúda e terrorífica, inocente e invisível.</p>
<p>Atravessar este livro com o vento na cara, e as palavras na garganta quase a incendiar-se no agora, a abrir-se passo para explodir contra a intempérie, breves e exactas. Para não ficar com elas nem dentro, nem depois.</p>
<p><strong>Silvia Penas Estévez</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>América</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/america</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 05 Sep 2015 18:19:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[quando as mãos de um homem desconhecido
te tocam é preciso não intuir que
as suas próprias mãos sabem como se mover
é preciso não responder pelas mãos
de um homem desconhecido
não achar que
as mãos te ferem porque as suas não
sabem ferir
não achar que fosse também você um matador
haveria menos sangue
neste chão]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>Sobre este livro</h2>
<p>América: atentado poético-performativo a todas as subjetividades, estéticas, narrativas e cenas coloniais. América: diálogo entre carne e terra, ou o momento em que, ao saber-se território invadido, penetrado e revirado, o corpo descobre-se carne. América: trauma/memória secular, veias abertas, sangue que não estanca. América: sangue sobre terra: feitiço. América: tremor enfurecido que vem do centro da terra cobrar cada gota de sangue jorrado, cada grama de minério extraído. América: tu me deves. América: o continente está para a terra como o corpo está para a carne.</p>
<p>Em <em>América</em>, Francisco Mallmann atenta o impossível: separar as carnes com as próprias mãos, diferenciar o sujeito de quem o sujeita. O fracasso é iminente, e é por isso mesmo que <em>América</em> carrega em si o paradoxo inescapável da subjetividade colonial pela lente dos vencidos: se esse mundo segue, por via de outras mãos (outras naus), fazendo de nós aquilo que não somos, se a retomada do corpo tem de passar antes pelo seu desfazimento, então a subjetividade por si só não pode nunca ser ponto de chegada.</p>
<p>América faz necessária pressão nas línguas coloniais que vibram por nossas bocas, propondo uma linguagem que trai a si mesma, desconfia de si (“rasgar com os dentes as palavras que sei”). América se faz assim um texto performativo por motivos que vão muito além de ter sido escrito para ser lido em voz alta — performativo sobretudo porque mira o abismo da linguagem, grita o nome dado ao novo mundo e permanece, (corpo enquanto matéria: carne), para receber de volta o eco violento da terra que recusa o nome que lhe foi dado. E se a/o poeta/performer nunca se vira de frente, se ela/e nunca responde aos chamados que querem encerrá-lo em um punhado de palavras, este é precisamente o gesto que lhe garante acesso ao mistério. Sua recusa inaugura algo que está além e aquém do sujeito e da subjetividade, e nos apresenta, sem floreios e com primazia estilística, à vertigem do paradoxo constitutivo das nossas vidas: nos roubaram o corpo ao mesmo tempo em que o inventaram. E inventaram a América enquanto a roubavam.</p>
<p><strong>Miro Spinelli</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Todo Mar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Sep 2015 18:32:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[[fotografias de <span style="color: #ff0000;"><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/ana-emerich"><strong>Ana Emerich</strong></a></span>]
o gozo é feito de líquidos geológicos
densos.
de um tempo marcado pela revoada dos bichos agudos
entoando o começo do fim
cantando

infinto mesmo. só o mar.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>Sobre este livro</h2>
<p>A escritura salva de um naufrágio. Que poderia ser salvo de um naufrágio, quando o que se perdeu foi um mundo e, com ele, a língua dos restos? No mar, no fundo do mar, deixamos tudo o que não tem lugar, diz a escrita de Ana Kiffer, e ali, no entanto, tudo fica. Em fragmentos despedaçados, em estilhaços, esses restos nos dizem, como queria Walter Benjamin, que nada do que tem acontecido alguma vez pode ser considerado perdido para a história. Nem para a escritura, acrescenta Ana. Isso porque a escritura de Ana Kiffer começa com uma contextualização contundente:  Rio, 2017. É o presente, o momento atual, um momento de cataclismas e catástrofes; não se trata de um naufrágio individual, mas de um dilúvio, uma enchente produzida pela fúria do mar, o mar que toma tudo, diz Duras.</p>
<p>Esse dilúvio, como o dilúvio universal, é um castigo. Neste caso, contra um povo <em>que nunca conheceu de fato o diferente, que cerceou a diferença através de sucessivos massacres históricos, </em>e que em castigo, o mar fez desaparecer. A escritura de Ana conecta de modo sub-reptício a catástrofe natural com a histórica, porque no fundo, hoje, as duas são as duas faces de uma mesma direção.</p>
<p>Também essa nota inicial, essa introdução, nos diz que o que o mar nos tem devolvido não é uma obra, mesmo quando se trata de um livro de poemas, aforismos, fábulas, vidas visíveis e invisíveis, e verdades. Quer dizer: trata-se de um livro informe, como os que amava Artaud, a quem Ana Kiffer conhece tão bem; ou melhor: de um caderno que pode acolher a escritura indómita que não pretende construir uma obra, um todo homogéneo, uma escritura estabilizada. Por isso os poemas se entrecortam, os fragmentos em prosa se interrompem. Não há uma estabilidade nas formas porque o livro mesmo procura a metamorfose; ou melhor, o mar, todo o mar: o que nele se perde, o que ele arrasta, mas também, nesse arrastrar, também carrega e guarda.</p>
<p>Nessa indistinção entre história e natureza mergulha-se também o que fica de um eu que perde o rosto e abandona o refúgio da individualidade: por isso a escrita não é íntima nem externa. A perda de si involucra essa escritura que se confunde com o outro ou com a outra, de modo indistinto, porque do que se trata é de advir qualquer um, um qualquer ou uma qualquer, sem nome. Pode por isso haver cães e lixo e ossos, mas tem o sexo; um livro enfim aberto como um navio que se curva até que a água entra pelas bordas e o destrói.</p>
<p><strong>Florencia Garramuño</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Mulheres salgadas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/mulheres-salgadas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Aug 2015 19:43:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[[sumiês de <span style="color: #ff0000;"><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/lucia-hiratsuka"><strong>Lúcia Hiratsuka</strong></a></span>]

quem sabe
essas águas
nem sejam ﬂuidas
quem sabe esse amor
que nelas cruza
seja de fato
um ponto de paralisia
um flime travado
numa foto

minha cruz]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>“muitas mulheres habitam em mim”. É com esse verso prismático que entramos no livro Mulheres salgadas, de Cecília Furquim. E esse verso-síntese nos lança à frase pungente cravada no tempo, anos antes, por Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher: torna-se mulher.”</p>
<p>A evocação, apesar de intuitiva, justifica-se pelos versos que se seguem, página a página, nos quais diversas mulheres se multiplicam e convertem-se, cada uma e ao mesmo tempo – mãe, filha, amante, amazona e cunhã –, em uma pluralidade de vozes que tem como ponto de partida um único corpo.</p>
<p>Ainda que essas vozes irrompam de uma foz individual, jamais ela se confunde com um eu narcísico, clamando por uma atenção espetacular e egoica. Ao contrário, ela afirma, insistentemente: “não sei onde começa eu / continua outro / ou termina nós”. Esse corpo que diz “eu”, diz multiplicando-se, ora em uma suíte de murmúrios, ora num grito de espanto, indagando-se como parar um poema diante de uma bruta e covarde execução. Execução essa que se repete seis vezes a cada hora em um corpo órfão de pai e país.</p>
<p>No entanto, o poema não se cala, segue, continua, sempre, pois “para cada poema / cem armas / e mais de mil / balas”. E a voz de cada um desses poemas e cada uma dessas mulheres “tocam / notas de protesto […] pouco se intimida”.</p>
<p>E por mais que se tente, essas mulheres, esses corpos, cada vez falam mais alto, e cada vez mais fortes. Coincidem com a recusa de se deixarem oprimir – “o sopro de um corpo / mistério / não cala”.</p>
<p>Os poemas se dão sob uma linguagem cuja musicalidade nos submete a uma espécie de encantamento, como se neste mar fôssemos conduzidos por Circe e, sob seu feitiço, apresentados a um universo que se desdobra em muitos outros, alguns conhecidos outros sequer vislumbrados.</p>
<p>Esse corpo-voz é metamorfose: é Len “a comer o mundo / pelo esquerdo”; é uma recusa a ser “tubo de ensaio” ou “carne de caridade”; é, enfim, uma Frida cujos êxitos vão além da obra.</p>
<p>Passeando por essas mulheres, por seus corpos e histórias, somos banhados pelo sal delas e lançados em um mar de vozes e corpos que, transfigurando a conhecida sentença de Beauvoir, dizem em alto e bom som: nosso nome é legião.</p>
<p>Em cada uma dessas mulheres ­– filhas, mães, amantes, amigas, guerreiras, artistas ­– fala, ao fim de tudo e de todas, o desejo.</p>
<p>“desejos prescindem hormônios”.</p>
<p><strong>Diogo Cardoso</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Monstera</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/monstera</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 18 Aug 2015 19:49:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Moedora de gelo,
mastigadora de lápis,
mordedora de braços –
o movimento,
fome seca
que nunca passa.

Trituro sem dentes
esse mamilo empedrado
até liquefazer
a ausência do leite
com o músculo mais forte
de nossos corpos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>Sobre este livro</h2>
<p>Nas palavras e na agudeza de todos os sentidos do objeto, <em>“Monstera deliciosa”</em> é a força da superfície que liga o determinado sentido da Natureza.</p>
<p>A vida, a luz, o óbvio e o improvável – perseguem nesta sequência de imagens o amor, um amor.</p>
<p>As linhas de uma verdade escrita.</p>
<p>Um trabalho de silêncio e mito que se debate no vácuo e na plenitude.</p>
<p>No vazio e no cheio.</p>
<p>Imagens a negro entre todas as cores sugeridas ao coração porque se conhecem ainda.</p>
<p>As imagens vivas.</p>
<p>As outras no branco, quase mortas.</p>
<p>Isabela Sancho completa-as numa imponente e sustentável mão que a determina.</p>
<p>A poeta das imagens, referidas a contento e no completo movimento de olharmos cada poema, que nos deixa aqui como sendo uma imagem extinta.</p>
<p>A Natureza quase morta.</p>
<p>O que pede que se veja, o leitor o fará, ainda em mais palavras do que estas sobre a poeta Isabela Sancho e a sua tinta negra.</p>
<p><em>“Melodia</em>” cobre, a qualquer hora, o dia. <span style="color: #ffffff;">Isabela Sancho</span></p>
<p><strong>Inez Andrade Paes</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Recomece, agora sem cigarro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Jul 2015 20:15:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[exercite:
revide com reviravoltas consiga
explicar na própria fala os limites
do esquecimento que nela trabalham
avance protegida pelo esconde-esconde
retire o cigarro da boca
é assim <em>que</em> <em>sinto mas sem o fogo</em>
desinvente: uma coreografa lenta:
um destino subordinado
diga pras suas pernas que aceitem graciosas
os passos repetidos
(e não tropecem)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>Sobre este livro</h2>
<p>Este é um livro de coragem. Aqui você encontrará um corpo exposto, como se virado do avesso. Christine Gryschek se aprofunda na carne, revira a mente, estuda o coração e, no fim da jornada, nos apresenta: aqui está o avesso. Ainda assim, este não é um livro de destruição, mas todo o contrário. A poeta atravessa as sombras e a loucura para criar a si mesma, num parto doloroso, mas cheio de possibilidades.</p>
<p>Os poemas que aqui conversam conosco trazem saltos, corvos, esfinges, oráculos silenciados e deuses em ruínas. Em certo ponto, o eu-lírico nos diz: — <em>na minha mente há uma mulher intuitiva — / — na minha mente há uma mulher que insiste</em>. Estamos na presença de uma poeta ciente de que o bom trabalho na poesia, como na vida, depende da insistência. Em seu livro de estreia, Christine já sabe que escrever é escavar com vagarosidade e atenção. Os poemas moram escondidos em lugares escuros. É preciso buscá-los — sem causar sustos nem fugas — dentro das cavernas, no céu da boca, no oco da caixa torácica, nas águas do mar, no chão do inferno.</p>
<p>A partir de uma autopoiese inclemente, Christine propõe recomeçar sem a fumaça turva do cigarro, com a visão clara e o pulmão aberto. Não se volta atrás, ela nos diz, mas se recomeça. Não há volta porque não há para onde voltar. É preciso escrever os lugares com os pés, assim aprendemos nesta obra. Trata-se aqui de se posicionar na curva do pensamento, bem ali onde se tem o melhor ângulo para olhar, ao mesmo tempo, para dentro e para fora. Os resultados dessa exploração podem ser violentos, mas também libertam.</p>
<p>Entre versos às vezes narrativos e às vezes entrecortados, percebemos a beleza da vida banal que exige compras na padaria e também encontramos razão no olhar quase surrealista capaz de enxergar os ossos do furacão. Este é um livro de imagens, e não apenas por conter ilustrações. <em>O fim de todas as imagens pode acontecer</em>, Christine nos alerta enquanto constrói experiências com essas mesmas imagens. Uma mulher nua desce as escadas, um pássaro pousa sobre o cérebro, alguém alastra o fogo pelo mundo.</p>
<p>De cima de suas contradições, a poeta grita que viaja na direção de seus medos e confessa baixinho que desconfia do corpo quando goza: há medo e fascínio nos poemas de <em>Recomece, agora sem cigarro</em>, porque há medo e fascínio no corpo e no gozo. Mas você pode seguir sem desconfiança na leitura, lembre-se apenas de levar a coragem. Como dizem os versos de Christine, a partir deste ponto,<em> todos os caminhos são noturnos e / são teus</em>.</p>
<p><strong>Julia Dantas</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Aos outros só atiro o meu corpo</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/aos-outros-so-atiro-o-meu-corpo</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Jun 2015 20:20:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Exercitada: a matemática é ridiculamente feita
de desejo.
Dizemos que um intervalo é aberto quando
seus extremos não estão incluídos. Exemplo:
meus olhos, dois números irracionais
sobre a conta dos teus cafés da manhã
veja:

qualquer boca é metade de um beijo.

O corpo querendo 1 corpo a mais.

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">S</span>obre este livro</h2>
<p>Existe literatura feminina? Essa pergunta nos é feita sempre a nós, poetas-mulheres, e de certa forma ela nos persegue. Ainda que gênero seja uma invenção, a divisão sexual do trabalho e os papeis sociais impostos às pessoas que se autoidentificam como mulheres* é muito real e esses fatores influenciam nossa escrita, óbvio, porque influencia a nossa vida. Assim sendo, é claro que existe uma literatura feminina, por mais raiva que eu sinta em aceitar. Só que esse aspecto, que por séculos foi limitação, vira elemento emancipador, a partir do momento em que nos acotovelamos para dar a nossa versão dos fatos: se é nesse mundo, e não em outro, que vivemos, e se as coisas são assim, e se há coisas que só um corpo de mulher sabe, então é disso, meu amor, desse corpo nesse mundo, de que falaremos.</p>
<p>Nesse sentido, a poesia de Maria Isabel Iorio vem como um coquetel molotov atirado por alguém que está sozinho, mas sozinho está no meio da multidão, dentro desse protesto infinito que é ser mulher, e que é ser mulher brasileira desde 2013. “Aos outros só atiro meu corpo”, que começa com a palavra <em>chupar</em> e termina com a palavra <em>falar</em>, é um livro sobre a solidão que historicamente nos persegue em todas as nossas facetas – poetas, mulheres, feministas, esquerdistas.</p>
<p>Como diz a própria autora, existem ofícios, hábitos e acontecimentos que só podem ser feitos quando estamos sozinhos – “cortar as unhas depois do banho”, “lembrar escovar os dentes de trás”. Ser preso político. Morrer. Morrer trabalhando. Morrer de desgosto, desistir. Morrer não em outro, mas <u>neste</u> mundo – o de Brumadinho, de Suzano, o de Damares, onde podemos contar com tão pouco, onde nem mesmo a dor é companhia certa, porque “parece que a dor também se atrasa”. Mas esse é o mesmo mundo onde nossos dedos tremem quando adentram o corpo que amamos, onde “qualquer boca é metade de um beijo”.</p>
<p>O livro de Maria Isabel Iorio não vai te afagar, talvez porque seja 2019, talvez porque ela confie que nós, seus leitores, precisamos menos de afago e mais de sustos. De menos aviso de gatilho e de mais coragem. Eu não sei o que Bel queria com esse livro, mas sei que ele está situado, pensando em nós e existindo entre nós, no Brasil 2019. É esse seu maior feito.</p>
<p><strong>Adelaide Ivánova</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Astigmatismo ou redenção</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 May 2015 20:46:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p class="p1">Ilustrado por Inma Serrano &#38; José Louro</p>
<p class="p1">Não há absolvição
apenas a ilusão de um recomeço
a subversão do ontem
perfídia disfarçada
urdindo formações de desalojados
saciando a abstinência virulenta
cabeças que cortam cabeças
matilhas de pássaros orgânicos
causando a obstipação dos profetas</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2>Sobre este livro</h2>
<p class="p1">Astigmatismo ou redenção é um livro felizmente sem chave que coloca, ao mesmo tempo, em cena a bruma e o brilho, a morte e a claridade, a mesa (farta de ser) e a sua severidade. No final, não há uma única palavra que se sinta circunscrita, pois aquilo que se salva acaba sempre por escapar ao insondável. Matéria exposta, pois então. <span style="color: #ffffff;">Pedro Loureiro</span></p>
<p class="p2"><strong>Luis Carmelo</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Água forte</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/agua-forte</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 May 2015 17:15:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[fervem nos ombros
dos montes
as pedras do silêncio

e isto podia ser o mundo
ou a casa onde a morte
se cansa de mentir

no céu, só os restos
dum incêndio trabalham
esta febre do olhar

toda a tarde
te respiro por entre
as árvores submersas!

estou tão quente
como um fruto
que o sol ferrou

só, só eu
te sei cantar
até seres chuva

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>O tempo gera seus frutos na escuridão da terra, isso é fato. No entanto, o caminho que a semente percorrerá até virar colheita é misterioso. Não podemos prever o rumo dos ventos, nem o número de eras que tardará, nem o instante preciso em que a vida se faz. Foi nesse emaranhado de destinos que conheci Gil T. Sousa.</p>
<p>Seria ingênuo e pretensioso de minha parte descrever o tamanho desta obra. “Água forte” é um livro precioso que guarda “geografas de sangue”, “apodrece dilúvios” e que nos mostra que não se pode apreender rostos apenas contemplando quadros. Seus versos falam da imensidão de nosso breve suspiro no mundo, de nossa finitude, mas não se esquecem de revelar a eternidade das pequenas coisas, como algum amor que um dia esteve logo ali e hoje lateja apenas na memória, numa paisagem ou em algum gesto antigo. A poesia, neste livro, se faz do exercício diário de experimentar os olhos além da geografa cotidiana. Por isso é preciso ter coragem, derrubando os muros que guardam aquilo que não podemos ver, até que reste apenas “o silêncio se curvando como um animal sem voz» e escutemos, por fim, a profusão de pássaros escondidos nas palavras desse poeta.</p>
<p>Não tenho dúvidas da força tempestuosa e da bonança contida nas páginas a seguir, por onde saltam angústia, místicas manhãs, rumores de estações anônimas, e de onde a esperança não se esvai, mesmo quando o desconhecido emerge das cinzas em círculos de fogo.</p>
<p>Além de sua belíssima obra, Gil também contribui de maneira efetiva para a difusão desta linguagem chamada poesia, pesquisando e divulgando inúmeros autores. Talvez esse trabalho tenha sido um dos diversos fatores que construíram sua voz singular, afinal de contas, conhecer aquilo que já foi feito ajuda a traçar novas veredas.</p>
<p>Meu caro Gil T. Sousa, quando despertarem os últimos poetas e as aves solitárias me conduzirem para além dos bares, eu tomarei de teu cálice, juntos brindaremos a solidão dos deuses e te agradecerei por me “ensinar como regressar às palavras que abandonei e abraçá-las como filhos perdoados”.</p>
<p><strong>Tiago Fabris Rendelli</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Outono azul a sul</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/outono-azul-a-sul</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 May 2015 17:32:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[é uma entrada de luz por um furo
que pode ser um poro
e a luz pode ser um touro
o amor pode ser um apuro
uma brutalidade
e pra retirar o bicho cirurgicamente
pode ser duro
pode ser duradouro
uma eternidade
tecnicamente uma fraude
um silogismo indecente
há um sismógrafo no escuro
que pode ser um soro
o sangue sumidouro
daí o amor pode ser puro
novamente (e novamente)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p class="p1">Belíssimo, outono azul a sul é como uma onda que nos arrasta desde a primeira linha até lugares impossíveis de prever. É tão raro encontrar um verdadeiro poeta.</p>
<p class="p1"><strong>Ana Teresa Pereira</strong></p>
<p class="p1">Prêmio Oceanos 2017</p>
<p class="p1">Entre Lisboa e Rio de Janeiro, desponta um novo canto, herdeiro do vento, do desconcerto e do lírico. Assim é a poesia de Calí Boreaz, geografia do tempo, em seu instante forte e delicado. Uma estreia vigorosa, uma noite que grita, para dizer o mínimo.</p>
<p class="p1"><strong>Paula Fábrio</strong><br />
Prêmio São Paulo de Literatura 2013</p>
<p class="p1">Ao se dar a conhecer em versos de paixão precisa, Calí Boreaz é a poesia e nela aponta novos sentidos. Rosa dos ventos que, colhida de abismos marinhos, exala perfume de “maresia distante”. Seguimos viagem. No rumo ou à deriva, que importa se são seus versos a nos soprar as velas?</p>
<p class="p1"><strong>Francisco Azevedo</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Viajo com os olhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Apr 2015 17:36:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<strong>Autopsia das utopias (1986)</strong>

<img class="alignnone wp-image-2994" src="https://editoraurutau.com/wp-content/uploads/2020/11/Viajo-com-os-olhos-sobre-300x160.png" alt="" width="574" height="306" />
<h2></h2>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>O interesse pelo que há de mágico, incógnito e sapiencial na linguagem marca fundamente a poesia de Elson Fróes. Em seus trabalhos, os possíveis – e sempre abertos – sentidos deslizam explicitamente entre diferentes línguas e códigos. Deslizam como no poema “Lizard”, ou em “Gertrude Stein in the NET”, entre outros. A este deslizamento (a viagem) entre códigos Fróes chama “tradução intersemiótica”, procedimento estudado de modo pioneiro por Julio Plaza e que está na base da criação da maior parte dos poemas deste livro.</p>
<p>No poema “Gertrude Stein in the NET”, Fróes toma o famoso verso reiterativo “a rose is a rose is a rose”, de Stein, substitui a palavra “rose” pelo emoticon de rosa ( – &lt; – &lt;@) e dá ao conjunto uma forma circular. A substituição da palavra pelo emoticon, se por um lado lembra visualmente a imagem de um botão de rosa, por outro enfatiza seu caráter de signo, de artifício humano. Este e vários poemas do livro foram transformados pelo autor em GIFs e/ou videopoemas, o que confirma essa busca de sua poesia pela constante tradução e mutação em outros códigos e suportes. Busca, esta, também perceptível no fato de que Fróes, algumas vezes, cria uma nova fonte tipográfica para a realização de um determinado poema. Forma e conteúdo assumem relação muito íntima, desígnio que o poeta abordou no poema “XXX”, no qual retrabalha formalmente a frase de Fernando Pessoa “tornei minha alma exterior a mim”.</p>
<p>A tradução intersemiótica, tão presente nos poemas deste livro, é também um procedimento intertemporal. Épocas diferentes – e, acrescentaria: lugares diferentes – são marcadas(os) por dispositivos semióticos diferentes. O tempo é um tema recorrente na poesia de Elson Fróes, como podemos constatar nos poemas “sol no templo”, “devir/dever”, “tempo espelho”; “autopsia das utopias”, “caixa”, “lápide” e “Orfeu”. No poema “tempo espelho”, por exemplo, a estrutura visual do texto e a tipologia utilizada realçam uma simbiose das duas palavras de modo a romper a linearidade vigente na concepção contemporânea de tempo. Mas, o tempo, para Fróes, não é apenas um tema; ele está entranhado nos próprios procedimentos de criação, como podemos ver em “alvo”, “recifra-te ou devoro-me” e “love poem”. O primeiro utiliza linguagem poética e tipologia gráfica de inspiração camoniana; o segundo se vale de hieróglifos egípcios de uns 3.000 anos de idade; o terceiro tem como eixo uma runa secular. Em todos eles, o que nos toca não é um fetichismo saudosista, mas um<br />
estranhamento que suspende as noções estabelecidas dessas marcas semióticas de diferentes tempos e lugares e as fazem se interconectar com o tempo presente.</p>
<p>Assim, este livro é importante por reunir grande parte da produção poética – que andava dispersa – de um poeta raro pela constância e coerência de sua pesquisa. A reunião desta obra permite compreender a dimensão dos desafios que Elson Fróes tem enfrentado na tarefa de “airar o que empedra”.</p>
<p><strong>Julio Mendonça</strong></p>
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		<title>Kaput caput</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Apr 2015 19:08:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Uma mulher sem cabeça, uma conversa-pensamento consigo aberta agora nessas páginas como o diário de uma bruxa sem rosto, sem face. Nessa ausência de figura e semblante habita a mais profunda possibilidade de encarnar se como aglomerado anônimo de mulheres, meninas, manas, minas, gatas, bruxas, vadias, mães, magas, essa vibração infra e ultra perceptível do feminino. Perder a cabeça como gesto de vasculhar-se no íntimo para escancarar o vastíssimo repertório dos nossos enfrentamentos seculares. Perder a cabeça como indício de alteração do estado de regularidade, de normalidade. Não me venham com manter a cabeça no lugar. Que lugar? Aqui vasculho os labirintos de um alter-conhecimento, movida pelo inesgotável desejo de tornar-me insistentemente outrxs. Do ser e tornar-se mulher num mundo macho alfa, onde a decapitação, a mutilação e o feminicídio cotidianos vem esbarrando no anteparo potente dos nos nossos próprios corpos em manifesto.

<strong>Carolina Fonseca</strong>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>PARA NÃO ESQUENTAR A CABEÇA:  [1995, 29 de Setembro] Lei de Cotas para Mulheres nas candidaturas para as eleições no Brasil.</p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-3010" src="https://editoraurutau.com/wp-content/uploads/2020/11/sem-cabeça-Kaput-caput-300x214.png" alt="" width="300" height="214" srcset="https://editoraurutau.com/wp-content/uploads/2020/11/sem-cabeça-Kaput-caput-300x214.png 300w, https://editoraurutau.com/wp-content/uploads/2020/11/sem-cabeça-Kaput-caput.png 303w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></p>
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		<title>Sol quando agora</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/sol-quando-agora</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Apr 2015 13:29:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ilustrado por <span style="color: #ff0000;"><strong><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/ricardo-bezerra">Ricardo Bezerra</a></strong></span>. Música de<span style="color: #ff0000;"> <a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/rogerio-botter-maio"><strong>Rogério Botter Maio</strong></a></span>
<p class="font_8">sou nua
nua estarei nua
sempre serei nua</p>
<p class="font_8">nenhuma nudez se contém
tudo me transborda avessos</p>
<p class="font_8">rio em chuvarada
sol de caatinga
mas te peço:</p>
<p class="font_8">me veste</p>

<h2></h2>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>(…) <em>sol quando agora</em> é um livro breve e denso. São 30 poemas, divididos em 5 seções, sendo seis poemas em cada uma e foi elaborado a seis mãos. Ricardo Bezerra, professor na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e pesquisador das relações entre a linguagem visual da pintura com a literatura e a dramaturgia, produziu dois guaches para cada seção, sintetizando, em cada obra, a temática de três poemas. O artista faz uma releitura sensível da poética da Diana, intensificando o motivo solar por meio de formas, volumes, texturas e cores quentes e vibrantes. Os poemas foram escritos a partir da audição das seis composições de Rogério Botter Maio, contrabaixista, compositor, arranjador e produtor musical. Músico sofisticado de projeção internacional, Rogério já atuou com monstres sacrés da envergadura de Gerry Mulligan, Paquito d’Rivera, Lionel Hampton, e o gaitista Hendrik Meurkens e tantos outros, além de ter integrado o Nelson Ayres Trio de 1999 a 2005. Rogério Botter Maio busca uma linguagem musical brasileira, cujo sotaque dos ritmos nordestinos ressalta-se com a fusão do jazz, renovando a um tempo o jazz e a música instrumental brasileira</p>
<p>Segundo a apresentação assinada pelos três artistas, o livro “nasceu como gesto de alteridade, aposta no convívio de linguagens artísticas”. Além de uma lição de alteridade, os guaches de Ricardo Bezerra, os poemas de Diana Junkes e as composições de Rogério Botter Maio suscitarão no/a leitor/a uma tripla experiência estética; uma complexa rede de vasos comunicantes que se entrecruzam e permitem que cada artista ressoe a sua voz com autonomia. (…)</p>
<p><strong>Paulo Andrade</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>) manual do olho (</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/manual-do-olho</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Apr 2015 13:56:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: center;">no
esc
ur
o
oo
lh
oé
bu
rro</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-3018" src="https://editoraurutau.com/wp-content/uploads/2020/11/manual-do-olho-sobre.png" alt="" width="160" height="246" /></p>
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		<title>Livro dos pássaros</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/livro-dos-passaros</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Apr 2015 14:00:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Fotografias de <span style="color: #ff0000;"><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/nadia-maria"><strong>Nádia Maria</strong></a></span>

Envelhecer podando
o pequeno jardim,
controlando as obstinadas
formigas e outras pragas.
Consentir que a morte seja
contínua, como a chuva,
e ler, em cada lembrança,
a presença alegre
de um futuro.
<h2></h2>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>Embora não se possa falar objetivamente sobre os resulta dos de um livro sem excluir tudo aquilo que ele nos deixa não-dito, parece-me que a leveza de um espírito livre se desprende dessas páginas, porque afinal “O mar sempre avança contra a pedra”, esta dura pedra chamada tempo, chamada mundo, chamada corpo. E sem este avanço repetitivo que busca nos dissolver, qual início seria possível? Como ele mesmo nos diz:</p>
<p><em>Romper</em><br />
<em>o corpo</em><br />
<em>em mil</em><br />
<em>pedaços</em><br />
<em>é o começo</em><br />
<em>da alegria.</em></p>
<p><strong>Augusto Meneghin</strong></p>
<p><strong> <span style="color: #ffffff;">Túlio Stafuzza</span></strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Morfo-córporea</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/morfo-corporea</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Mar 2015 14:21:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[afivelei no peito as palavras do
conforto da saudade,
e encher-me-ei do meu próprio
propósito.
<h2></h2>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>Pablo Neruda — em certo momento de sua fantástica existência — comentou o fundamento do ato de escrever. Recorri, então, para realizar este prefácio, à sua famosa e irritante constatação: “Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias”. Neruda não foi, de forma alguma, arrogante. Foi sintético e penetrante. O obstáculo para a execução de um bom texto reside, justamente, nas ideias: buscá-las em nosso imaginário é uma tarefa difícil. Contudo, penso que a minha proximidade com a autora permite a elaboração de um quadro representativo convincente e otimista. O leitor deve saber, previamente, que, assim como outros(as) tantos(as) escritores e escritoras, Fernanda também lida com conflitos variados. Ocorre que, ao contrário do conflito básico evidenciado, por exemplo, em Drummond — mais precisamente em “A rosa do povo” — isto é, o “Eu versus Mundo”, o embate-base aqui é o de “Eu versus Eu”.</p>
<p>Lembro-me bem da conversa que tivemos acerca dos significados de “paixão” e “amor”. Nossas confusas (in)conclusões oriundas da pergunta, que, em minha opinião podem ter sido guia de alguns dos próximos poemas, como “Será que já amamos verdadeiramente alguém?”, preparam o(a) leitor(a) não só para alguns “insights” internos ou mesmo reflexões de momento. Eles também convocam a um baile de provocações, cuja parceira de dança é a própria autora, e a música, os versos.</p>
<p>Outro ponto fundamental que destaco, partindo para uma rápida leitura técnica, é a diferenciada construção poética. A noção provocativa se encaixa aqui também, já que a linearidade esperada é confundida por estrofes oscilantes, contando, por vezes, com versos curtos, sucintos. Fernanda ao buscar um estilo próprio, uma peculiaridade, importuna o panteão do <em>padronismo</em> que rege a produção textual dos tempos atuais.</p>
<p>Caro(a) leitor(a), a leitura deste livro é um delicioso exercício para aquele(a) que se descobre cotidianamente. Um exercício que visa perseguir a compreensão dos significados da vida e dos modos que se apresentam para vivê-la a partir da poesia. Por fim, desejo a todos(as) que leem os sorrisos, as caretas e as lágrimas (de alegria): as espontâneas reações de contemplação. À Fernanda, agradeço o espaço concedido e o carinho dado às minhas simples opiniões. Ouso, mesmo que só no fim, dedicar-lhe Rubem Alves: “Somos donos dos nossos atos, mas não donos dos nossos sentimentos. Somos culpados pelo que fazemos, mas não pelo que sentimos. Podemos prometer atos. Não podemos prometer sentimentos(…) Não se podem prometer sentimentos. Eles não dependem da nossa vontade. Sua existência é efêmera. Como o voo dos pássaros…”</p>
<p><strong>Samuel Campos</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>De barro e de pedra</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/de-barro-e-de-pedra</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Mar 2015 14:39:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ilustrado por <span style="color: #ff0000;"><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/natalia-gregorini"><strong>Natália Gregorini</strong></a></span>

recolhe cacos do vaso de barro no chão
nada restou inteiro — mas a flor
ainda pode ser
sonhada]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>O que há de mais bruto na poesia é a sua matéria onírica. Revelá-la é a tarefa do poeta, um escultor da linguagem. Assim então os talhes buscaram na pedra que sonha o corpo do poema, ou ao menos um rosto, uma boca através da qual o poema falasse. Os versos presentes neste livro, no entanto, parecem anteceder a prática do aprimoramento da linguagem pelas vias interventivas do talhe ou da lixa de polir. Parecem antes gerar novas formas a partir da combinação e dos constantes rearranjos dos significantes dispostos: pedra, pássaro, rio, entre outros recorrentes. As composições de Nydia Bonetti em De barro e pedra parecem não interferir com o preciosismo humano no som original das palavras, como se essas falassem por si mesmas e ainda pelas angústias da poeta, como se os “erres” do barro derivassem dos “erres” de terra, e a pedra desprovida de um “erre” fosse mesmo apenas uma parte do todo, uma saudosa mas imóvel solidão que sonhasse a unidade original do barro, tal qual suas palavram sonham o rio do silêncio que atravessa o livro. O fluxo da leitura dos poemas é fácil pois acompanha suas águas invisíveis. O efeito dessa leitura, porém, sofre desvios que conduzem quem lê ao interior das próprias paisagens internas, das pedras que em cada um pesam, do que em cada um desejaria ter um par de asas. É nesse sentido íntimo que as cores escolhidas pela ilustradora Natália Gregorini expõem a vida De barro e pedra. Com os olhos voltados ao rio mais próximo, alheia às conversas das grandes cidades, Nydia, como uma espécie de mitológica Pirra, lança por sobre os ombros seus poemas. Esses, ao tocarem o chão, transmutam o tempo em efêmeras flores. Mas há também aqueles que descobrem ter asas, e assim alçam voos, arrastando as pedras da poeta para novas distâncias.</p>
<p><strong>Mariana de Oliveira Campos</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Terra seca</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/terra-seca</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Mar 2015 19:31:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Fotografias de <span style="color: #ff0000;"><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/wladimir-vaz"><strong>Wladimir Vaz</strong></a></span>

o inferno queimará o ar
não sobrará nada
serei eu o louco a professar misérias
a abrir portas no céu
a criar a melodia das trombetas.

sete lâmpadas acenderão na minha língua
e toda a penumbra será descoberta.

quem for digno romperá o selo de minha boca:
«tarde demais!», dirá a voz
pois já serei um oceano de vidro a enganar os pássaros.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p><strong>É preciso carregar pássaros na língua</strong></p>
<p>A poesia de Tiago Fabris Rendelli poderia ser como uma fotografia. Um jogo de marcar o papel e os sais pela luz, criando contornos claros pelo que se queima — a escuridão. Mas pensando em manejar a Terra Seca, prefiro dizer que é como uma xilogravura. Escavada com esforço na madeira. Recebendo a tinta na superfície para revelar os vincos. Este livro dá-se a ver pelo claro-escuro dos vãos de sua superfície. Se a luz marca o papel fotográfico como um passe de mágica, aqui cada contorno do desenho é escrito pelo corte do ferro sobre a madeira, com o cansaço das mãos e o desgaste da ferramenta.</p>
<p>O livro traça um percurso pelas sombras em que as imagens aparecem em relevos e texturas criados através da destruição. As imagens de escombros constroem uma caminhada árdua por montanhas erguidas ao contrário ou mortos sepultados no céu (como os de Paul Celan). A luz aparece apenas para ressaltar a escuridão.</p>
<p>Assim como na madeira entalhada, frequentemente escapam farpas do texto e a matéria resulta áspera. Não se vai percorrê-la com pontas de dedos, mas com a mão espalmada e pronta, sensível a perceber uma poesia que carrega textura em suas imagens: o tempo das rachaduras, a pele confundida com folhas de árvores, os plásticos derretidos, margaridas regadas de lesmas, “coisa amarga, lugar errado”.</p>
<p>A partir da prensa, o contato com a matriz compartilha a tinta preta. Então se constata que a potência do encontro está no que há de obscuro deste livro. Que é a coragem exigida pela tinta que faz o poema falar. É depois da coragem que está a liberdade que Terra Seca parece buscar. Mas o contato aqui não se dá sem estranheza ou dificuldade — aproximam-se desespero e riso, dor do parto e orgasmo, assassino e a vítima. Mas há espaço também para a simples comunhão — no plural: “vestir os pés de caminho” e convidar: “colemos outra vez as estações / e todo sul será o mesmo”.</p>
<p>Ainda assim, os contornos são dados do não-contato, da ranhura que não forneceu tinta ao papel. O desencontro constatado pela mão que apalpa a madeira farpada — “todos os encontros prenunciam a ausência e a ciência de que nas estrelas só encontramos / nossos próprios olhos cegos”. Poesia imperativa, em voz alta, que convida, convoca, com ou sem esperança de resposta, não importa. É assim que alcança seu ritmo. Contundente a cada verso — como o mundo que compõe — imperativo no sim e no não, na ação e na resistência (não movimento com convicção). Um texto que da mesma forma se escreve também em pausas contundentes, no equilíbrio (ou desequilíbrio preciso) entre o choque eloquente do corpo no mar e a “onda que se quebra apenas na altura dos joelhos”.</p>
<p>Ao final do percurso, entre positivo e negativo, contato e ranhura, a gravura se mostra em “observações desimportantes”: “há monstros que habitam / os pés sem caminho. / Por isso / é preciso carregar pássaros na língua”.</p>
<p>Terra Seca propõe uma língua feita de se moldar a rigidez. A rigidez da madeira escavada, do corte, da marreta contra o aço. Uma língua que fala de abismos, difícil, verdade, mas hábil na busca da noite. E que lida com a palavra como com o mundo que cria — fundado em destroços que ainda guardam potência de vida. Se o silêncio é rachadura, a palavra é raiz, uma semente, explosão guardada, “até que a voz germina”.<em><br />
</em></p>
<p><strong>Eliza Caetano</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Gaveta</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/gaveta</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Mar 2015 19:36:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ilustrado por<span style="color: #ff0000;"> <a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/raquel-thome"><strong>Raquel Thomé</strong></a></span> e <span style="color: #ff0000;"><strong><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/luiza-poli">Luiza Poli</a> </strong></span>

à sombra descansavam
ventos vindos vultos
putrefatos
rarefeitos
já não era eu, o verão
horizontal]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>Conheci esta poeta em uma feira. Dessas literárias. De repente, lá na balbúrdia, a menina esbarrou em mim. Ela conta, liricamente sobre isto, no final deste livro. À época com dez anos de idade, chegou e me perguntou, “quero ser poeta: como faço?”. Não me lembro da cara que fiz. Mas devo ter me embananado. Ave nossa! Eta! Por que danado vem essa criatura, deste tamanhinho, querer para si tamanha maldição? A de ter a literatura, desde cedo, como missão. Ou profissão. Não seria mais fácil vender tomates, de repente? Dizem sempre que poesia não vende. Eu digo que a poesia vende, sim, mas não se vende. Não está nem aí para o mercado. Mas o que será que respondi, de fato? Ela garante que eu cheguei para ela e dei a receita. Logo eu, que não sei ferver direito uma água. Hoje, a menina vem e me ensina a ebulição das coisas. Todo fogo, para ela, desde a infância, é bruxaria. Marília Moschkovich cresceu. E com ela, sua poesia. Dezoito anos depois deste nosso primeiro encontro, ela finalmente tirou os poemas da Gaveta. E os oferece, agora, em praça pública. Aos gritos, do jeito que eu gosto. Escancara o verbo, os desejos, os orgasmos. Fuzila, quebra a casca, ressuscita. Inteira, aos olhos do povo, “a fênix que eclode / o próprio ovo”. É ninfa. Ébria. Escreve viva. Uma poesia no fio da navalha. Quente. Fervente. Cria, “derretida”, a sua própria meteorologia. E, madura, anuncia: “poema / e transa / precisam de clima”. O que eu fiz, lá no comecinho, juro que não foi culpa minha. Muitas crianças me procuram. E a maioria segue, depois da possível resposta que eu dou, para um outro futuro. De preferência, longe da palavra. Marília não, ao contrário. Veio me avisar agora, com este bem-vindo lançamento, que virou minha companheira de batalha. Parceira neste crime que eu e ela, há muito tempo, cometemos todo dia. A poesia que nos une. E nos salva. O melhor que podemos fazer por nós. E por outras vidas.</p>
<p><strong>Marcelino Freire</strong></p>
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		<title>O caderno das inviabilidades</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-caderno-das-inviabilidades</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Mar 2015 19:57:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Fotografias de<span style="color: #ff0000;"> <a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/lais-blanco"><strong>Lais Blanco</strong></a></span>
<p class="font_8">se eu te disser quem sou, sou a dor nos ombros
observe os pontos cardinais
sempre em frente, entre os dedos, você vai achar meus cabelos
são pretos
alguns brancos</p>
se eu te disser quem sou, sou em círculos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="col-50 red">
<div class="trecho">
<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>Jean Luc–Nancy diz, no seu <em>58 indícios sobre o corpo</em>, entre outras coisas, que “o corpo é material. É denso”; que “até o vazio é uma espécie muito sutil de corpo” e ainda que “o corpo é uma prisão ou um deus. Não tem metade”. Recorro a essas imagens talhadas pelo filósofo francês para falar da poesia de Eliza Caetano, uma poesia que se ancora no corpo, nos vestígios materiais que este deixa à sua passagem, nos afetos e afecções, desassossegos que traz consigo ou transmite como herança. É nesse sentido que a poética de Eliza, neste livro de estreia, parece se direcionar; na construção, ou antes, no desvelamento de um corpo denso e luminoso, que convida a compor o vazio com os fragmentos que deixa à mesa como peças de um quebra–cabeças, uma divindade em seus humores, desejos, ausências e incompletudes.</p>
<p>A anca, os ombros pesados, os pés perfurados delineiam um corpo feminino dolorido, mas ainda assim insubmisso. Num dos mais potentes poemas do livro “O atirador de facas”, somos convidados a perceber na moça retalhada em postas, a moça–peixe a flertar perigosamente com o rio, a posição desafiadora perante o assassino, seja ele o (anti) herói, seja ele o amante. Intimidade e inviabilidade se entrelaçam. O sujeito se estilhaça continuamente contra o outro e a isso, a essa ação, se chama amor ou pegando a ponta de um verso de Manuel Bandeira, em <em>Arte de amar</em>, “os corpos se entendem, as almas não”.</p>
<p>Há uma delicadeza perturbadora no trajeto de leitura deste livro, uma sensação de estar lendo um roteiro pelas anotações e rasuras, pelo caminho do fluxo sanguíneo; a sensação de vestir, enquanto se lê, a roupa de um personagem à deriva. Em resumo, uma poesia poderosa que nos faz enxergar, por um momento, com os olhos de Eurídice.</p>
<p><strong>Micheliny Verunschk</strong></p>
</div>
</div>
<div class="col-50 red">
<div class="trecho">
<h2></h2>
<p>&nbsp;</p>
</div>
</div>
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		<item>
		<title>O wi-fi da igreja é muito fraco</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-wi-fi-da-igreja-e-muito-fraco</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2015 20:14:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ilustrado por <span style="color: #ff0000;"><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/augusto-meneghin"><strong>Augusto Meneghin</strong></a></span>

e o homem–tão–só encolhe mais, murmura que todo líquido branco é veneno, e eu aperto as tetas, aperto com força, tiro baldes de leite, arremesso na sua cara vomitada, bem na sua cara vomitada, como é a cara de Deus?, como mesmo?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="col-50 red">
<div class="trecho">
<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>Se o wi–fi da igreja é fraco, o caráter de Isadora Krieger, ao contrário, é sacerdotal. E se espelha dos dois lados do portal, dos dois lados do teclado, entre o Ovo e a vida. Para, enquanto o Carneiro bale Saudade, finalmente reconhecer a morte como a grande conselheira.</p>
<p>Esse conceito eu fui buscar em uma das minhas fontes xamânicas, Carlos Castañeda. Mas Isadora, com sua aguda percepção filosófica, política, mágica e ecológica, cita <em>A negação da morte</em>, de Ernst Becker, como uma de suas. Se o wi–fi da igreja é fraco, e jazemos nesta dimensão abandonados à sensação do caos, do caos refaremos a nossa força, rumo às outras.</p>
<p><strong>Alex Antunes</strong></p>
</div>
</div>
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		<title>Clowns cronópios silêncios</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/clowns</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Feb 2015 20:18:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ilustrado por <span style="color: #ff0000;"><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/helton-souto"><strong>Helton Souto</strong></a><span style="color: #000000;">.</span></span>

tudo na mesma curva
de indiferença
o tempo e suas armadilhas
tarde demais para desescolher]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="col-50 red">
<div class="trecho">
<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>Algumas íntegras, como “o silêncio dos lagartos”, “as pétalas do imponderável” e “a mudez tátil dos afetos”. Noutros casos, como um clown pulando amarelinha, o leitor pode saltar um verso para inventar outro modo de ler, como em “a invenção do poema (…) escrevendo-se no chão”. Tais peixes, na vida como no texto, pescam-se na necessária água turva dos dias, que compõe e, por contraste, dão a marca singular da estreia na poesia de Diana Junkes.</p>
<p><strong>Wilson Alves-Bezerra</strong></p>
</div>
</div>
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		<item>
		<title>O crise</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2015 20:28:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[chorei durante toda manhã
planejava uma rota de fuga
imaginando a vida noutras
chorei porque já não sabia
quem sobrava no decantar
mas sabia ser um pouco só
o que sobrava era já nesga
flutuava–me o olho adiante
e podia apalpar o futuro ali
ele sólido e um tanto febril]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="col-50 red">
<div class="trecho">
<h2><span class="span">_</span>sobre este livro</h2>
<p>li de um gole grosso. literatura exigente: é preciso ir se deixando impregnar, dia por dia, durante um tempo. De um gole, sim, mas aos soluços, sopa de pedra, escrita automática surrealista no entanto, calculada, acaso por acaso. Poesia perturbada e perturbadora, exasperadamente autoral. Como lidar com tudo isso, de primeira, já que ler é sempre de prima, por mais que se leia e releia um texto desses, cheio de grãos, grânulos, granulomas: digerir? impossível. Quem escreveu com pitadas de perversidade e perversão, não deseja que seja lanjal o que se espreme, o que se exprime, mas que seja empanzinado, empanturrado, indigerível, na beira da torrente, do vomitório verbal, digamos assim.</p>
<p><strong>Armando Freitas Filho</strong></p>
</div>
</div>
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		<item>
		<title>Na cadência do caos</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/na-cadencia-do-caos</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2015 14:15:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ilustração de <span style="color: #ff0000;"><strong><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/augusto-meneghin">Augusto Meneghin</a></strong></span>

o poema não tem
nenhuma missão ulterior
que conduza a uma explicação da vida

o poema é só
esta mosca triste
girando em volta de uma ferida

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><iframe title="BOOK TRAILER | poesia &quot;Na cadência do Caos&quot; de Carla Carbatti" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/lIbip0P1iyU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Nojo</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/nojo</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 06 Jan 2015 14:20:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ilustrado por <span style="color: #ff0000;"><strong><a style="color: #ff0000;" href="https://editoraurutau.com/autor/matias-picon">Matías Picón</a></strong></span>

o sol bate em cheio na cara
barcos prenhes de velas
de ventos
deixam a praia sem face
em direção ao próximo medo

(extraído do poema Autoterrorismo)

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><iframe title="autoterrorismo" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/d1YyLZ2EvKI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></p>
<h2></h2>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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