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	<title>Hecatombe &#8211; selo político &#8211; Editora Urutau</title>
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		<title>Poematerna</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Aug 2026 13:38:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[entre silêncios do dia, fui arrastada por uma pergunta:
— mãe, existe força maior do que a própria vida?
aquela pergunta que só o silêncio pode responder.
[...]

do poema casulo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma mulher, dois meninos que nascem, uma pandemia que irrompe e o tempo que se estende. Perdidas no interior desse turbilhão estão as notas fragmentadas da mulher, que acrescenta, em ritmo incerto, a alcunha de mãe às muitas outras existências vividas. Entre o filho-feixe que desabrocha no escuro da noite logo na primeira página até a dança miudinha do poema que fecha esta plaquete, a autora entremeia observações do cotidiano com cartas para o futuro, fazendo saltar da página o incômodo da descoberta que ela própria traduz em poema: “depois de ser desnudada por um olhar de bebê / como faz para viver na superfície das coisas?”</p>
<p style="text-align: justify;">Com associações inesperadas, brincadeiras linguísticas e imagens de delicadeza ímpar, Padu vai costurando dentro da escrita uma forma de viver o mundo e a maternidade que busca apoio nas muitas artes que já acompanhavam sua própria trajetória antes que os seus dois meninos (que aqui pipocam pelas páginas) aparecessem dentro do útero. A linguagem desta plaquete é lúdica, porém complexa; performática, e no entanto sutil; poética, e ainda assim sem volteios. A leitura pode até correr rápida — no entanto, o ritmo veloz não é acidental; ele evoca, isso sim, as conversas da mãe que tenta arquitetar uma ida ao parquinho só para fazer a criança se distrair. Essa mãe que, diante de um mundo em desabamento, tenta fazer brotar um sorriso.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p><strong>Marcela Lanius</strong></p>
<p>Tradutora e pesquisadora</p>
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		<title>Crônicas de um país em fuga</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Jun 2026 11:04:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Foram duzentos e vinte e cinco pores do sol desde que me jogaram aqui. Em cada um deles, eu pensei na primeira vez em que botei os pés no Tain. Naquele dia, anos atrás, também fui recebido por um pôr do sol. Dou-me conta agora, que o céu é tudo que posso ver, do quanto fiquei grato por aquele sol queimando vermelho, abraçando com suas cores cada coisa viva. Considerei como um presságio do que me aguardava nesta terra.
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>10% de desconto</strong></span>
<span style="color: #ff0000;"><strong>PRÉ-VENDA ATÉ 31/07/2026.</strong></span></p>
<p class="ds-markdown-paragraph"><span style="color: #ff0000;"><strong>Os livros serão enviados no prazo máximo de 15 dias após o término da pré-venda</strong></span></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Tudo gira em torno de uma flor. Ou tudo gira em torno de um móbile onde se penduram vidas em seus desencontros. Ou, melhor, tudo gira. Ou tudo treme. <em>Crônicas de um país em fuga</em>, de Regina Ribeiro, conta histórias do Tain, um território esfacelado e diaspórico, marcado pela ferida colonial, chaga sempre aberta seja nas relações sociais, seja nas relações íntimas, aquelas mais caras: as muitas faces do amor, da amizade. O pensador franco-martinicano Édouard Glissant fala de um “pensamento trêmulo”, que se contrapõe aos grandes sistemas de pensamento homogeneizante ocidental e isso se traduz, nos territórios que passaram pela colonização, em histórias fragmentadas, híbridas, deslocadas. E assim é o Tain e os que lá nasceram, terra em transe, personagens cujas identidades só podem ser compreendidas em turbilhão e, no entanto, emaranhados entre si, indissociáveis. E nisso, a autora capta muito bem o tremor, a instabilidade com uma prosa que emula esses movimentos, sem, no entanto, perder o espírito que os anima.<br />
A narrativa dividida em três partes, as tais crônicas, conta desse lugar sob óticas e momentos históricos distintos, em recortes em que o subjetivo e o coletivo se entrelaçam: Os filhos da cidade, A arte de enfeitar vitrines e A substituta. Em cada uma das crônicas, se destaca um personagem, a sua voz e história: na primeira, um médico que, ao modo dos cientistas viajantes do século XIX, documenta a vida cultural e ambiental daquele território, até que se desencanta com as relações violentas estabelecidas pela elite local; na segunda narrativa, apresenta-se uma jovem diaspórica em crise entre a identidade herdada, seus costumes e crenças e a nova vida escolhida em um país ocidental; e, finalmente, no último relato, as noções identitárias como mônadas são postas em xeque na relação intricada entre duas biólogas e uma planta local, uma fábula sobre o humano e as alteridades radicais representadas pela natureza.<br />
Quem se propõe a escrever ficção a partir da experiência de grandes violências, como a colonial, busca uma outra urgência e forma para as suas narrativas. Uma forma disruptiva em que a complexidade das múltiplas experiências históricas, políticas, naturais (no sentido mesmo da natureza) e afetivas possam ser contempladas. Cada escritor que atua nessa “fratura” busca meios eficazes que possam dar conta de traduzir essa pluralidade, esses organismos de muitas vozes. Nesse sentido, Crônicas de um país em fuga e sua autora são muito felizes. E o leitor é fisgado. Ou colhido.</p>
<p><strong>Micheliny Verunschk</strong></p>
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		<title>Não há nada mais parecido a um fascista do que um burguês assustado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 14:32:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[presa
sempre presa
à contingência
à tangência
à trajetória
da linha de tiro

(José Antonio Cavalcanti)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="col-50 red">
<div class="trecho">
<p style="text-align: justify;">Aqui, ei, você aí, chega aqui. Isso. Não, mano. Faz silêncio. Você não deixou ninguém te seguir, certo? Ok. Desliga o celular e a gente entra. Sim, eu sei que você curtiu a página “Otakus antifascistas” e isso já pode te denunciar e etc e tal. Mas é que aqui dentro você vai encontrar aquilo que o algoritmo não quer, entende? Outro tipo de material. Desligou? Ok. Entra aí então.</p>
<p style="text-align: justify;">No princípio… tinha o verbo. O problema é que de língua para língua, ortografia para ortografia, ele acaba… mudando de tamanho. Mudam as letras todas. Talvez o sentido em si. Tem que traduzir, sabe, você só entende a palavra a partir de uma adaptação, ainda que o conceito em si seja o mesmo. Moer.</p>
<p style="text-align: justify;">Fascismo. A definição geral está aqui: no começo do livro, no dicionário… lá fora. Mas como é que se moem pessoas em pt-br no Século XXI? Isso aqui não é um teatro de sombras europeu, não pode ser. Não é uma projeção direta dos anos 30. Tem algo de mais antigo. Tem algo de mais profundo. E tem de tudo para foder com a nossa vida.</p>
<p style="text-align: justify;">“Eu posso morrer. É só descer a rua correndo.”, a tradução, como pensa Constança Guimarães, se vive no/pelo cotidiano dessa ex-ex-colônia. Exala dos bueiros do terceiro mundo. Você já conheceu outra realidade, apesar de sonhar? Não, não é tão simples quanto parece. Não se usam estampas de suástica e nem o “anauê” integralista é capaz de denunciá-los agora. Por isso também é um erro combatê-los a partir de outra experiência histórica, a partir de outro contexto. O nosso fascista não encontra um castelo para ruir — ele luta para impedir a sua fundação. Ele não quer acabar com nenhum estado de bem-estar social, não. Isso nunca nem passou pela cabeça do nosso capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">“já não somos a promessa/somos os escombros/de um novo mundo/que nunca aconteceu”, diagnostica Pilar Bu em “o terror”. É terrível porque parece que esse verbo não pode ser subvertido. Nem conectado a uma outra frase, destruído, apagado da mente e da folha, nem conjugado. Parece que não tem fim: só moe, moe, moe, e para nós, lá fora, só morre. “Cura é o caralho”, diz Nitiren Queiroz e tem um Edit: “Não é fake news”. Nós vamos ter que descobrir juntos o que fazer depois que o verbo se traduzir, pois, como lembra Armando Martinelli: “o cão de capacete está pronto”. Do que será que ele vai proteger a cabeça? O que mais pode acontecer?</p>
<p style="text-align: justify;">A hecatombe já é antifascista. Isso aqui é só uma hipérbole. Não, espera, eu diria que é um pleonasmo. Dos bons. Fique agora com o que esses 39 autores têm para te dizer.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Joaquim Buhrer Campolim</strong></p>
</div>
</div>
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		<title>Tauromaquia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 May 2026 14:37:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[lutei com touros esse ano.
touros implacáveis, deuses, semideuses, grandes e bufantes e enormes correndo atrás de mim, quase me alcançando, quase me perfurando o olho esquerdo como o de Granero.
Zeus raptando Europa over e over. um rapto, para não dizer estupro — a palavra censurada —, estampado nas bandeiras, nas estátuas das praças, nas moedas, na bolsa de valores.
traumas antigos sendo descongelados do frio profundo das calotas polares como uma cicatriz que se abre anos depois do rasgo.
tive que aprender a tauromaquia na marra, no susto...

(<em>Feliz ano novo,</em> página 9)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A milenar corrida de touros encontra na boca da poeta a vermelhidão de alguém que prova no estrangeiro o gosto da própria terra. Risco de sangue e perdas dentárias. Aqui as boas maneiras dos Alpes não cabem nas mesas amarelas, com o litrão e o funk brasileiro. Não é possível contar sobre a música que toca. A pele. O mar. Mar — palavra miúda que esconde o oceano de uma fêmea que se recusa a ser Penélope: “a arena também me pertence/ o navio também me pertence/ a cidade é minha/ e a minha aventura também começa/ quando você sai”. (O que resta do Grande Odisseu diante do Grande Touro Mulher?). Penélope em deriva oceânica é desta vez para ela a casa que nunca chega. “Eu não trouxe muitas coisas para a Holanda”, ela diz. O que se ganha ao perder o pertencimento? Uma língua nova. Um livro de poesias no idioma materno — embora às vezes gringo e com sotaque de saudade. Este é o caminho contrário dos ancestrais: de São José do Rio Pardo a Amsterdã. Mas o corpo insiste. Os mesmos tendões e costelas de outros tempos. De Alberto Caeiro a Cardi B. Em ponte aérea, estamos todas dançando no poste familiar desta outra cidade. É assim: todas as bifurcações levam a um beco sem saída. Isto porque há muitas formas de não dizer alguma coisa. Poliglota da mudez, ela escreve “o eu te amo sempre me escapa”. Nomeia o impossível com o corpo em catástrofe: “mas você bem sabe que/ se você me dissesse por exemplo/ vamos sair correndo no meio da tempestade/ eu diria vamos”. Aqui está a melancolia e sensualidade da poeta. Paguem a melancolia e a sensualidade da camgirl. Os tailandeses com seus trinta centímetros de fala penetram a superficialidade das máscaras desta Minotauro — tão exposta quanto histericamente inacessível. Larvatus prodeo. Afinal, Tauromaquia ressoa pelos labirintos do ouvido, em várias bocas: “who is the monster and who is the man?”</p>
<p><strong>Camila Ferrazzano</strong></p>
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		<title>Vermelho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Apr 2026 19:40:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um dia tudo amanheceu vermelho no Brasil. Os despertadores romperam a aurora com o seu pipipipi e, a princípio, ninguém se deu conta de nada, tantos quartos ainda imersos na penumbra. Talvez um ou outro tenha reparado nos tons de vinho que agora tingiam a escuridão. Mesmo assim, aquele dia começou como qualquer outro para a maioria.
Os primeiros gritos vieram de quem tinha medo do escuro e dormia de luz acesa, e também dos boêmios, que ainda não tinham ido dormir. A vermelhidão, nesse caso, surgiu súbita ntre um gole de cerveja e outro, e muitos prometeram que nunca mais iam beber.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Um dia tudo amanheceu vermelho no Brasil”.</p>
<p style="text-align: justify;">Como no seu livro de estreia, a coletânea de contos <em>Relógios partidos</em> (Editora Litteralux, 2024), aqui Luiza Conde se utiliza do fantástico e do insólito para abordar temas urgentes de nossa contemporaneidade. O absurdo, afinal, se tornou um dos espelhos mais realistas da atualidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vermelho</em> está pouco interessado em oferecer explicações sobre o fenômeno que propõe. Pelo contrário, o fantástico aqui é tratado com pouco sobressalto, como ponto de partida para um exercício de imaginação do que poderia acontecer se, de uma hora para a outra, as pessoas no Brasil passassem a enxergar uma realidade vermelha, essa cor que se tornou tão maldita para uma parcela bastante considerável de brasileiros.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais especificamente, o conto se debruça na figura dos autoproclamados patriotas, aqueles mesmos que declaram seu amor ao Brasil aos quatro ventos, que glorificam a plenos pulmões a pátria e a nação, tudo isso enquanto desfilam com a bandeira dos Estados Unidos no 7 de setembro, batem continência para ela, vão para lá sem esconder o intuito de trabalhar contra o Brasil e os brasileiros.</p>
<p style="text-align: justify;">O que fariam os patriotas, que não cansam de repetir que a nossa bandeira jamais será vermelha, diante da vermelhidão total? O que fariam se deixassem de ser bem-vindos nos países do dito primeiro mundo e estivessem irremediavelmente ligados ao Brasil, esse país que amam tanto nas palavras e bem menos nas ações?</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, cabe um aviso. Para quem, diante do cenário que o conto propõe, espera mais uma distopia com trombetas apocalípticas tocando e a anestesia da impotência, saiba que não é o caso: <em>Vermelho</em> se recusa à banalização da distopia como inescapável, oferecendo uma imaginação de futuro possível, sem, no entanto, perder de vista a dureza dos tempos que vivemos ou cair em otimismos delirantes.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vermelho</em> é, em última análise, uma exortação à esperança sadia, ainda que árdua, da construção de mundos.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>De mãos ocupadas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Apr 2026 19:24:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[o rosto da minha mãe
muda
de figura
não sei
se me lembro dela
ou da foto dela

tento me lembrar
da rosto da filha
mas no lugar do rosto
é um espaço no corpo
ou um colo sorrindo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este livro é uma espécie de <em>coreografia das mãos</em>: nele, as mãos cooperam, seguram, cuidam, se ocupam, se mexem. As mãos se tocam e os dedos dançam — um no outro e, depois, no outro, ora em pinça, ora abertos, e se buscam e se estranham.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse balé, vai se desenhando um percurso nada óbvio que exibe o músculo de um exercício contínuo: o percurso da <em>transmissão</em>. Os gestos passam de uma geração para a outra e atravessam o tempo. As mãos da avó, da mãe, da filha deixam sua marca e permanecem.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos poucos, com passo delicado e firme, Isabel Ramos Monteiro vai lendo algumas formas de herança que restam e se refazem. A avó que pisca e olha com vagar, a mãe da mãe que anda com os chinelos arrastando, o avô que gira a aliança, que senta ao piano, as palavras e expressões que sobrevivem, o nome de uma que se repete em diferença no nome da outra (Daisy, Margarida, o mesmo nome com duas grafias). Ou, ainda, a impressão digital que se forma na ponta dos dedos durante a gestação graças ao movimento das mãos do bebê no contato com o líquido amniótico. A herança em seu caráter involuntário e singular, capaz de marcar a identidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O que parece estar em jogo aqui é uma espécie de “manutenção da vida”, levando em conta o sentido etimológico da palavra manutenção: ato de segurar com a mão. E passar adiante. Assim, nesses poemas comparecem a infância, a memória, as práticas corporais, mas também os nascimentos, as mortes, e tudo aquilo que pauta nossa existência. Além da presença de autores que trazem pistas de leitura, como Winnicot, Ursula K. Le Guin, Andreia Yonashiro etc., multiplicando os sentidos em jogo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa hora em que nos isolamos nas tecnologias digitais, cada vez mais distantes do manual, estes poemas evocam um mundo em que o cuidado e a comunicação passam pelo gesto de tocar, segurar e fazer coisas concretas com as mãos — quem sabe uma forma de vislumbrar “uma fresta de futuro” adiante.</p>
<p><strong>Marília Garcia</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Fugas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Mar 2026 14:24:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A Amazônia é uma mentira. Joguei a ponta da onça no rio e desci para me deitar. O pastor estava berrando na frente do celular. Vi seu rosto raivoso brilhando pela luz azul da tela e ouvi os pés batendo no assoalho de madeira. Sai, Satanás! Sai, Satanás! Eu te expulso! Aleluia! A mulher na escada do barranco, o filho no colo. De um lado do igarapé são os católicos, do outro lado, os crentes. Coloquei a mochila para baixo da minha cabeça na rede. O cara da rede do lado estava de olho, eu achei. A mulher garimpeira desceu na voadeira com as duas meninas e levou o sorriso de ouro com ela (...)
(<em>A Amazônia é uma mentira</em>, página 15)
<p class="ds-markdown-paragraph"></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em um tempo em que fugir parece inevitável, o que escolhemos enfrentar quando decidimos permanecer?<br />
Em Fugas, Rosana Carvalho Paiva reúne contos concebidos em um momento marcado pelo sequestro dos nossos afetos e por um modo de vida produtivista que esvazia o tempo da escuta e da convivência. Resistindo a essa padronização do comportamento, o livro se debruça sobre as diferentes dimensões das relações humanas, provocando desconfortos necessários ao expor desejos, crenças, contradições, violências e silenciamentos. Superando o óbvio, o real e o fantástico se entrelaçam de forma orgânica em cada história, abrindo espaço para o poder pedagógico do simbólico. A autora expõe de maneira criativa as hipocrisias e os mecanismos de normalização que sustentam situações muitas vezes insuportáveis.<br />
As narrativas devolvem ao leitor a urgência de sentir e pensar as interações cotidianas, confrontando realidades complexas sem simplificações ou caricaturas. A obra é um convite a olhar com atenção para o que estrutura nossos encontros e para as contradições que permeiam nossas vidas.<br />
Com sensibilidade e coragem, Rosana Carvalho Paiva não oferece respostas nem cenários confortáveis, mas propõe uma reflexão sobre como habitamos as relações e o que nos leva a fugir ou permanecer nelas.<br />
Nascida na Bahia, com a infância vivida entre o interior de Minas Gerais e Salvador, parte da vida adulta em Manaus e atualmente radicada na Catalunha, Rosana Carvalho Paiva traz em seu primeiro livro histórias que dialogam diretamente com suas raízes e vivências plurais. Cada personagem e contexto revela um conhecimento sensível de um Brasil visto de dentro e de fora, atravessado por deslocamentos, pertencimentos e estranhamentos. Desafiando conceitos fabricados e caricatos das nossas relações humanas, o livro navega entre o real e o fantástico, não para estabelecer uma noção clara de ficção, mas movido por uma urgência de trabalhar temas que, muitas vezes, são mais difíceis de articular no campo da experiência do concreto.</p>
<p><strong>Mairê Carli</strong></p>
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		<title>Um ventre todo seu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Mar 2026 10:41:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[quando todos
não estão
é naquele tempo
em que ela está
à espreita
na brecha
na fração
do milésimo
de segundo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>“Mãe leva outra” não é apenas um título — é uma convocação. Uma constatação, um mantra.</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
Nesta antologia poderosa e plural, a maternidade é apresentada em múltiplas faces: a doçura e a dor, o riso e o esgotamento, o sonho e a perda, o início e o fim. Os textos reunidos aqui são atravessados por vozes que sabem, na carne e na palavra, o que é carregar e ser carregada por uma criança, nem que seja na memória.</p>
<p style="text-align: justify;">A coletânea nasce do movimento gerado pelo Clube de Leitura <em>Mãe Leva Outra</em>, que reuniu autoras publicadas na coleção de mesmo nome, para criar um espaço de escuta, diálogo e resistência. As autoras discutiram suas obras em encontros virtuais e presenciais, costurando uma rede afetiva que agora transborda nestas páginas.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre crônicas íntimas, narrativas autoficcionais, textos poéticos e relatos honestos, cada autora aqui apresenta uma fresta de sua experiência com a maternidade — seja desejada, negada, interrompida, solitária, coletiva ou ainda por vir. A antologia não romantiza: escancara. Não há fingimento quando uma mulher escreve com o corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">É nessa linha tênue entre literatura e vida que a obra se sustenta. De um lado, a delicadeza de um “mamãe, te amo” balbuciado por uma criança; do outro, o chão frio de uma rodoviária e um teste de gravidez positivo. Entre uma e outra cena, pulsa uma mesma verdade: ser mãe é carregar mundos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse livro é um convite para pensar a maternidade para além da biologia ou de ideais. É um chamado a refletir sobre o que cabe no ventre, no colo e na palavra.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Esta não é uma leitura apenas para mães. É para quem nasceu. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Mães levam outras.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Debora Rendelli</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Maternidades ancestrais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 22:09:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Com este trabalho, buscamos compreender a sobrevivência e a transformação dos ritos relacionados a gestação, parto e pós-parto das etnias Pataxó e Xakriabá de duas aldeias específicas em Minas Gerais. Procuramos demonstrar que tais ritos são considerados performances segundo autores dos Estudos Culturais, como Richard Schechner e Marvin Carlson, e que essas funcionam, não apenas como expressão cultural viva desses povos, mas como visibilidade e agência/resistência cultural, pela lógica da enunciação — e não da representação — que é a lógica da implementação de Direitos Humanos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: justify;">Entre o canto das parteiras, o silêncio das matas e o ruído dos hospitais, este livro mergulha em um território onde nascer é mais do que um evento biológico: é ato cultural, gesto político e performance ancestral. Ao investigar os rituais de gestação, parto e pós-parto entre os povos Pataxó e Xakriabá, em Minas Gerais, Christina Fornaciari constrói uma cartografia sensível das práticas que resistem, se transformam e, por vezes, correm o risco de desaparecer.</div>
<div style="text-align: justify;">
<p>A autora entrelaça pesquisa de campo, escuta atenta e sólido referencial teórico para revelar como os saberes tradicionais — banhos de ervas, rezas, restrições alimentares, cuidados coletivos — coexistem com o Sistema Único de Saúde e com as políticas públicas voltadas à saúde indígena. Longe de uma visão nostálgica ou folclorizante, o livro evidencia a vitalidade dessas práticas como performances culturais: comportamentos restaurados que, ao se repetirem e se atualizarem, sustentam identidades e reafirmam pertencimentos.</p>
<p>Ao mesmo tempo, a obra explicita as tensões históricas entre dominação e resistência. O corpo da mulher indígena emerge como espaço de disputa: alvo de processos colonizatórios e medicalizantes, mas também centro de força, memória e agência. A partir do diálogo com os Estudos da Performance e com os Direitos Humanos, a autora propõe uma chave de leitura que reconhece os rituais de nascimento como estratégias de (re)existência cultural.</p>
<p>Escrito a partir de um lugar de fala assumido — o de uma mulher branca, mãe, pesquisadora e artista atravessada por sua própria experiência de parto — o livro não pretende substituir as vozes indígenas, mas amplificá-las. São elas que conduzem a narrativa, seja nas conversas nas aldeias, seja nas produções acadêmicas e políticas de lideranças e intelectuais indígenas.</p>
<p>&#8220;Maternidades Ancestrais&#8221; é, assim, mais que um estudo sobre o nascimento: é um convite a repensar o cuidado, a autonomia dos corpos e o papel das políticas públicas na garantia da diversidade cultural. Ao acompanhar os caminhos do nascer entre hospital e aldeia, entre tradição e tecnologia, esta obra nos lembra que proteger rituais é também proteger mundos.</p>
</div>
<div style="text-align: justify;"></div>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Palavras melhores que ordem e progresso para uma bandeira nacional</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Feb 2026 10:29:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Emojis que ainda não existem

Emoji de piso de caquinho vermelho com alguns amarelos
e pretos
Emoji de bandeirinhas de festa junina
Emoji de muro coberto com cacos de vidro coloridos, quase
sempre de garrafas retornáveis que nunca retornaram
Emoji de poste de fiação elétrica com muito mais fio saindo pra todo lado do que seria a recomendação de qualquer eletricista
Emoji de urna eletrônica]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Qualquer projeto de futuro que aposte um pouquinho na sorte de um sucesso, precisa de um processo cultivado com zelo e amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Como a árvore de raízes inversas, os exercícios aqui expostos nos convocam a olhar o Brasil como provavelmente concordamos que o Brasil é: amplo, multifacetado e abundantemente generoso com suas muitas sementes.</p>
<p style="text-align: justify;">Semente é potencial. Palavra é signo. “Cultivar”, por exemplo, vem do latim <em>cultivāre</em>, sendo sinônimo de &#8220;lavrar, trabalhar a terra&#8221;, &#8220;plantar&#8221;, &#8220;cuidar&#8221;, também “ver crescer” a fim de “desenvolver”. Se soubermos ver, no fundo, palavras sucintas também contam histórias mais longas. Palavras são conceitos. Conceitos são o muro de arrimo dos projetos de futuro. Quando sequestrados, conceitos são distorcidos e transformados em opostos vazios, por vezes hipócritas. Daí a importância de reivindicar a narrativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Através dos exercícios — por fora, analíticos, mas por dentro, não menos afetivos — Rafael Marcon destrincha com carinho os significantes que compõem o seu país, trazendo os signos imagéticos e cotidianos que, só por existirem, já fazem dele alguma poesia. E mostra quão urgente é imaginar um Brasil cultivável.</p>
<p style="text-align: justify;">É o primeiro passo e um convite ao diálogo: como seria se a gente pudesse plantar palavras melhores para colher um Brasil de verdade?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Giovana Cristina Bastos</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Como preparar a casa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Jan 2026 11:42:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[com quantas mães
se faz um filho?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em um dos primeiros poemas de <em>Como preparar a casa</em>, vocês vão ler: “(o que torna uma mulher mãe?)” Não é uma pergunta fácil de se fazer, daí os parênteses, daí o silêncio que a cerca. Se ela está cercada de pudor e interdito, o poema pode ser o lugar em que esse não saber venha à superfície, muitas vezes, inclusive, com algum humor, como quando lemos sobre as buscas no Google que a mãe deste livro faz diariamente. Uma mãe está, ainda hoje, muito só em suas dúvidas: com quantas mães se faz um filho? quando é o tempo certo? o que resta de mim depois de parir? — essas são algumas das incertezas que pontuam estas páginas ao acompanharem os dias de gravidez e do bebê recém-chegado. Quem sabe uma mãe que escreve esteja menos só. Mariane escreveu uma tese, se casou, conheceu diferentes cidades, escreveu sobre elas. Mas que palavras poderiam nomear a espera de um filho, esse estado entre o ser e o não ser, que, ao contrário do que a lógica nos ensina, não são opostos absolutos? Como falar da chegada de alguém que é preciso conhecer e cuidar, rodeada com frequência de culpas: “eu ainda me sinto insuficiente/ eu sempre vou me sentir assim/ para lembrar que o filho da mãe/ a cada dia deixa de ser da mãe”. Os poemas deste livro desafiam lugares-comuns, perguntam muito, se espantam, atravessando afetos difíceis, quase indizíveis, como o oco que se abre no meio das palavras, no poema “Pai”. Este livro pergunta o que é ser mãe e também o que é ser filha. Numa espécie de interlúdio, abre-se, entre a gravidez e o nascimento, uma busca por uma genealogia que parece inevitável recuperar e revisar quando as posições mudam. Além da escrita, a poeta tem também a psicanálise ao seu lado, que lhe dá uma outra escuta (atenta a alguns clichês da maternidade) e um olhar engajado contra os preconceitos de gênero. Por isso talvez este livro surpreenda quem espera conforto; Mariane não tem medo de apontar o mal-estar em torno de expectativas construídas às custas da solidão das mulheres. Escrever é romper com um pacto de silêncio e solidão — é preparar uma casa assumindo o que há nela de inacabado, incompleto, imperfeito. Talvez essa seja uma aprendizagem, preciosa, que a maternidade escrita pode nos dar: “uma casa é sempre as ruínas de uma casa,/ uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra/ para reconstruir”.</p>
<p><strong>Paloma Vidal</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Diário do Presidente Jair: Primeiros registros de um capitão patriota</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Dec 2025 13:04:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em Diário do presidente Jair, Hugo Pascottini Pernet retrata a geleia geral brasileira com sarcasmo e humor. Temos, aqui, uma espécie de delírio tragicômico. As páginas confessionais do protagonista Jair, que oscilam entre o patético e o autocongratulatório, espelham o desvario em que nos metemos. Um cenário insólito, quase irreal, do qual parecemos ainda bem longe de sair.</p>
<p style="text-align: justify;">
Marcelo Moutinho</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Conheço o texto de Hugo Pascottini Pernet desde seus primeiros romances, nos quais, com a habilidade de quem conta uma história ao pé do ouvido, o autor nos conduz pelos anseios de crianças que enfrentam graves questões de saúde e pelas angústias de jovens passando pelos desafios da transição para a maturidade. Agora — ou melhor, desde <em>Diário de um presidente: As aventuras de Jair na ilha de Dilma</em> —, Hugo vem demonstrando surpreendente versatilidade como escritor e se revela dono de um olhar ácido para a realidade política do país.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste <em>Diário do presidente Jair</em>, o capitão se dirige à Pátria amada. E desabafa. Sobre os filhos, sobre a esposa, sobre seus heróis, seus superministros, a internet e as igrejas. Recém-eleito, Jair vem passando por novas situações realmente exigentes, vivendo-as, no entanto, como se fossem o mesmo bom e velho churrasquinho à beira da piscina do condomínio. Sem constrangimentos. Patriotismo, para ele, é usar broche com bandeira do país na lapela do paletó. Qualquer assunto mais sério o deixa nervoso e faz suas mãos tremerem, mas, para sua sorte, tudo sempre pode ser resolvido se a tremedeira se transformar em um gesto de arminha — desde que não aponte para ele.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos méritos de Hugo é expressar como o cômico pode não estar tão distante quanto pensamos do realista. Em uma das várias tiradas que nos arrancam tanto gargalhadas quanto preocupações, são contabilizados “28 anos sabáticos dentro da Câmara sendo deputado federal”. Considerando os serviços prestados durante todo esse tempo, e acrescentada a enorme pressão do novo cargo, é melhor relaxar um pouco. Com alguns dias de empossado, Jair toma uma lancha para um passeio com seus superministros para uma ilha reservada. Ao longo do trajeto pelas águas do mar, Jair se exercita, distribui apelidos de quinta série e até revela manter um livro de cabeceira. Entre piadas sobre o STF e elogios aos Estados Unidos, o presidente se aconselha com Paulo, Sergio, Ricardo, e procura entender quais medidas deve autorizar no tocante ao sucesso do neoliberalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">“Eu nunca escrevi tanto”, confessa Jair neste espirituoso e curto livro — nada mais congruente, afinal, como já se ouviu por aí, ninguém mais aguenta tanto livro que, hoje em dia, é um amontoado de palavras. Para essas pessoas, mas também para todas que suportam um pouco mais de coisa escrita, vale se deliciar com esta debochada ficção satírica de Hugo Pascottini Pernet.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p><strong>Leonardo Villa-Forte</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O sol na boca do estômago</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 12:33:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[quando for embora, deixe a luz acesa
quero enxergar o som da criança
desenhando uma melancia
enquanto desvio dos poemas empoeirados
escritos por simples dor de cotovelo
só volte quando amanhecer e souber
por que as mãos dela têm quatro cores
um pedaço de pão e a poeira de um bombardeio
aí sim, meu bem, teremos aprendido a amar
com uma paixão capaz de carregar bandeiras
na ponta dos dedos]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Já li livros com poemas de amor. Já li livros com poemas de luta social e denúncia. <em>O sol na boca do estômago</em> une de forma única e surpreendente, nos mesmos poemas, estes dois assuntos que parecem tão distantes. Sim, é possível juntar luta de classes e tesão.</p>
<p style="text-align: justify;">Amor e saudade, luta e denúncia social e o ato de escrever são os temas centrais da maioria dos poemas. Para trabalhá-los, o poeta usa o cotidiano: a escova de dentes na pia do banheiro, o café favorito, a criança brincando, o ato de escrever, o cigarro na sacada, a fila para comprar pastel na quermesse. Como pode coisas tão “simples” serem gatilhos para assuntos tão complexos?</p>
<p style="text-align: justify;">Mas em <em>O sol na boca do estômago</em> a “simplicidade” fica somente no cotidiano. O autor usa figuras de linguagem e inúmeras referências históricas e literárias, sem dificultar a leitura e a compreensão. Durante a leitura, esteja preparado para ver cenas e cores, experimentar cheiros e sabores, ter a pele tocada. Um livro para ser sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">A trabalhadora lê o livro e enxerga suas lutas diárias. O apaixonado deseja ainda mais a sua musa. A professora usa para ensinar figuras de linguagem, literatura, história e sociologia. O poeta estuda as técnicas de escrita. E eu continuo lendo e relendo — cada vez uma experiência diferente, a descoberta de uma informação que havia passado despercebida, outra camada de complexidade desvendada e o sonho permanente com um mundo sem guerras, justo e igualitário.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Mateus Batista Silva</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Brazil x Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 11:26:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[habitar uma casa é
sujá-la
desprezá-la
acostumar com seus cantos e belezas
um dia desejados
insultá-la
querer qualquer outra menos ela
(...)
não fazer de um país uma casa
***
habitar uma casa é poder
sonhá-la
fazer com que ela exista
cuidá-la
respeitá-la
manter as paredes da casa em pé
se forem paredes de sustento
(...)
fazer de um país uma casa]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nas vozes da obediência e da insubmissão, este livro tensiona um país que se sonha e que se faz, em nome de distintos ideais. Os poemas que o compõem desnudam a disputa ideológica que atravessa nossa formação: de um lado, o projeto de um país disciplinado, modelado à imagem estadunidense, que se anuncia como moderno, competitivo, meritocrático, excludente e violento; de outro, o impulso vital de uma nação que resiste em seus sons, sabores, nomes e corpos, e que encontra na diversidade sua força mais profunda.</p>
<p style="text-align: justify;">No poema “Direção”, por exemplo, o tom é cortante. O poema observa a engrenagem que governa e administra desigualdades como método. A linha supostamente invisível que separa quem chega e quem fica é a cicatriz de uma história colonial ainda aberta, na qual a violência se torna política de Estado e a exclusão, mecanismo de lucro.</p>
<p style="text-align: justify;">Já em “Brasis”, o país aparece como multiplicidade irredutível: uma sequência de nomes, ritmos, comidas e vozes. O poema se faz mapa afetivo e político ao recusar a homogeneização e afirmar a convivência entre as diferenças.</p>
<p style="text-align: justify;">Por sua vez, “Uma casa” desloca o debate para o campo do íntimo e da ética. Como habitar um país sem degradá-lo? Como sustentar o desejo de pertencimento sem convertê-lo em propriedade, domínio ou consumo? A casa, aqui, é o lugar do contraditório — tanto o espaço da degradação quanto da construção. Há a importância de pensar o que precisa ser destruído em nome de uma construção que não se pretenda anexo daquilo que já está em ruínas.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre dois ideais, o livro propõe pensar o Brasil como campo de disputa simbólica: o que queremos ser quando repetimos o sonho norte-americano? O que perdemos ao negar o que é nosso? E o que ainda podemos reinventar ao afirmar, com gesto poético, a soberania do múltiplo?</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>A marcha da pátria alheia</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/a-marcha-da-patria-alheia</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 10:44:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Vamos na marcha da pátria alheia,
o maior reduto entreguista,
ocupado por tanta gente feia
que só quer defender golpista.

Vamos na marcha da pátria alheia,
ocupar uma rua, uma pista,
salvar criminosos da cadeia,
inventar ameaça comunista.

Vamos na marcha da pátria alheia,
nada sobre o Brasil à vista,
de bandeira gringa tá cheia,
e de fundamentalista.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Aqui estou, escrevendo as orelhas de um livro de poesias, apesar de acreditar, como diz o filósofo Slavoj Zizek, que &#8220;não há genocídio sem poesia&#8221;.<br />
Um dos grandes atributos da poesia é uma espécie de sinceridade. O recurso da rima, que você lerá muito e muito bem utilizado por todo este livro, é um se jogar no escuro. Forçada, a rima enseja o riso; a mensagem sai infantilizada, como se escuta numa cantiga infantil. De outro lado, um esforço parnasiano com a rima soa datado, como um discurso empolado de um político do século passado. Aquele excesso que emite uma convicção tão exacerbada que não permite que seja questionada. Essa é a poesia dos genocidas.<br />
Porém, é possível outro caminho: nem infantil, nem com a convicção exacerbada que não permite que floresça a crítica. Afinal, é esse se jogar que torna a poesia sincera em um mundo crescentemente cínico. Um cinismo violento, que nos cala, uma eterna cobrança de &#8220;você não deveria se importar tanto com nada&#8221;.<br />
A cultura política atual é paranoica: vive na eterna dúvida a respeito das intenções de quem fala o que acredita. Quantas vezes não ouvimos alguma variação de “lá vem a arte militante, não ser arte nem militante, só ser um trampolim para o autor, que com certeza tem algum motivo escuso”.<br />
Toda arte hoje é um conteúdo, e o maior medo do conteúdo é virar meme, ser picotado e replicado.<br />
O que Rodrigo Ortiz Vinholo consegue fazer neste livro é poesia política, em uma época em que nossa política não está muito poética e nossa poesia não está lá muito potente. <em>A marcha da pátria alheia</em> consegue ser poesia política. É um livro repleto de ironia, sarcasmo e escárnio, risadas perante os falsos patrióticos patéticos que odeiam nosso povo, nossa república e nossa cultura.<br />
Nesse sentido, é um livro que nasce meme. Parte das poesias precisa de pouco mais que um tamborim para se tornar uma marchinha de carnaval política clássica. Pílulas de risadas carregadas de desejo político.<br />
Porém, este é um livro anti-memético. Ele não compartilha do cinismo do nosso tempo. Ao contrário da cultura de internet, Rodrigo usa da ironia para manter a sinceridade política da sua mensagem: precisamos derrotar esses canalhas, para afastar nosso atual pesadelo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Caio Almendra</strong></p>
<p>pesquisador</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>As águas passadas não passaram</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/as-aguas-passadas-nao-passaram</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Nov 2025 09:34:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[No Brasil conservador,
terrivelmente cristão,
tem pastor q’usa peruca
e calcinha bem curtinha,
diz que é investigação]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A primeira vez que li um poema de Vitor Motta me emocionei fortemente. Vi-me representado novamente na Poesia como me vi em Brecht, Neruda e Buarque, ali estava o amor pela palavra, pela técnica poética, mas também estava a força de uma poesia que não se esconde em uma retórica falsamente romântica. A Poesia do Vitor, com P maiúsculo, escancara a necessidade de refletirmos através da arte, de nos olharmos em um espelho disforme e percebermos que essa imensa casa de espelhos que é o Brasil (e o mundo) não nos reflete na forma absoluta, retrata ali muitas complexidades da nossa sociedade, que é racista, xenófoba, homofóbica, machista, chauvinista, mas também pode ser amorosa, solidária, atenta e forte (como diria Caetano).</p>
<p style="text-align: justify;">E neste novo trabalho, o Vitor leva essa força da crítica social ao ponto máximo, toca em feridas que precisam ser curadas, mas que não podem ser anistiadas, senão, cedo ou tarde, voltarão a abrir e poderão mortificar mais uma vez este corpo social tão complexo, contraditório e disforme que é sociedade brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;">Metaforizando sobre estas desilustres figuras, o poeta joga em nossas retinas o preto no branco da realidade política brasileira dos últimos tempos. Faz uma linha melódica da nossa desgraça governativa, mostrando o tamanho da desqualificação daqueles que pretendem nos liderar, mas que, ao fim e ao cabo, só visam suas próprias demandas pessoais. Poeticamente relata como é que esse canto da sereia convenceu “homens sem bens” a proteger, eleger, defender e financiar “homens de bens”. Não há apaziguamento possível na poesia do Vitor, há a força da vitória da democracia sobre os fascistas golpistas.</p>
<p style="text-align: justify;">O que lerás a seguir são poesias com força técnica e criativa, que te farão refletir sobre nossas próprias contradições e condições humanas. Te farão pensar, te entristecerão, te causarão náuseas e te farão rir. Mas é este o papel da arte: causar vibrações e sentimentos, deixar o leitor ou espectador desconfortável com seus privilégios, pautar temas que os incautos acham que devem ser esquecidos e, por fim, divertir. Logo, o que lerá neste livro é pura arte em forma de poesia.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Leonardo Bruno da Silva</strong></p>
<p>Historiador e escritor</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Nozes</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/nozes</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Oct 2025 16:33:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Mãe, dá pra ir no show menos de “mãe”?
Fiquei me perguntando, como será isso?
Não descobri a resposta.
Partimos, show MC Caverinha, de mãe mesmo, foi o que deu pra arranjar.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A maternidade é um território de pluralidades. Um salto no desconhecido. Não se resume a um retrato fixo, não cabe em manuais de instrução. É feita de expectativas e frustrações, medo e coragem, silêncio e barulho, riso e choro, caos e calmaria, pequenas mortes e grandes nascimentos diários.</p>
<p style="text-align: justify;">A criança chega, a mulher se refaz, e o mundo se redesenha a partir desse vínculo.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste livro, Maria Teresa Ferreira nos convida a atravessar sua experiência de maternar. São relatos íntimos, costurados com a força da vida cotidiana e com a delicadeza de um olhar sensível. Ao lê-los, descobrimos não apenas fragmentos de uma jornada pessoal, mas também a potência universal da maternidade: transformar, reinventar, ensinar sobre amor e resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Falar desses textos é também falar de Davi. Ele, que apesar de ser “dela”, é inteiro dele mesmo — curioso, intenso, autêntico, um menino doce, cheio de opinião e “com muita malemolência”, como gosta de se descrever. Sua presença é inspiração e horizonte: a partir da mãe, se apropria do entorno e cria caminhos próprios.</p>
<p style="text-align: justify;">No espaço que ambos constroem, mãe e filho dançam — um vínculo que não aprisiona, mas liberta; não molda para caber, mas acompanha, passo a passo, cada curva do caminho, mirando longe sem descuidar do que está perto.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Nozes</em> nos convida a entrar nesse cotidiano. São diálogos e vivências partilhadas entre Teresa e Davi, momentos aparentemente simples que, pela escrita, se revelam profundos. Uma pergunta inesperada, uma resposta improvisada, uma descoberta conjunta: cada cena é também memória, aprendizado e afeto. O texto é, portanto, testemunho sensível e corajoso. Não traz formulas prontas, mas é verdadeiro. Não é sobre militância, mas aponta para a importância de perpetuar valores inclusivos e libertários. Não romantiza, mas é belo. A escrita é generosa: fala deles, mas abre frestas para que cada leitor se reconheça, se emocione, se enxergue.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao abrir estas páginas, permita-se sentar à mesa com Teresa e Davi e ser tocado pela delicadeza que há em transformar o ordinário em extraordinário.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque, no fim, a maternidade é isso: rasgar-se e remendar-se, mirando um mundo que precisa melhorar um pouquinho a cada dia — por eles e para eles, os nossos filhos.</p>
<p><strong>Ana Carolina Gayotto</strong></p>
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		<title>Vista pro mar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Oct 2025 12:57:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[“mãe. essa palavra que não dá pé.
filho. essa criatura que insiste em brincar na beira.
bem ali onde a onda quebra.
onde se esquece o perigo.
onde deixa de ser sem fundo.
ali onde o mar transforma seu breu em espuma.
só pra criança molhar os pés”]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Lis Guedes, em seus escritos, escancara o que há de mais bonito para um psicanalista, seu inconsciente, estruturando sua linguagem e colocando algo dela mesma ali.</p>
<p style="text-align: justify;">O que está vivo nela, narrado por novas experiências vividas com a maternidade, se emaranha com o passado, presente e futuro, mostrando a todos que o tempo cronológico é uma marcação arbitrária e reducionista de nós mesmas.</p>
<p style="text-align: justify;">E, sim, o tempo lógico que ela costura com suas vivências de amor, luto, amizade, reconstrução de si, ampliação e expansão como o portal que abriu para seu filho, ela abre para si mesma e para nós, nos conduz a uma verdadeira sessão de psicanálise, na qual o analisando consegue dar contorno a sua angústia, indo e vindo, repetindo e elaborando, fiando-desfiando-refiando ou jogando fora o fio que não merece ser refeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Mergulhamos com Lis em suas experiências únicas por conta dos seus atravessamentos, porém, ao mesmo tempo, tão comumente presentes nas rotinas de recém-mães.</p>
<p style="text-align: justify;">Lis desfia a partir da própria construção subjetiva o que a leva ali, percebo um convite em suas palavras para que outras mulheres possam desfiar por si a própria história e os próprios atravessamentos, possam fazer pedidos e entender seu novo espaço na construção mulher-mãe-filho-amante-amada-filha para que possamos fugir do que se espera dessa maternidade e desse lugar social da mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">Há um convite de celebração da existência nas palavras de Lis, um convite que ela mesma precisou se fazer inúmeras vezes e ainda bem que ela aceitou, todas as vezes, existir.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Raquel Petersen</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Os meus mortos pedem nomes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Oct 2025 14:57:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Ainda estou juntando os pedaços das histórias dos meus mortos para dar sentido à minha existência e entender a bagagem que carrego, de emoções, pensamentos e comportamentos que me constituem. Minha mãe faleceu deixando quatro crianças pequenas. Assim como a minha avó, ela nasceu numa fazenda, no sertão mineiro. E não sei onde. Sou a primeira geração da minha família materna a nascer fora das terras de outrem, da moderna <em>plantation</em>. Sei pouco ou quase nada da sua infância, a não ser o fato de ter sido extremamente miserável, marcada pela fome e pela violência do patriarcado, da própria família e dos patrões.

(<em>Resquícios</em>, página 29)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O “não dito” é a principal causa de morte no Brasil. Ele é agente de AVCs, infartos, depressões, ansiedades, esquizofrenias, drogadições, alcoolismos, assassinatos, suicídios. O “não dito” é um sintoma social que não passa, uma dor, uma doença que não se cura. E, evidentemente, nesse “não dito”, cabem inumeráveis memórias de histórias e dores transgeracionais de um Brasil concebido “no laço e no relho” de ventres infantis, impedidos ao aborto e forçados a gestar um “arremedo” de nação.<br />
O Brasil é um território sem afeto e, por isso, sem povo; emudecido e, por isso, sem memória; torturado e, por isso, sem desejo. E é na contramão do esvaziamento e da morte que a narrativa de Fabiane Albuquerque emerge como um berro. Poderia chamar de grito, mas, o que cabe aqui é o berro. Um som desesperado que tenta dar significado ao que sequer sabe o que é, ainda. É raiva? É ódio? É revolta? Não sabemos. Mas, indiscutivelmente, é impossível não ouvir esse brado que faz nascer o “sujeito” daquilo que está historicamente abjeto.<br />
Os meus mortos pedem nomes não é apenas um livro, é um ritual de invocação. Fabiane Albuquerque ousa, a partir do seu “ebó” em forma de narrativa, trazer ao estado de individuação a massa disforme de almas negras e indígenas feridas que, destituídas daquilo que nos faz humanos — o reconhecimento — vaga errante à margem da História. Aqui, não jazem mais escravos. Mas nascem histórias.<br />
Em Os meus mortos pedem nomes, o berro se torna brado de revolta, a carne se torna palavra e a ferida aberta se cura. Agora, nomeadas as dores e reconhecidas as memórias, enfim, os nossos mortos poderão viver através de nós e, assim, descansar. E nós, quem sabe, poderemos sonhar! Narrado o passado, enfim, podemos construir um presente e ter um futuro onde Brazilina, Lurdes, Maria Eulália, Conceição, Alice, João, Abel, Aminto, Avelino, Antônia, Jorge, Miguel, Isabel, Rosineide&#8230; Possam ser concebidos do consentimento e do amor, nascer e serem cuidados, crescer e serem amados, envelhecer e serem colocados com carinho na cama quentinha. Um futuro onde nós, que hoje narramos histórias, possamos ser mais que recordação, mas “relicários” nas existências de “alguéns” com nome, sobrenome e lembrança.</p>
<p><strong>Thaíse Mendes Farias</strong><br />
professora de psicologia da Universidade Federal de Pelotas</p>
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		<title>Macho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Oct 2025 11:19:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[É inútil.
A resposta do enigma é sempre a mesma:
O monotema do egocêntrico.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma força deslocada dentro de uma divisão obsoleta. Em<em> Macho, </em>de Dimas Casco<em>, </em>é apresentada uma releitura da obra Édipo Rei (Sófocles) como analogia para discussões sobre masculinidade. Um convite para um “safári efêmero”, um teatro de fantoches, tentando encontrar o rastro desse ídolo etéreo, e o que seria o seu oposto e o seu limite, com uma linguagem livre e aberta.</p>
<p style="text-align: justify;">
Uma modesta documentação da discussão sobre a masculinidade no começo da década de 20, sem necessariamente impor uma resposta para o tema, mas propondo uma reflexão sobre a natureza masculina em seus diversos contextos, suas virtudes, seus excessos, seus miasmas, suas tragédias, inconsistências.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A mãe vulgar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Sep 2025 13:57:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Madalena é uma mulher que percorre o mundo à busca do amor e da realização erótica. Não poupa as geografias. Faz besteiras, erra sabendo que iria errar, assume paixões precárias, quebra a cabeça, está sempre sem dinheiro; é, em suma, uma sobrevivente da vida, da pandemia, da Grande Enchente de Porto Alegre. Dentro dela, porém, há algo de genuíno que nem ela sabe, mas que serve como um combustor sempre ligado, sempre com pouco combustível, sempre à beira de apagar, mas que se revela o suficiente para mantê-la à tona.
Um primor de novela, leia.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Madalena rezou, Jesus me salva, me tira daqui, me ensina a multiplicar os peixes. Jesus, talvez você esteja tão cansado quanto eu, precisando de amor, esquecido do próprio corpo, quem sabe se você me pedisse para chupar seu pau, o que acha, eu faria com gosto, te vejo cansado de tanta gente falando besteiras no seu nome. Você merece um espaço para ser feliz, apesar das pessoas te preferirem como um sofredor, gasto, velho, sujo, triste e morto.”</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta novela de estreia, Manuela Ramalho nos conta a história de Madalena, uma mulher vulgar, no sentido comum da palavra. Uma mulher que sente tanto prazer no sexo quanto no cuidado, que sonha com uma vida doméstica tranquila, ter marido e filhos, mas tem seu sonho destruído pela violência e pelo machismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>A mãe vulgar</em>, Madalena sobrevive trabalhando em restaurantes, uma ou outra loja de roupas, e vive cansada. Envolvida em novos relacionamentos, ela se deixa levar pela abundância dos prazeres, engorda e perde o emprego, para depois voltar a emagrecer e se abrir a uma nova paixão.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse ciclo de emagrece-engorda dos múltiplos amores é interrompido quando conhece o espanhol Pablo, seu salvador tal qual Jesus Cristo, um homem que lhe despertava os sentidos sexuais com um corpo musculoso e um jeito sedutor. Um homem que não é o que parece.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela enfim se estabelece em um emprego que lhe traz apaziguamento, de cuidadora do seu Armando. E quando tudo parece calmo, vem o filho Gonzalo para completar a família. Inesperadamente, Madalena recebe uma herança, que leva Pablo a se envolver em confusão. Com isso, a família se muda para a Europa.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida na Espanha não é o esperado. Madalena é feliz cuidando do filho e da cachorrinha Lupita, mas se vê presa em um ciclo de violência, xenofobia e amargura. Ela tenta existir dentro da sua vida doméstica, que se despedaça de forma cruel. Uma válvula de escape são as anotações no seu caderninho de desesperos, pequenas pérolas que a autora nos dá de presente.</p>
<p style="text-align: justify;">A força de Madalena talvez venha da força de Manuela, uma grande artista não só nas letras, mas também nas artes plásticas, com um lindo traço modernista no desenho e na pintura.</p>
<p style="text-align: justify;">Prepare-se para se emocionar com esta personagem arrebatadora, que amadurece enquanto seus sonhos se transformam. Enfim, ela encontra forças para uma reviravolta surpreendente, quando descobre que se basta. Afinal, Madalena é uma mulher vulgar. Madalenas somos todas nós.</p>
<p><strong>Juliana Ulyssea</strong></p>
<p>Escritora e jornalista</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Não ter culpa é revolucionário</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/nao-ter-culpa-e-revolucionario</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Sep 2025 12:28:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os textos deste livro possuem várias vozes. Neles ecoam vozes de uma mãe. Da mãe de uma mãe. Das várias pessoas que são mães. Neles, o leitor poderá encontrar a dor e a delícia da maternidade em pequenos textos que percorrem os detalhes do cotidiano da maternagem: a beleza das descobertas, as angústias do que escapa ao controle. Nestes relatos íntimos, é possível encontrar a coragem necessária para vislumbrar a possibilidade de uma maternagem para além da culpa e das imposições sociais.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Dizem que quando nasce a mãe, nasce a culpa. Dizem que os medos aumentam. Dizem que só as mães podem amar como amam. Dizem que só as mães podem cuidar como cuidam. Dizem que a força das mães&#8230; Dizem. Dizem muito sobre as mães, porém, apesar dos inegáveis avanços, ainda se ouve pouco as mães. Ainda se sabe pouco sobre as mães. Ainda se romantiza a maternidade. Ainda se esquecem de que somos, antes de mães, mulheres, filhas, amigas, irmãs. Talvez por tudo o que dizem o maternar seja tão solitário.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada história deste livro funciona como um espelho que representa, traduz e une muitas mães vivendo as suas solidões. Com palavras que acolhem, emocionam e, por vezes, fazem sangrar (esse sangue tão cheio de significados), Tamara nos lembra de que a maternidade é a experiência individual mais coletiva que existe. A mais inédita e rotineira. A mais ordinária e excepcional. A mais dolorida e incrivelmente deliciosa. Os relatos de parto, os percalços com a amamentação, as dores dos abortos, a alegria de ver os filhos felizes na singeleza do cotidiano são experiências da autora. Todos os temas do livro são dela. E são nossos também.</p>
<p style="text-align: justify;">A riqueza da obra está justamente na identificação, na partilha. Com delicadeza e verdade, somos levados a pensar e a sentir junto com uma mulher se construindo como mãe e que se vê, frequentemente, precisando ser filha. Uma mãe que se lembra, durante o ato supostamente instintivo do cuidar, do desejo de ser cuidada. E que não se culpa por esse desejo. Ou se culpa? Podemos controlar esse sentimento? Poderíamos fazer mais pelos nossos filhos? Precisamos? Eles precisam? E se não conseguirmos? E a culpa? “Todos dizem pra mãe não sentir culpa” / “Não ter culpa é revolucionário”.</p>
<p style="text-align: justify;">A revolução começa, como sabemos, na troca. Revoluções não surgem de vivências individuais, mas coletivas. Por isso, quando uma mãe diz sobre o seu maternar, independentemente do que dizem, a sua fala é sobre todos nós e, por isso, é revolucionária.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Renata Cândido</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Não era só amor?</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/nao-era-so-amor</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Sep 2025 11:51:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[numa conversa, sobre o desejo de ter ou não mais um filho,
ela ouviu: <em>“outro filho por quê? você nem gosta de ser mãe”.</em>
isso porque ela gostava de ser mãe
mas de muitas outras coisas
também.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Não há Google, pediatra influencer, luz sei lá de que cor, som sei lá de que tom, tetê ou sei lá que outro nome, que prepare uma mulher para a chegada de um bebê na vida ou de uma mãe no corpo de uma mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">Em tempos em que parece que todas as informações estão disponíveis, e então basta que a gente as consuma para poder tomar posse delas, a maternidade tem sido uma visita um tanto esquisita.</p>
<p style="text-align: justify;">Que um bebê nasça é uma coisa, que uma mulher se torne mãe é outra coisa. Por mais óbvio ou simples que isso pareça ser, só quem viveu na pele (ou no que não tem pele) o que é a chegada de um bebê no mundo e o que é a chegada de uma mãe no corpo de uma mulher, sabe um tanto sobre as dores e delícias de viver isso no corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">Marina Martins, em seu livro de estreia (porque a gente já torce pelos próximos), divide de um modo generoso com a gente e honesto com ela, o espanto que é se pegar despreparada no corpo para algo que se acredita estar preparada no cérebro.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste livro, ela enobrece seu amor por sua filha, por sua maternidade, pela nova mulher que chega nela&#8230; não sem antes se deixar doer e se deixar ver por aquilo que dói, ao se despedir, aos poucos, da mãe idealizada, da mulher idealizada, das idealizações tão idealizadas, que tanto são vendidas e enaltecidas em nossos tempos.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é um livro necessário. É uma escrita necessária.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque é preciso trabalhar para ser mãe&#8230;por mais espantoso que isso seja</p>
<p style="text-align: justify;">&#8230;mas é preciso parar de trabalhar para poder desfrutar do lugar de mãe, por mais contraintuitivo que isso pareça.</p>
<p style="text-align: justify;">Obrigada, Marina, pelos cafunés nas tantas mães, por voar no chão, por estar aí e nos fazer estar aqui, por se exaurir democraticamente, por parar de se pedir de volta, por essa escrita tão Marina Martins!</p>
<p style="text-align: justify;">O glossarinho de mãe que cada mulher-mãe carrega, se enriqueceu profundamente com sua contribuição visceral sobre as vicissitudes e ambivalências bonitas da maternidade!</p>
<p style="text-align: justify;">Até breve!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Ana Suy. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Mãementos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Sep 2025 20:46:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Primeira palavra,
“mamã”. Dentro dela eu sei
o que de mim há.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Como a poesia que vem antes do poema, estas páginas buscam ressaltar o dia a dia que constrói uma mãe. Momentos em que fazemos escolhas e vivemos suas consequências, imediatas ou não. Este livro é fruto da relação com meu filho, e com minha maternidade; aqui, o trivial — isso que pode passar despercebido, como uma frustração pelo prato cheio à mesa, a insegurança fantasiosa de ser esquecida, ou mesmo o sacrifício físico que a amamentação pode representar — recebe foco e consideração, enaltecendo a complexidade da experiência materna.<br />
Esse cotidiano que nos coloca à prova o tempo inteiro, que nos provoca e também nos presenteia, me deu o que dizer, e o haicai me mostrou a forma. Então, são 34 poemas que, num recorte, registram algumas dessas situações e o que elas comportam de percepções e sentimentos, por vezes indizíveis sem a mediação do texto poético.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Colo</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/colo</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 30 Aug 2025 10:37:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Colo é uma série de contos que não romantiza a maternidade. Alegria e angústia, esperança e medo, amor em suas mais diversas formas se entrelaçam em histórias reais. São fragmentos de vida para todas as mães: as que embalam no braço e as que carregam no coração; as fortes e as exaustas; as que celebram conquistas e as que choram perdas. Para aquelas que precisaram de um colo e o encontraram — ou o ofereceram. Que estas histórias sejam um colo para você, revelando a maternidade em sua complexidade e beleza.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Falar sobre mães é falar sobre o sagrado.</p>
<p style="text-align: justify;">A mulher nasce com o corpo pronto para carregar outro. Às vezes, não. Às vezes, ela não quer. E tantas outras vezes, os filhos chegam — e a vida dessas mulheres nunca mais será a mesma.</p>
<p style="text-align: justify;">Dores, perdas, doenças, diferenças, preconceitos.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossos filhos são nossa continuação. Nosso legado. Nossa história. A história que seguirá viva em nós, para sempre.</p>
<p style="text-align: justify;">Não há mais volta. Nem o abandono traz de volta o que se foi. A vida muda — e isso é certo.</p>
<p style="text-align: justify;">Thalita Monte Santo traz, com a sensibilidade e a poesia que a habitam, a coragem de contar essa história. Como mãe apaixonada que é, imagino que tenha escrito esses contos com lágrimas nos olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso também nas mães que, agora, precisam do nosso colo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mães que perderam seus filhos. Mães que não sabem como alimentar os pequenos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mães isoladas. Perdidas. Desencontradas. Sem solução.</p>
<p style="text-align: justify;">Vivemos tão juntos, e ao mesmo tempo, tão separados.</p>
<p style="text-align: justify;">Espero que esses contos tragam à tona realidades que precisam ser vistas com mais atenção. Com mais amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Que nossos colos sejam conforto para essas mães.</p>
<p style="text-align: justify;">E que elas continuem.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Que continuem.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Val Saab</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Elo</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/elo</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Aug 2025 13:59:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[um útero em repouso
tem a forma e o tamanho
de uma pera

um útero menstruado
pesa como um abacate
pequeno

um útero grávido chega a ter
as dimensões exatas
de uma repartição pública

um útero parido tem o peso
de uma âncora]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na escrita de Stephanie Boaventura vemos dissolvidas as fronteiras entre passado e futuro, entre o que foi e o que ainda pulsa, entre bicho e sujeito, mãe e filha, e filho, morto e vivo, início e fim. Pra nossa sorte, ela afirma por aproximações, não por distinções. Do mesmo modo uma mãe: habita suas fissuras pra criar consciência de que é indivisa.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro atualiza a filha, que se sabe viva pelos ossos. Ela nomeia a perda sem apagar o que ficou e funda um jeito de ser mãe sem a sua própria mãe. Seguimos uma prece que insiste nos dias com a roupa de sempre, mesmo diante do mistério. Habitamos o calor do vulcão sem virar cinza.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>elo</em>, o que hoje é escolha, já foi falta de opção. O gesto já foi silêncio, a criação, ruína. Ao escrever, Stephanie cria um espaço de evocação: da vó das estrelas, do filho que partiu antes de ser memória, da filha que agora é mãe, da mulher que, ao gestar, também incendeia.</p>
<p style="text-align: justify;">Até que os órgãos falhem, até que o corpo vire comida de minhoca e as minhocas se reposicionem como boas presas, torcemos pelo repetido dos dias e algum assombro. Pra que o ciclo continue, pra que sigam vivas e coesas as correntes oceânicas e os bandos de bichos pra que sejamos mães e filhas e sejamos parte deste todo que não começa e não termina. Eu estou segura. Você está seguro.</p>
<p><strong>Mayara Blasi</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Quem eu era antes de ser sua mãe</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/quem-eu-era-antes-de-ser-sua-mae</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Aug 2025 14:32:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Minha filha aprendeu a palavra “dodói” já faz um tempo (aliás, é uma das minhas favoritas, já que ela fala de um jeito muito fofo, uma coisa meio “djodói”, aponta para a parte do corpo machucada ou para o responsável pela ferida, que costuma ser uma parede, uma quina ou algo do tipo). Ela andava mostrando muito um “dodói” no joelho, que ela ralou nem me lembro onde, e que já estava bem cicatrizado. A gente dizia que aquele dodói já tinha sarado, mas sempre dava um beijo, fazia um carinho, dava um consolo que fosse.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O tempo, que Einstein proclama relativo e Gil, rei, espalha-se impiedoso pela maternidade, alterando até as coisas do lugar. Os dias parecem se arrastar, enquanto os anos correm ligeiros. As crianças crescem aos soluços e o que era, num piscar de olhos, já não é mais. Embaça a memória até que não saibamos mais diferir os fatos das invenções.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Quem era eu antes de ser sua mãe</em>, Fernanda França insurge-se contra o tempo, laça-o com tinta de caneta, submetendo-o à cristalização da palavra. Fala de cheiros, de sensações, da culpa e pequenas redenções, do medo e do amor. Acima de tudo, amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Através das novas lentes que lhes foram acrescidas pela maternidade recente, revive fatos antigos, questiona-se sobre os novos e nos leva junto neste carrossel de emoções, porque enganam-se os desbravadores, ser mãe é a maior aventura que existe!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Analu Leite</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Escritora, autora de <em>Com amor, mamãe </em>e <em>Verdades de papel</em>, mãe de gêmeos, servidora pública e integrante do Clube de Leitura Mãe leva outra ao lado da autora.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cartas, rio, você</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Aug 2025 14:22:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Há uma aranha morta, no corredor de entrada da casa onde eu moro.
A cada entrada e saída, penso em acender um incenso e enterrá-la no jardim.
Mas não é sobre o luto da aranha.
Materializações possíveis de uma perda?
Hoje fez uma semana, o cadáver da aranha segue lá.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Se soubéssemos alguma coisa daquilo que vamos escrever antes de fazê-lo, talvez nunca escreveríamos. Não valeria a pena”. Li, não exatamente com essas palavras, pouco depois de juntar esses fragmentos esparramados escritos para você nos últimos três anos. Juntei tudo para virar livro, não desses com começo, meio e fim, mas desses que tentam amarrar, com fios tênues, aquilo que escapa.</p>
<p style="text-align: justify;">“Escrevi para tentar elaborar um aborto. Escrevi para compreender o desejo de engravidar. Escrevi porque senti que precisava contar ao filho desejado tudo o que antecedeu sua possível chegada, com todas as contradições e estranhezas desse percurso de morte e vida”, escrevi no formulário de inscrição do edital da editora.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez não seja nada disso. Talvez estes fragmentos em <em>Cartas, rio, você</em> não passem de uma tentativa — muito pessoal, mas agora compartilhada — para descobrir o que eu escreveria, se tentasse escrever.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Clara Figueiredo</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Azul-bebê</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Aug 2025 14:06:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Meu coração fora do peito,
meu menino feliz,
você chegou pra iluminar
a sombra dos dias.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Banana, etamine, Hello Kitty, <em>Rei do Gado</em>. Medo, peito, sangue, leoa. Essas palavras e outras compõem, neste livro, uma coleção de sensações viscerais e cotidianas descritas por uma mãe criança, ao longo de seus dez anos de contato com o outro-si.</p>
<p style="text-align: justify;">A leitura de <em>Azul-bebê</em> nos leva para dentro da casa de Mariana e sua família — a recém-nascida, mas também a pregressa, onde ela uma vez foi o bebê — e nos permite sentir como se estivéssemos ao lado da mãe, aprendendo, trocando, errando, criando.</p>
<p style="text-align: justify;">Amando. O amor, em cada um destes vinte textos, aparece com uma cara diferente, às vezes a cara do encantamento, às vezes a do cansaço. Chega mesmo a ter a cara da raiva — amor é fogo, afinal. E neste livro ele arde bem. Arde como um fio vermelho num mar de azul-bebê, uma agulha perfurando um tecido por onde deixa um caminho de memória, origem. Uma avó empresta o fio do sangue, e com ele se borda o futuro, dia a dia.</p>
<p style="text-align: justify;">O arrebatamento é certo. Nestes relatos cheios de intimidade, a mulher esposa filha amiga revisora doutora autora mostra como nasceu mãe a partir de um exame de laboratório. Junto com ela, dois seres novos no mundo. São pessoas também, como eu e você. A mãe se apresenta aos filhos. Eles estão se conhecendo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Licia Matos</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Matripoder</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Aug 2025 13:45:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[filho é uma fenda no destino,
uma profundeza por onde caio
para me encontrar em plena fonte.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Por onde ressoa a voz das mães que cantam em vigília nas madrugadas? Enquanto os filhos ardem de febre, elas ardem de cansaço e equilibram-se na fina divisa entre a intuição que assegura o cuidado e o desespero de já não saber como agir?</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui nestes poemas ressoa a voz de uma mãe: a mãe-poeta nomeia a doçura — &#8220;doçura, doçura, doçura&#8221; — enquanto revela o ato comum de tentar, ao menos, planejar a hora de chorar. São tantos planos feitos, tantos planos desfeitos, e a possibilidade da poesia abrindo vias num calendário para que uma mãe possa cantar.</p>
<p style="text-align: justify;">Joana sorri de não poder chorar enquanto inventa um jeito de dizer-se ao tempo: o tempo de mãe parece nunca se adaptar às horas, nem sequer parece poder assentar no próprio corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, o tempo-mãe é o que sustenta a raiz de outras galáxias: é natureza que gera natureza, cumprindo um “pacto com a vida” sem o qual o tempo não tem mais onde encarnar. Enquanto esse pacto é sabotado &#8211; os dias são sequestrados pela ilusão do atraso, as vidas submetidas a uma lógica mesquinha que exige sacrificar o tempo da própria vida em troca de conseguir o dinheiro que supostamente a sustenta, ou em troca da promessa de uma vida alheia &#8211; uma mãe ainda pode reconhecer seus filhos e neles, refazer sua poesia. É assim que Joana diz: quando já não se pode mais quase nada, a poesia ainda surge enquanto um poder.  A poesia de Joana suporta o contraste impossível entre as mães da natureza — princípio gerador, corpos que espiralam a vida — e as mães de gente, asfixiadas por um colonialismo que as empobrece e isola.</p>
<p style="text-align: justify;">Porque mesmo quando as mães fracassam (e quantas vezes fracassam), resta um ato indomável: o de criar. O &#8220;pecado de mãe é estender lençol na varanda pra secar/ onze horas da noite de sábado/ depois de comer mingau frio&#8221;. A criança que toda mãe também foi — em seu desamparo, sua fé, seu brincar — renasce quando nasce uma mãe. E é essa criança, que poeta-mãe também materna, sonhando o mundo junto à sua criança-filha e tecendo futuros na espiral do tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">A mãe que aqui confessa à filha — &#8220;não saber te proteger é a falha que mais me assombra&#8221; — é a mesma que declara, inebriada: &#8220;eu vou pela possibilidade de dizer-me: Mãe!&#8221;. Essa mãe são muitas: fizessem um coro, o mundo teria que parar pra ouvir. Nos versos deste livro, essa mãe que está aparentemente só, e às vezes exaustivamente só com sua cria, entre paredes, numa cidade que às vezes é um deserto, reconecta o coro. Se &#8220;mãe é aquela a quem se chama&#8221; (e quantas mães sabem que é a palavra mais repetida em tantas línguas), por que tantas se vêem tão sozinhas? Joana rompe o véu dessa solidão fabricada — por políticas de morte que reduzem o maternar a uma função subalterna, sustentáculo de um sistema doentio.  É ali, no aparente vazio, que o Matripoder ressurge — como resistência, como política do justo, como fresta por onde transborda a abundância negada. Aqui, as palavras são cumplicidade: ao lê-las, reconhecemos a mãe como entidade coletiva. Aqui retornamos ao domínio da poesia: onde uma mãe pode até mesmo inventar um jeito bonito de maternar.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Mamãe é um cão raivoso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Aug 2025 13:24:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[acalmo minhas tetas:
na ausência dos filhos,
ainda há muito a quem nutrir]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Poderia ser nome de uma música punk, <em>Mamãe é um cão raivoso</em>, que também é um grito, um clamo, um reclamo, uma confissão, autoficção, um pedido de socorro, um uivo, uma poesia, sobretudo, um manifesto. Tornar-se mãe assusta, em um mundo que exerce há séculos o controle sobre o corpo da mulher. E alguém escuta o latido do cão se não para exigir seu silêncio?</p>
<p style="text-align: justify;">Reivindicar nosso corpo e nossa capacidade de decidir sobre nossa realidade corporal nunca foi tão urgente. Estamos em 2025 e muitas outras já nasceram e morreram nessa constelação. A violência é sistêmica, além de ser uma potência econômica. Mas, para além da denúncia de qualquer sistema de opressão, <em>Mamãe é um cão raivoso</em> é produção de intensidade, é elaboração poética da existência para além do trauma.</p>
<p style="text-align: justify;">Devemos lembrar que o cão que late também abana o rabo e tem a capacidade de desejar.</p>
<p style="text-align: justify;">E se “ser mãe é parir novas formas de ser”, a decisão de ser quem quisermos nesse novo nascimento é nossa. Ser mãe é um ato político, de afirmação e de resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">Precisamos fazer ecoar outras narrativas, podemos nos recusar a chorar baixinho no quarto escuro enquanto todos dormem. Assim como Júlia faz poesia com a sua existência. Não estamos aqui para correr em volta do nosso rabo, repetindo o eterno retorno do idêntico. Estamos aqui para fazer barulho, desbravar novas possibilidades de afetos, menos familistas e nucleares e mais expandidas e comunitárias. Podemos aprender a ser matilha.</p>
<p style="text-align: justify;">A raiva que queima também é capaz de nutrir e de guiar os cães na escuridão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Marcelle Louzada</strong></p>
<p>artista, psicóloga clínica com aprofundamento em saúde mental</p>
<p>materna, fundadora do coletivo de mães antiproibicionistas “Segurando as Pontas”.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Crias, criadoras e outras criaturas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/crias-criadoras-e-outras-criaturas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 Aug 2025 20:54:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Crias, criadoras e outras criaturas, do Coletivo Lampejo, reúne contos que abordam maternidades possíveis e impossíveis, sob perspectivas provocadoras, inusitadas e por vezes sombrias. As narrativas exploram temas como abandono, adoção, ancestralidade, violência, sexualidade, luto e tensões do cotidiano, mesclando realismo, lirismo, crítica social e elementos fantásticos ou de horror. Em estilos diversos, os contos de Valnikson Viana, Laís Lúcio, Giselle Ponciano, Thiago Hanney, Marcelo Soares, Cibelly Correia, Priscilla Costa, Justin Hilton e Emma Dantas dão voz a personagens cujas experiências expõem a complexidade dos afetos e os
fantasmas que moldam laços familiares e pessoais.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Crias, criadoras e outras criaturas emerge do ventre múltiplo do Coletivo Lampejo com o absurdo, a surpresa e o prazer que encontramos nos inícios brilhantes de bons autores. Traz, consigo, a exploração da figura Mãe em sua multiplicidade: as boas, as comuns, as perdidas, as terríveis e as impossíveis. Nessas variações sobre um mesmo tema, os autores mostram o que sempre me alegrou ver em seus textos quando ainda eram estudantes de escrita criativa: a inventividade preciosa e a liberdade de exploração que floresce em conjunto.</p>
<p style="text-align: justify;">Isabor Quintie</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Mãe sem a outra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Jul 2025 23:18:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA["A mãe abandonada pela filha que "desnasceu" pede que a escute, que deite a seu lado,  Para que as duas despertem, escritas."

Cristina Parga, no posfácio.

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há sempre uma data enferrujada em nossa memória, extraída do ferro de algum sangue deixado pelo caminho. Vamos plantando nossas histórias, arando na terra dos dias tudo aquilo que somos, o que perdemos e o que deixamos de ser. Esse movimento é constitutivo de nossa humanidade e tão naturalizado que nem percebemos, tal qual placas continentais se movendo e o eterno movimento entre seca e abundância.</p>
<p style="text-align: justify;">Existem, no entanto, certos lugares arrebatadores, capazes de inverter a lógica dos relógios, cristalizando uma porção do tempo em nosso presente contínuo: uma profusão de pássaros se chocando contra janela, o primeiro beijo de amor, crianças removendo o lixo pela fome, a palavra mãe inaugurando o dicionário de afetos, a morte de um filho.</p>
<p style="text-align: justify;">Glória, em seu novo trabalho, nos entrega a menina que não se deitou no seu colo, uma história escrita com a maestria de quem sabe que uma cicatriz é obstáculo ao esquecimento.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Uma mãe sem a outra </em>traspõe os abandonos acumulados em cada sermão que levamos desde a tenra infância exclusivamente por termos ventres, por desejarmos sermos senhoras de nossa própria história e por correr o sagrado risco de nascer para viver ao invés de contar os dias regressivamente.  Não devemos temer: o que foi perdido também já foi abraçado e isso basta.</p>
<p style="text-align: justify;">O que é ser mãe, ser filha, ser derrotada, ser vitoriosa, sem passarmos por uma culpabilização? O que é ser mulher sem sustentar as falanges dos sedentos de cobrança, por retidão, feminilidade, zelo, pureza, pela responsabilização dos males e apagamento dos logros? E o que é ser mãe se não for um momento?</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a condição errática deste livro, que não apenas conta uma história presente, mas sumariza um enredo secular.</p>
<p style="text-align: justify;">Mal sabe Glória que nunca deixará de ter 19 anos. E que Raquel é.</p>
<p><em>Duas, somos cada uma. </em></p>
<p>E aos milhares, todas nós somos as duas, Glória e Raquel.<em> Linhagem. </em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Debora Rendelli</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Hematomas invisíveis</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/hematomas-invisiveis</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 28 Jun 2025 11:20:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[janela é meio do caminho
pra invasão
de lobo em pele
de cordeiro

na surdina
ele entrou
espreitou
esperou

o ato final

pra ser um canalha
tentou castrar
o corpo dela
a mente dela
a vida dela]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Poemas não são textos para compreendermos algo. Poemas surgem de dentro para fora, como um raio cortante ou um bálsamo na ferida. Em <em>Hematomas invisíveis</em>, Marcela Cavallari consegue nos levar para uma viagem que toda mulher sabe qual é: a viagem do machismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez este não seja um livro para lermos desapercebidas, enquanto esperamos um ônibus ou uma consulta médica. É um livro daqueles que precisamos estar em um teto todo nosso, como disse Virginia Woolf. Só assim podemos ir olhando hematoma por hematoma em nossos corpos e nossa memória.</p>
<p style="text-align: justify;">No entanto, engana-se quem acredita que seja um livro triste. Não é. São palavras que levantam bandeiras e soam gritos de esperança também. Todas nós sabemos que para lutarmos contra a sociedade patriarcal é preciso expor nossos traumas, ainda que revestidos da beleza contida na poesia.</p>
<p style="text-align: justify;">Marcela é uma escritora que vai fundo nas experiências do ser mulher no mundo, tanto por seu olhar para a maternidade, quanto para o gozo, a violência, o coletivo e a luta. Com delicadeza e raiva na mesma estrofe, ela borda os sentidos de nosso dia a dia e, quiçá, de uma vida toda.</p>
<p style="text-align: justify;">Então, convido você a pegar seu café, respirar fundo e mergulhar em <em>Hematomas invisíveis</em> para encontrar a si mesma e a todas nós.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Marcela Beraldo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">relações-públicas e professora. Mestre em ciências sociais e humanas aplicadas e doutoranda em linguística aplicada na UNICAMP</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Homens</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 10:32:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">— Eu trouxe um fino pra nós.
Ele entrou, bolou um beck, fumamos e depois, como de costume, transamos.
— Vou ter que ir nessa, nega, não tenho muito tempo. Te cuida, tá?! Vou deixar este aqui pra ti.</p>
<p style="text-align: justify;">E deixa em minha escrivaninha um pequeno quadrado, suficiente pra uns dois becks. Tomo banho, faço outro chá, bolo um beck e fumo. Passo a noite escrevendo e lendo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#8230; essa é a verdade sobre Virgínia, uma mulher mãe triste, pobre, feia e solitária, envelhecendo sem nenhuma garantia. Fracassos, angústias, frustrações, erros lhe pesam de tal modo que são irreversíveis.<br />
Não há tempo e dinheiro que pudessem devolver à Virgínia a dignidade, o orgulho, a beleza e as oportunidades.<br />
Virgínia foi uma escrava dos próprios desejos, tal como foram seus pais. Afogou o ego no âmago de seu ser&#8230;</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Merecida agonia</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/merecida-agonia</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 10:24:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[desejo arder na tua roupa de cama branca até você ter coragem de admitir que me odeia.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Todas nós, em algum momento, deparamo-nos com o mapa misteroso de nosso próprio tormento. Quiça por acreditar na premissa de que o amor é trazer à luz nossas tripas pelo inverso, cavamos a terra em busca do ouro prometido até desenterrar aquilo que cedo ou tarde será nosso próprio engano: amar não deveria ser a medida de nosso caminho, apenas as marcas de nossas solas a vicejar vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal como uma fotografia, as diferentes estações destes signos, tão velhos como o diabo, atravessam página por página: entregar e perder-se no outro. Enquanto os dias de verão ficam mais curtos e o calor diminui, aproximamo-nos da desintegração que todo inverno traz. No derradeiro fim, somos nós e a fome dos lobos numa noite qualquer.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Merecida agonia</em>, de Camila Felix, é um livro para estar em nossa cabeceira e não nos deixar esquecer, como Lacan nos trouxe, que buscamos sempre o que falta na gente em alguém que também não possui ou como a própria autora diz:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>ele inventa meu desejo</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>até onde não existo mais</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em>Cada qual lida de sua maneira com o desvelar da falta de si no outro. Algumas cultivaram rugas com os nomes dos amados na testa, outras se sufocaram com gás. Camila, por sua vez, rejeita o silêncio para escapar da própria morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Seus dizeres nos trazem muito sobre angústias que nos moldam e como encontramos ou não, a esperança em meio ao caos diário.</p>
<p style="text-align: justify;">Sei que minha agonia dá diariamente as mãos à angústia.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem dúvida, apenas o tempo tem o poder de dizer algo sobre um texto, mas como editora desta obra, sei que existe uma característica fundamental que não o torna perene, uma alquimia que transforma uma experiência individual em algo coletivo, algo que tantas e tantas se identificam, pois no fim da contas, nós também temos medo de.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Debora Rendelli</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Mal-ditas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/mal-ditas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 May 2025 10:14:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">— Eu disse que não estou aqui. Estou aqui. — A voz de Milena estava dentro do ouvido de Caio, que sentiu um toque gelado na têmpora.</p>
<p style="text-align: justify;">“Você não é real, você não é real, você não é real”, ele repetia enquanto andava a passos largos, quase correndo, mas olhando para baixo; se pudesse, teria fechado os olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">“Você não é real, você não é real”, ele queria chegar na quitinete, não era longe, ele só precisava chegar.</p>
<p style="text-align: justify;">“Você não é real, você...”
Não deu tempo de o ônibus frear.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Você sabe nadar?</p>
<p style="text-align: justify;">Penso no bebê flutuando no líquido amniótico, sem se saber vivo, nem gente, nem homem, nem mulher, enquanto já o estão nomeando do lado de fora da barriga da mãe. Vai ser aquilo ou aquele outro. Quando será que começamos a significar o insignificado e vemos o desejo do outro sobre nós, não como possibilidade, mas como horror? Acredito que quando esse desejo se impõe. Quem temos que ser, como temos que lidar com as coisas, quem somos e quem vamos ser… A verdade é que a revolta da mulher por tais questionamentos chega cedo. O “não é isso que sou” tem muita força. Mesmo quando ainda não falamos, já é difícil respirar.</p>
<p style="text-align: justify;">Por conta da falta de ar, é bom lembrar que, antes de ser gente, fomos peixes. Flutuamos durante a vida toda como tais bebês. Darwin. Então, veio a evolução. Somos aquilo que, com pouca consciência do ser, se tornou pensante, pulsante, desejoso… julgador.</p>
<p style="text-align: justify;">Malditas. Mal-Ditas.</p>
<p style="text-align: justify;">O maldito só o é porque é capaz de ser dito. Filho da linguagem que tenta burlar a incompreensão, sem nem sempre ser bem-sucedido. O vitimismo só existe na percepção da crueldade do outro. Só existe ao perceber que as necessidades dos outros existem, mas dói atendê-las. O bebê nunca se enxerga vítima, ele é só ele, e ainda está na posição de animal, assim como um peixe também.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas você sabe nadar?</p>
<p style="text-align: justify;">Lacan, com seu sarcasmo, diz que a mulher é o sintoma do homem, o que sempre me arrancou um retorcer dos ossos e ranger de dentes, não por pouco. Pensar que partimos e somos de uma fantasia que não nos significa de uma forma que consigamos reconhecer sempre me trouxe tristeza. Seja qual for a interpretação que a psicanálise tente fazer desta frase, ela nos incomoda, mas, na verdade, o que Lacan quer dizer é que a mulher é muito mais real e verdadeira que o homem, já que é livre para não ser o que o mundo espera do falo. Ela, portanto, estaria liberta da fantasia. Seria aquilo que o homem gostaria de ser, e não pode.</p>
<p style="text-align: justify;">Sabemos nadar?</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei, mas tentamos. Por conta do que dizem sobre nós, mulheres, às vezes parece importar só se nossa genialidade consegue ficar guardada a sete chaves como um segredo que não contamos para ninguém, como quem fica o maior tempo sem conseguir respirar embaixo d’água. O quanto você consegue? Será essa a regra do mundo para que consigamos sobreviver?</p>
<p style="text-align: justify;">“O quanto você consegue ser peixe?”, respondo que pouco.</p>
<p style="text-align: justify;">Me pergunto se é por isso que muitas de nós querem ser sereias. Sem um sexo, apenas com uma voz que, finalmente ouvida, aniquila o que nos aniquilaria.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, nesta coletânea, há sereias, e elas cantam. Alto. Se você não souber interpretá-las, são malditas, mas se souber, Darwin pode te tirar da água e fazer evoluir.</p>
<p style="text-align: justify;">Será mesmo que você consegue andar?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Paula Febb</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Escritora, roteirista e psicanalista. Seu último títulos é )<em>Vermelho </em>(2024), da Darkside Books.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Tudo o que eu (quero, queria, quis) não quero mais dizer</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 08 Feb 2025 10:40:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A doença vampírica fora trazida à Ilha de Vera Cruz junto às caravelas espanholas, e os “demônios hispânicos”, como assim eram chamados, disseminaram sua praga a várias pobres almas errantes que tiveram o azar de cruzar seu caminho. A maioria havia morrido, se por impossibilidade de se adaptar à nova vida ou por uma estaca no coração de caçadores do Império, não importava. Severino, um mulato qualquer, havia sido um dos que sobreviveram. E além: sobrevivera para servir a um propósito maior. Jean tinha consciência de que os dois deveriam ser inimigos naturais; no entanto, acabaram por se tornar colegas de trabalho, e ali estavam. Como a vida era... De qualquer forma, era quase impensável a ideia de ter em Severino, ser tão pálido e trêmulo e minúsculo, um inimigo mortal.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Corro duplo risco ao recomendar este livro. O primeiro é de ele eventualmente desagradar quem o ler e eu ser acusada de promovê-lo apenas por corujice de mãe; esse é um risco menor. O segundo e grande risco é que este é um livro sobre mães, dedicado a esta mãe que vos escreve e eu nem sequer imagino o que a autora escreveu sobre mim e essa categoria na qual fui/sou uma participante bem atrapalhada, que jamais avançou do estágio de amadora.</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, eu admiro muito a filha escritora de cuja formação participei ativamente. Além de escritora ela foi e ainda é uma leitora voraz e creio ser essa a principal característica das grandes escritoras e escritores, a paixão pela palavra bem trabalhada, burilada ao ponto de brinquedo, como diria Manoel de Barros. Bia é isso, uma artesã que põe nadadeiras e asas nas palavras, afrontando a gramática que eu teimo em corrigir em seus escritos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não, eu não li este livro. Bia não me deixou lê-lo antes de estar publicado, mesmo assim eu o recomendo. Porque sou uma mãe orgulhosa e encegueirada por tudo que a filha faz? Certamente não. Sou uma mãe chata, exigente e crítica, que diz na lata quando não gosta. Mas Bia é uma escritora experiente já com 6 livros solo, numerosos capítulos de livros e de revistas publicados. Gosto do que ela escreve, especialmente na categoria contos, mas já me emocionei com suas poesias, admirei seus longos primeiros romances, estarreci com seu poder de síntese, com a profundidade de seus pensamentos, com seu poder de fazer conexões, de deixar fios soltos e com eles tecer lindas imagens.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou mãe há mais de 26 anos (aí incluídos os idílicos meses da gravidez) e desde lá sei que tudo nessa experiência é risco, porque sempre se está a estrear nas diferentes situações que a maternidade interpela. Arriscar, portanto, não será nenhuma novidade para quem, lá atrás, se lançou a esse desafio que, como diz Mario Prata, é bom, mas dura muito. Recomendo!</p>
<p><strong>Silvia Chaves</strong></p>
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		<title>Te vejo me vejo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 08 Feb 2025 10:28:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Caê: “zim! Au au adrou o aum! Não é o booooi” — fazendo chifrinhos na cabeça.
Mamãe: “não é o boi! Você lembra que a gente viu os bois na viagem, filho?”
Caê: “ziiim! Muito gaaaandi!” — fazendo movimento de “grande” com as mãos e com uma carinha de medo. “Você ficou com medo dos bois, filho?”
Caê: “zim, Aê edo!” — juntando as mãozinhas uma na outra.</p>
<p style="text-align: justify;">Mamãe: “mas a mamãe tava lá com você, filho, não ia deixar nada acontecer!”</p>
<p style="text-align: justify;">Caê ri de canto de olho.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Te vejo me vejo</em> é um livro sobre o começo de tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">E o começo de tudo não é o big-bang, apesar de a autora também afirmar que um filho é a própria expansão do universo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Te vejo me vejo</em> é o título de um de seus contos, escrito pra Caetano, o filho mais velho e, no entanto, é também uma constatação do leitor que, sendo ou não mãe, se reconhece na humanidade escancarada de Flora, que escreve porque precisa dar vazão ao que sente.</p>
<p style="text-align: justify;">As coisas têm o tamanho que a gente dá pra elas. Flora tem lente de aumento nos sentidos. Escreve com o corpo todo: pele e entranhas, cabeça e costas. Faz desse livro uma bacia de água onde desemboca dores, encantamentos e dúvidas. Fala do espelho entre mãe e filho e também do espelho entre mães e mães.</p>
<p style="text-align: justify;">A leitura é um passeio visceral pelo universo da autora, que registra a sensível, assustadora e brilhante rotina que se passa dentro e fora de seu corpo com a chegada de seus filhos. É como ler um diário de um estranho profundamente íntimo. Um livro de desabafos e celebrações.</p>
<p style="text-align: justify;">Flora se diz pessimista ao mesmo tempo que é uma das pessoas que conheço que mais acredita que o afeto verdadeiro é o único desengano, a grande forma de encontro e pertencimento.</p>
<p style="text-align: justify;">Afiada, captura belezas e dores. Contorna o caos com delicadeza e humor.</p>
<p style="text-align: justify;">Brasileira, foi capaz de criar seus filhos e novas raízes distante de seu país.</p>
<p style="text-align: justify;">E ainda que a origem primeira desses relatos seja a necessidade de se expressar, acabou por costurar momentos extraordinários do cotidiano que agora podem ser partilhados com tantos outros oceanos. Ainda bem!</p>
<p style="text-align: justify;">São contos de suas vivências diárias sob o olhar encantado e exausto de uma mãe.</p>
<p style="text-align: justify;">Registros do que se passa na mente e corpo de um ser humano que é capaz de gerar outros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tereza Monnerat</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>História de Kairú</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jan 2025 15:26:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tupã é um guarani do Paraná que resolveu fazer faculdade na capital Curitiba, e já no ano de 1990 estava no segundo ano de filosofia na PUC. O garoto sempre acreditou que seria importante fazer uma faculdade e que o conhecimento poderia ajudar muito nas lutas indígenas, que sofrem há séculos de opressão, e naquela época era raro ver um índio na universidade mas já estavam surgindo alguns pelos estados do Brasil. Podemos dizer que era um novo início, e que não era comum, mas estavam surgindo indígenas querendo estudar, e isso seria ótimo, uma revolução, porque teríamos jovens com conhecimento pra enfrentar a política e discutir sobre as questões problemáticas que acontecem pelo nosso País.</p>
<p style="text-align: justify;">E estava estudando e morando no CEU (Casa do Estudante Universitário), moradia dos estudantes, era um lugar muito bonito, do Governo e cada estudante pagava uma taxa de 25% do salário, não era muito caro, mas já era um absurdo, devia ser de graça, é que na moradia havia os ricos de classe média que têm condições de pagar, mas tinha o caso daqueles que eram pobres e esse pagamento de taxa poderia ajudar o aluno em outras coisas. Mas quem sabe um dia os governantes mudem de ideia e a casa seja um lugar de graça, quem sabe pelo menos para os mais pobres. O local ficava bem no centro de Curitiba, que aliás, é uma cidade linda, gostosa de se passear a qualquer dia, e que tem muitas árvores que embelezam muito a cidade. E como Tupã gosta muito de árvores, pelo menos nisso ele se sentia à vontade.</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Já fazia um mês que Tupã estava morando na casa da Pataxó, e de repente chegou uma índia com uma pequena mala de roupas, chegou da aldeia Apucaraninha, que fica no Norte do Paraná, perto de Londrina, e disse que queria ficar um tempo em Curitiba e pediu se podia deixar morar na casa, não sabia por quanto tempo e, como não tinha onde morar, veio direto na casa da amiga. Ela era do povo Kaingang, e falava um português meio apertado, é que ela falava a língua do seu povo. A língua de um povo tem que ser preservada sempre e quem fala tem que ter orgulho, porque no Brasil tem muitos povos que não têm mais sua língua materna. Era nova, tinha uns 19 anos. A Pataxó, com aquele coração de mãe, que não tem coragem de negar nada a ninguém, disse que poderia ficar sim, ia ficar mais apertado, mas o importante é que teria um lugar pra ficar.</p>
<p style="text-align: justify;">— Esse é o Tupã, é guarani e também mora com a gente, é gente boa e você vai gostar dele.<br />
— Prazer, eu sou a Kairú, disse com um sorriso que dava gosto.”</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Livros &#8211; Clube Mãe leva outra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Dec 2024 17:17:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<strong>Livros do mês de junho e julho: </strong>

"Soroca", de Angela Marsiaj e "Verdades de papel", de Analu Leite.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Autoras da Urutau lançam Clube de Leitura</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Escritoras da coleção Mãe Leva Outra realizarão encontros e debates para a promoção de temas relacionados à maternidade</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>São Paulo, 03 de dezembro de 2024 – </strong>A Editora Urutau lançou a coleção Mãe Leva Outra em janeiro deste ano, que contemplou a publicação de treze livros que tratam ou tangenciam a temática da maternidade. A aproximação das autoras neste primeiro ano da coleção constituiu um importante movimento de reflexão sobre a literatura e as condições do exercício da maternagem e do cuidar. Um dos frutos desse movimento é a criação de um clube de leitura.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob o título de Mãe Leva Outra, mesmo nome da coleção que integra o selo político Hecatombe, o clube nasce com a proposta de promover o diálogo sobre questões relacionadas à maternidade, a partir dos aspectos tratados nas obras das autoras. Assim, fertilização in vitro, perda gestacional, regulamentação de guarda, invisibilidade materna, entre outros, integram a pauta de assuntos a serem abordados nos encontros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sobre o Clube de Leitura Mãe Leva Outra</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O Clube de Leitura busca realizar ações diversas, tais como encontros online, leituras em grupo, eventos presenciais e, até mesmo, debater questões que possam ser encaminhadas para a esfera de políticas públicas voltadas a mães solo e mulheres em situação de vulnerabilidade. A agenda contempla a leitura de um livro da coleção por mês, com uma live de divulgação na primeira semana e a reunião virtual na última.</p>
<p style="text-align: justify;">Para tanto, o grupo se organizou entre escritoras que assumem o compromisso da gestão do clube e outras que participam mais esporadicamente. O núcleo duro das atividades fica a cargo de cinco autoras, que se dividem entre organização das atividades, mediação das leituras, convites para convidados, relatoria das reuniões e divulgação. Maíra Castanheiro, autora do “Tornar-se Mãeconheira”, é a idealizadora da iniciativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Debora Rendelli, editora da Urutau e responsável pela coleção Mãe Leva Outra, o clube de leitura é um dos acontecimentos mais interessantes ligados à literatura e à maternidade. “A criação da coleção foi um marco porque abarcou uma diversidade de vozes e experiências para tratar de um tema tão importante nos dias de hoje, que é a maternidade. A partir daí, a organização do clube de leitura amplia essas vozes e dá mais abertura para novos leitores, despontando como uma importante contribuição para o cenário da literatura brasileira”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sobre a Coleção Mãe Leva Outra</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A publicação dos livros da coleção Mãe Leva Outra começou em fevereiro deste ano, após a chamada de originais divulgada em setembro de 2023. No total, foram recebidos mais de 600 originais, advindos de diversos estados brasileiros e da Alemanha, Espanha, Estados Unidos, Irlanda e Portugal.</p>
<p style="text-align: justify;">A coleção faz parte de um projeto que abrangeu a curadoria de materiais para publicação e se estendeu para encontros, palestras, oficinas e atividades que suscitam o debate sobre a maternidade na contemporaneidade e seus caminhos futuros.</p>
<p style="text-align: justify;">As autoras da coleção Mãe Leva Outra estiveram presentes na 27ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada em setembro no Distrito Anhembi, e na 22ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), que ocorreu em outubro em Paraty. Em ambos os eventos, as participantes realizaram lançamentos e sessões de autógrafo dos seus respectivos livros. Na FLIP foi realizada a mesa “Mãe leva outra – olhares/dizeres sobre maternidade”, que reuniu as autoras da coleção e mais de 40 convidados.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Palavras que guardei para minha filha</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/palavras-que-guardei-para-minha-filha</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Nov 2024 13:23:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Hoje eu vi vocês. Eu nunca os tinha visto, embora sempre tenha imaginado suas feições. É verdade que quando a ideia me pareceu menos palpável, quando tantas vezes eu os chamei sem resposta, forcei-me a parar de imaginá-los. Eu nunca me coloquei em um lugar de mãe. A ideia me parecia uma decisão a ser tomada em tempo futuro, ou, quem sabe, a não ser tomada, ou a ser tomada por Deus, pelo acaso, pelo destino.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Talvez seja esta a alma nova que está por vir: a minha”. O livro <em>Palavras que guardei para minha filha</em> traz a jornada de uma mãe infértil até o encontro com sua filha, de antes da gravidez até a travessia do puerpério, com passagens curativas por sua memória e ancestralidade.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cavidade materna</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Jul 2024 11:32:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">no escuro da madrugada, eu vivia um pesadelo bem real. de olhos abertos, tive que enxergar a minha frustração e a vulnerabilidade radical do meu corpo. sete camadas cortadas na carne. pele. gordura. músculos. vísceras. útero.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>A beleza não será mais proibida. Assim, eu gostaria que ela escrevesse e proclamasse esse império único.</em></p>
<p style="text-align: right;">Hélène Cixous, <em>O riso da Medusa</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cavidade materna</em> nos apresenta o Império da Maternagem a partir das vozes daquelas que vivem essa experiência. Lugares internos recônditos, que eu já não sabia se eram meus, seus ou Nossos. Quiçá seriam de todas Nós. Uma pluralidade de vozes maternantes, das mães-avós-babás-bisas-cuidadoras.</p>
<p style="text-align: justify;">Um relato poético e compartilhado das Maternidades reais. Desse processo tão milagroso e mágico quanto aterrador que é o tornar-se mãe e sustentar-se mãe!</p>
<p style="text-align: justify;">Todas as narrativas costuram um escrito doloroso e luminoso sobre suas maternagens. Contam com verdade crua as injustiças que as mães de nossos tempos ainda vivem e denunciam diversas violências (de gênero, obstétrica, de raça, entre outras) contra as quais as mães têm de lutar. Com garra e fé, contam como encontraram recursos para seguir adiante, mesmo durante momentos nebulosos de puerpérios infindáveis. Essas mães tornam o mundo um lugar mais possível. Um lugar mais sensível, profundo, inteiro e amoroso. Elas contam que há esperança, que funciona melhor a nossa luta quando tecemos rede.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é um livro-lanterna para iluminar o “Mapa da mina”, nos relembrando que a partida do caminho tem nome (é Dor!) e que as encruzilhadas do percurso podem produzir transformações belas em tantas camadas de Nós! Este é um livro com poder de afetar. Com muito afeto. Separe o lencinho e boa leitura.</p>
<p><strong>Brunella Rodriguez</strong></p>
<p>Psicanalista, doutora pela Universidade de São Paulo</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>O tronco é firme, os galhos finos</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/o-tronco-e-firme-os-galhos-finos</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Jul 2024 15:42:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[em janeiro eu escrevi
“tenho dentro todas as palavras e ao mesmo tempo,
nenhuma”

anteontem me deparo com esse verso de gabriela mistral de 1954

“yo tengo una palabra en la garganta y no la suelto y no me libro de ella”
e lembro quando nayra lays canta
“parindo palavras eu digo

bem-vindo”]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em <em>o tronco é firme, os galhos finos</em>, há um duplo movimento que só se realiza por meio de dolorosos e difíceis esforços: a princípio, há um eu lírico que, como cavasse com mãos nuas, busca em seu âmago resquícios da infância e, sem deixar de esbarrar em lacunas e imprecisão, chega a um terreno que é tanto memória quanto invenção; estando lá, há o corpo criado e inventado de menina. A menina, por sua vez, também tem que atravessar a pedra, o árido, não para lembrar, mas para crescer. Não é a rota do herói nem o clássico romance de formação, é a necessidade de, entre a pobreza, o abandono, as desigualdades de toda ordem, sair à cata de estilhaços para formar-se sem saber se chegará a tanto. Em escrita rápida, Juliana Porto realiza um experimento existencial, pessoal e coletivo em que os guetos urbanos se confundem com o gueto subjetivo, em que o lugar da pessoa deslocada, a mulher, mãe solo, periférica, para sempre julgada e recusada, tenta se firmar, em meio a um móbile de recordações pesadas, em território saudável para o crescimento. Focado no eu, os cenários não deixam de se construir ao redor, assim como os personagens. Casas que poderiam ser as de muitas; famílias que, predadas pela pobreza e pelo senso comum violento, também poderiam ser as de muitas. Assim como a autora não diferencia temporalidades, realidade e criação artística, as famílias aqui, no seu modo de existir, misturam o amor e o brutal. Brutalidade que se articula, muitas vezes, sob o signo do machismo e incentiva, na obra, que as lembranças que se costuram também articulem mulheres numa teia que desafia o espaço-tempo: a menina que cresce em mulher, a filha, a mãe, a avó, a bisavó, a mãe que espera na fila da biqueira em um dos poemas, assim por diante. Assim, o texto se organiza contra o parasitismo de classe e a violência patriarcal sem pôr a perder suas barricadas de ternura, de amor solidário que, indiferente à superfície truculenta dos dias, afirma-se como um mundo possível. O que resiste, o que a autora age para manter palpável, é a força de meter as mãos na linha do tempo, reconstruir-se da lama de cacos com criatividade, sendo contraponto a tudo que comprime, quebra e bestializa. Se os galhos são finos, se balançam ao sabor do vento, se temem quebrar à tempestade, buscam o tronco, o solo, o fértil comum das emoções que, ainda que soterradas, lá estiveram. Resiste, o fruto.</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Soroca</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/soroca</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Jun 2024 13:45:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">... O jogo de esconde também acontecia quando o amigo imaginário pedia a Joana para comerem biscoito de polvilho atrás da cortina. Era proibido porque estragava o apetite, mas vinha com mais uma recompensa: ouvir conversa de gente grande. Para dar certo eles tinham de parar de morder o biscoito ou até parar de mastigar. Se não, logo vinha a avó ou a mãe afastar a cortina dizendo tem um ratinho aqui...</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Da mesma forma como correm rios submersos sob o cimento de São Paulo, o passado também corre sob o presente, às vezes sob a forma de água e outras sob a forma de pedra. Em <em>Soroca</em>, romance inaugural de Angela Marsiaj, o passado escravista do país emerge e submerge como onda, em meio a um presente que apenas em aparência superou os traumas antigos. Romance escrito em dois tempos, com personagens, tramas e linguagem distintos, <em>Soroca</em> — “fenda no solo em razão de infiltração de água” — mostra ao leitor de que forma nosso passado é inescapável, mesmo quando pensamos tê-lo superado.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse novelo narrativo tão bem urdido pela autora, questões indígenas originárias são mescladas a um relacionamento complexo e atual entre mãe e filha, trazendo à tona tanto problemas subjetivos e afetivos quanto — sem panfletarismo algum — o debate ecológico. Marsiaj confere singularidade a cada uma das vozes que compõem este romance polifônico, e, por isso, as relações que se estabelecem são sempre complexas e autênticas, tanto no presente quanto no passado.</p>
<p style="text-align: justify;"> “A água é uma só, um segundo ou um século”: é por uma soroca, num dia de tempestade, que Petra é sugada pelo Rio Verde num bairro central de São Paulo, e é nesse lugar — entre real e imaginário — que ela se depara com a iminência da morte e com um passado mais vivo que o próprio presente. Afinal, é na água que tudo conflui. Neste romance, entre líquido e pétreo, o Brasil do século XVIII se funde com um país que quer ser contemporâneo a todo custo, mas que não poderá sê-lo se, como faz este livro, não aprender a lidar com aquilo que se esconde sob os rios de nossas cidades.</p>
<p><strong>Noemi Jaffe</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O corpinho então nada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Jun 2024 12:30:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[da noite escura nasce
um novo dia:
gastar o riso e as
roupas
inspecionar os jardins
distribuir gritos e ruídos
cansar o corpinho
tudo isso sem pressa
sem relógio
porque seu tempo
é ainda o tempo do
passarinho
que você ouve sorrindo
da sua janela]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Yasmin Bidim escreve esta plaquete não “para” seu filho, mas “por causa” dele. A diferença se faz notar em sua escrita. A chegada de um <em>corpinho</em> intruso faz brotar em si novas palavras, um novo contexto possibilitando a vida. O <em>corpinho</em> que nasce do corpo maior, renovando laços sanguíneos e poéticos, traça seu percurso ao desafiar o tempo: “talvez o novo humano/o pequeno feto/faça durar esse entre/esse ínterim”. O nascimento de um outro corpo traz a possibilidade de continuidade e reverberação de um simples instante: o próprio instante da poesia. Se evocarmos o poema “nascemorre” de Haroldo de Campos, expandimos a concepção de texto para a vida, para os ciclos que se estendem e se transfiguram. Depois do sexo, surge a intrusão de um <em>corpinho</em> que se esparrama, que nada em águas maternas, que ainda não se constitui como indivíduo, mas que “aguarda/a fala a palavra a risada”. Tudo isso, reservado ao seu futuro, se instaura num tempo pré-linguagem, em que o nada é tudo. O <em>corpinho</em> aguarda “o espaço o tempo/o mistério/das pequenas palavras”, mas também os guarda; contém em si as respostas que não sabemos acessar. Se a poesia é a arte de prolongar o fugaz, o fugidio, a autora recorre, nos poemas, a uma tentativa de comunicação com esse outro inaudível que a habita, assim como recorre, através do texto, a uma possibilidade de interpretação de seus silêncios. Renascer e remorrer em forma de palavras nos aproxima da nossa própria existência pré-verbal e de seus mistérios inescrutáveis. Resguardá-los, revivê-los é impossível em todos os momentos, exceto, talvez, num ínterim, num lampejo de luz e acaso que torna obsoletas a ordem e a linearidade. O espaço para o imprevisível nos aguarda, e Yasmin Bidim lança mão de tal imprevisibilidade para mostrar as mudanças e os estranhamentos de quem habita/gera (corpos e) poesia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Raquel Campos</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Do silêncio embaixo d&#8217;água</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 May 2024 18:14:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[aqui se reescreve
o cânone budista:

a bandeira foi queimada
o vento não venta calmo
e o coração de toda gente
tumultuado como sempre
sob as águas do presente]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Imagine uma embarcação feita do silêncio embaixo d’água: o seu corpo é um triunfo, a vida, “uma educação pela água em quatro lições”. De repente, um “Espírito à parte” se parte em “O mundo debaixo d’água”; “Je vous salue, Marie”: há “Variações de um começo”. Temos, aqui, um livro em quatro partes iniciado em “Advertência” e acabado em “Indagações”. A abertura e o término deste preciosíssimo livro unem-se como espinha dorsal a dizer: seja bem-vinda, espécie humana! Jhenifer Silva parece te saudar como um <em>venha-se-descobrir</em> com <em>as valas da sua pele</em>: seja a própria casa, depois que os dedos cosem e colhem. Há sempre o rumo de que mães e seus rebentos escapam entre o punhal dessas águas, com a explosão das manhãs, “e toda palavra é espírito que” o barco vai quebrar: sim, para descobrir que há eras, as gerações em movimento nos captam. Que importante é estar devagar por aqui, nestas páginas deliciosas, um mundo todo, e de repente olhar para o segredo de Penélope, que é <em>ainda</em> enganar o Tempo: afundar mais nas águas de uma poesia que ora apresenta toques de prosa poética à la Ana C. Cesar, ora é lírica condensada como em Alejandra Pizarnik. E já que o início é quando se banha na água salgada, nas origens, Silva também faz com que “carregamos nas mãos o signo”, o seu ato precioso de “serei para sempre eu própria a mãe”, a natureza, o fim de “transformar a sensibilidade” como se a poesia evitasse o naufrágio. Ainda para “encenar o fim”, saudamos <em>Do silêncio embaixo d’água</em> como quem sabe que o mergulho é individual, mas também ancestral. E vamos assim para dentro dos olhos de Jhenifer, como se fossem os nossos oráculos aconchegantes. Silva também age como uma poderosa sereia, articulando as quatro seções com ritmo contínuo, que se mantém firme com “o suor viscoso das mãos” da escrita. E conosco, juntos de mais versos a celebrar as batidas de um “<em>oceano, devore-nos</em>”! Aquoso o mundo é o terreno para se transfigurar os papéis e fazer surgir o que é diferente, com a natureza e uma cosmovisão de amor, de cuidado e de revolução que se amparam nas origens. Ainda abismados, como se o vazio dos nomes completasse a rota por se cantar nosso presente. <em>Venha!</em></p>
<p><strong>Mariana Basílio</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Nunca me contaram</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 May 2024 13:15:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Um filho não é um filho! É uma força que faz ressurgir em nós a parte boa, a parte que luta, a parte que sente com o outro. E a parte disposta a travar batalhas, ainda que silenciosas. Ainda que por meio de uma militância de redes sociais. É a revolução que diz “você precisa de algo, eu estou aqui”, ainda que nunca tenha visto o outro.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">É no transbordar das emoções que se faz uma mãe, ora pelos hormônios, ora pelas situações. Maternar vai muito além do significado simplista trazido pelos dicionários: “laço de parentesco entre filhos e aquela pessoa intitulada de mãe”. Mesmo porque, quando esse laço se faz? Na chegada do filho, no parto ou na construção do imaginário materno? Definitivamente não é preciso gestar fisicamente para ser mãe, mas é preciso gestar nas ideias, nos afetos, nas dúvidas e no amor. Diante disso, Ariana utiliza de um inteligente humor e de todas as emoções que transpassam o corpo de uma mãe para nos fazer rir e chorar com os dilemas do ato de amar outro ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, cada crônica nos conta por que vivemos de modo tão dicotômico a <em>maternagem</em>. Culpas, dúvidas, amores e acima de tudo tentativas, tentativas imersas na esperança do cotidiano aparentemente simples. Pelo olhar da autora é possível encontrar poesia nesse encontro da infância com a idade adulta.</p>
<p style="text-align: justify;">Cabe lembrar que a maternidade não é igual para todas, por isso talvez o termo mais adequado seja no plural, maternidades. Algumas são vividas em situações precárias, sem rede de apoio, sem respaldo financeiro, e, até mesmo no momento de parir, somos transpassadas pelas interseccionalidades. Mas acredito que, sem dúvida, ao ler os sentimentos de outra mãe, somos capazes de questionar quem fomos, somos ou seremos na maternidade. Uso o verbo no passado, “fomos”, não no sentido de anunciar que em algum momento deixaremos de ser, mas sim para explicitar que, durante o percurso de ser mãe, também são operadas mudanças em nós e no que acreditamos ser o ideal, o melhor.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a leitura é possível desvendar alguns dos segredos não contados da maternidade — segredos existentes e já anunciados no título do livro: <em>Nunca me contaram</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A criança ou o bebê, nas páginas que se seguem, são igualmente protagonistas, afinal de contas, não se materna sozinha, se materna alguém, e hoje passamos bem longe de acreditar que elas, crianças, são de algum modo uma tábula rasa. Então, Teresa e Clarice são coautoras desta obra ao preencherem sua mãe de questionamentos, de amor e ao esvaziá-la de certezas.</p>
<p>Juliana Costa</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Tornar-se mãeconheira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 May 2024 17:46:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Enquanto a maternidade não for um direito, não haverá maternidade certa.
Os filhos seguirão sendo nossos erros vaidades acidentes boletos e vencimentos.
Por que as pessoas têm filhos? E por que as pessoas têm o segundo filho? O que nos move a cometer tal loucura?
Ter uma filha foi a maior e melhor low cura da minha vida.
De fato a gente não sabe o que é ser mãe até o fato ser feto.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Tornar-se mãeconheira</em> não é uma receita de bolo, mas impõe certos códigos e regras sociais, como acontece ao tornar-se uma usuária de maconha, aliás, uma bela referência ao sociólogo Howard Becker. Ainda assim, em geral, há certos padrões difíceis de romper na maternidade, como o amor e a solidão que “este sacro ofício que se torna sacrifício” promove, para usar as palavras de Maíra. Quando falamos de uma mãe que gosta de ter a cabeça feita pela erva que amplifica a liberdade, a maternidade de fato ganha contornos mais desafiadores em uma sociedade machista que pode punir a mãe desviante com a perda do direito de estar com a própria cria.</p>
<p style="text-align: justify;">Maíra recebeu essa punição e compartilha como foi enfrentar a perda da guarda da filha por ser uma mãeconheira, drama pessoal que é o fio condutor de todos os textos contidos neste livro, que explora aspectos de como a maternidade é um ato de coragem, que nem sempre é libertadora e que definitivamente não deve ser romantizada, especialmente para as mães usuárias de drogas e para as que são afetadas pelo proibicionismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em meio a essas ponderações sobre os perigos de ser uma mulher mãe que é usuária de drogas que se assume como tal em um contexto conservador e patriarcal, revela como partilhar sua história e suas dores na internet a conectou com outras mulheres que viveram histórias parecidas, assim como outras que ocultam o uso de drogas para ter garantido o direito de ser mãe, ainda que o uso suavize tanto a barra de criar outro ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Maíra expõe essas questões de forma leve e descontraída. Com seu jeito de brincar com as palavras, conta sobre a sua vida, suas dores, alegrias, pequenos prazeres, criações e sonhos, como o de viver em um mundo sem patriarcado. A leitura de suas reflexões nos provoca a pensar sobre o lugar da mulher no mundo e a força de compartilharmos nossas palavras entre nós. É também um convite a escrever sobre si como um ato político. Por fim, é importante dizer, este livro altera a consciência.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Monique Prado</strong> é mãe, ativista antiproibicionista e cientista social.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Clearblue blues</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 May 2024 11:38:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Você vê, você sente a eletricidade
no ar, vibrando com o vento
antes da tempestade?
Portas e janelas se batem
e meu corpo se abala de fé]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Alguém escreve. Escreve porque precisa, escreve porque escrever é mais que registrar, mais que elaborar, é tornar palpável a vida. Quando a vida cintila, onde mais existiria senão na letra? Essa velha sombra do corpo ausente sobre a superfície clara.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguém escreve, e essa escrita atravessa o desejo de ser mãe. Atravessa a frustração das perdas. Se engana quem não mergulha nos riscos que o texto percorre quando, vivendo a dor, está vivendo, ainda. E, como numa canção, num blues, vai entoando a história comum e silenciada de tantas de nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Afirmo que alguém escreve, lembrando que não importa quem, pois o texto está além daquele que escreve, mesmo se tratando de um texto muito pessoal, escrito por uma mulher. Sim, é um relato, é pessoal, mas antes trata-se de uma canção, um blues, que vai entoando a história comum e silenciada de tantas de nós. Alguém escreve a partir de si, e escreve como nós.</p>
<p style="text-align: justify;">Trata-se de um encontro com a honestidade, encontro este que permite perceber que há sempre algo desconhecido de si mesmo no viver, algo que nem toda a intenção de verdade consegue desvelar. Esse mistério, como se paga para que ele exista? Com a pena, diria Duras.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse alguém experimenta a dor e o desejo de que o pulsar tenha constância, de que a vivência se prolongue, e isso não é o mesmo fazer viver que a medicina ocidental conhece. Não, não se trata de fazer caber a multiplicidade dos corpos em fórmulas genéricas, de fazer da vida uma receita rasa e confortável. Nem daquilo que o senso comum atribui à maternidade: um instinto, uma realização. Há uma pergunta essencial em jogo. Criar vidas, como é possível isso?</p>
<p style="text-align: justify;">Se a vida estreia e foge, há um recado a ser ouvido? Se um útero falha, o corpo da mãe é um lugar de partida? Se um útero falha, é Deus quem falha? E, o texto pergunta: “para quem Deus reza?” São a ciência e a fé que se veem em crise diante desta escrita: “quando tudo floresce no aleatório”.</p>
<p style="text-align: justify;">Alguém escreve, é certo. E essa escrita não precisa de rótulos, como nenhuma criança, nem mesmo aquelas que não nascem, precisa. A escrita, como as crianças, precisa de um nome. A essa, dá-se o nome próprio de Cristina Parga, que, ao ser colocado como assinatura, já não é mais a da mulher que viveu, mas do corpo que escreveu. E, quando há escrita, há sempre alguém que lê.</p>
<p style="text-align: justify;">Que nasça e seja lida, pois. E será.</p>
<p style="text-align: justify;">Alice Bicalho</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>A cidade que carrega teu nome como um sussurro no meu ouvido</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/a-cidade-que-carrega-teu-nome-como-um-sussurro-no-meu-ouvido</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Apr 2024 11:47:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A maior parte deste livro, escrevi ainda no hospital, quando passava os dias e as noites ao lado do meu filho na UTI Neonatal. Precisei regurgitar muitas palavras para digerir a experiência, e assim o fiz, enquanto ainda a experienciava. No olho do furacão, encontrei raro estado de presença do aqui e agora. A dor pungente do presente e a sabedoria da grandeza dos aprendizados para o futuro no mesmo instante. Este livro é um desabafo, um presente para meu filho, a lembrança de que viver é sempre risco em direção ao qual vale correr.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#8220;O pai dele me disse que ele ‘teve que chegar assim’. Essa é a história dele.” As palavras da Valentina mãe, vindas do hospital, ressoam no meu peito alargado de amor e dor e certeza. Por ela e por ele. Vivi duas vezes um <em>encontro no espaço em tempos diferentes</em>: quando ela e ele nasceram, em setembro daquele ano, e após ler este livro. Da mãe para o leitor: a escrita da Valentina comove, encontra, estapeia e te faz sentir um tanto que só sabe quem pariu. Te aproximar de parir e de nascer através das palavras é uma conquista dela. E um triunfo nosso.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fernanda Meirelles</strong>, mãe, jornalista e atriz</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Cinzas da primavera</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Apr 2024 13:18:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O primeiro banho frio
sobre o novo corpo nu
(novamente estava só)
alcançou a fonte da calma
lavou a sede da alma
a água da solidão

Sob a cascata rala, o arrepio
na garganta muda, o nó
a pele como retalhos
à mostra nos cacos do espelho
as bolhas de sabão tingidas
pelo líquido vermelho

O vento brotou cortante
atravessou a porta aberta
espiou pela janela
do quarto que dá para a rua

cinzas da primavera
e foi assim, nua e fria
que pensou em desistir

Foi também que, num rompante
a inesperada visita
tomou seu lugar no batente
e restou que havia, enfim
um caminho no universo
que apontava além de si.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>O tempo era como um insulto</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>livre, solto, sem limites</em></p>
<p style="text-align: right;">(Trecho do livro)</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">O que pode a literatura diante do corpo violentado?</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cinzas da Primavera</em>, de Mariana Daher, é esqueleto em vias de esfarelamento para dor potente em dez episódios poéticos.</p>
<p style="text-align: justify;">É luto que se ergue desde a entrada na obra, quando, ao fim da primeira estrofe do primeiro poema, lê-se o anúncio do “quase-fim”.</p>
<p style="text-align: justify;">Leitora, tateei o quase-fim-feminino-limbo, procurando compreender a dor portal à insalubridade do eu lírico (expressão técnica, que, masculina, deixa de dar conta do universo feminino que o/a envolve, devora e regurgita).</p>
<p style="text-align: justify;">De qual dor feminina estamos partindo? Me perguntei.</p>
<p style="text-align: justify;">A resposta à minha intuição veio com “a vida que ainda brotava e/nem mais primavera era”.</p>
<p style="text-align: justify;">Que escolha! Em coleção intitulada Mãe Leva Outra, Mariana compôs no entre-gênero (entre a prosa narrativa e a poesia) a negação à maternidade. Partimos da violência contra o feminino que se realiza cotidianamente inclusive na língua incapaz de tratar da mulher poética que se anuncia. Partimos da imposição masculina contra o corpo da mulher, partimos da violação; e seguimos pela escolha pela interrupção da vida.</p>
<p style="text-align: justify;">“Olhares”, “piedade disfarçada” e “culpada, culpada!” pela própria voz revelam um pouco sobre o interior e o exterior social da atmosfera da obra.</p>
<p style="text-align: justify;">É possível a uma mulher fecundada pela violência reencontrar a paz?</p>
<p style="text-align: justify;">Aborto é tabu. Violência sexual é tabu. Liberdade feminina é tabu.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cinzas da Primavera</em> é fluxo de sangue, de dor, de pensamento e de movimento:</p>
<p style="text-align: justify;">“Sob a cascata rala, o arrepio</p>
<p style="text-align: justify;">na garganta muda, o nó</p>
<p style="text-align: justify;">a pele como retalhos</p>
<p style="text-align: justify;">à mostra nos cacos do espelho</p>
<p style="text-align: justify;">as bolhas de sabão tingidas</p>
<p style="text-align: justify;">pelo líquido vermelho”.</p>
<p style="text-align: justify;">É experienciar junto do eu lírico feminino a queda ao mais baixo que o fundo do poço; e suas tentativas, no plural, de reestabelecimento:</p>
<p style="text-align: justify;">“Nem percebeu o outono</p>
<p style="text-align: justify;">pairando sobre a retina</p>
<p style="text-align: justify;">varrendo com um sopro</p>
<p style="text-align: justify;">as folhas marrons, caídas</p>
<p style="text-align: justify;">dia após dia, e a rotina</p>
<p style="text-align: justify;">retomando à força as rédeas”.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cinzas da Primavera</em> é luto e luta, moldada na resistência e na (re)existência da mulher que se reinventa em espiral; na interrogação sobre as estruturas em que se assentam os poemas de seu corpo-livro e os corpos da nossa sociedade. É obra que toca no que se vela.</p>
<p style="text-align: justify;">Que o livro seja lido, que reverbere, e que rodas de conversa se abram sobre mais esse braço dolorido da maternidade que acontece, embora pouco se fale. Que a literatura, diante de corpo solitário, estabeleça conexões!</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Carolina Manzato</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Aquela que vejo pelo espelho</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/aquela-que-vejo-pelo-espelho</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Apr 2024 09:55:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Escorrendo pelos dedos,
o tempo passa
jorrando desejos,
abrindo feridas
e teimando em rasgar
a pele.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os versos da poeta Fabiana Grieco encontrarão eco na leitora atenta — e, por que não dizer, no leitor —, que é convidada a se ver pelo espelho. E olhar-se cuidadosamente é também enxergar o outro, num exercício de alteridade e contemplação que não diz respeito somente às aparências, afugentando qualquer traço narcisista, mas às essências das coisas vivenciadas cotidianamente por quem exerce a função de cuidar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Das crias,</p>
<p>o orgulho.</p>
<p>Da barriga,</p>
<p>a dúvida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O que</p>
<p>restou</p>
<p>de mim?</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>A dança silenciosa dos ausentes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Mar 2024 14:56:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[a sensação é de engolir inteiro

o fígado não aguenta

ficar <strong>remoendo</strong>

tanto tempo

não

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há muito tempo este livro me pedia para ser escrito. Essa coleção é a voz de todas as mães que foram silenciadas, ameaçadas e abusadas. Todas as palavras não ditas na hora necessária, por medo ou perplexidade, se encontram agora declaradas em nome de todos os filhos que perguntam com esperança: “mãe, meu pai mandou mensagem?”, e também em nome de todas as mães que sozinhas se matam cotidianamente, se anulam para educar e ainda são julgadas por isso. Pais ausentes não sabem em que ano o filho está na escola, não sabem dos remédios que causam alergia e nem onde está a certidão de nascimento. Não sabem a diferença entre gripe, bronquite e resfriado. Alguns ainda confundem estar presentes com presentear. Mas não sabem se a cria se machucou no futebol, perdeu a boneca ou quantos dentes ainda faltam cair. Não sabem o que sonham os filhos e quais traumas eles irão tratar. Essa cultura da ausência, muito legitimada pelo machismo de cada dia, nem sequer provoca alguma culpa, o importante é atacar quando a mãe começa a cobrar. Senhores, a misoginia não pode justificar a covardia. Que me desculpem os presentes, mas entre fazer um filho e ser pai há uma<strong> IMENSA</strong> solidão.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O breviário de um índio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Mar 2024 13:46:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[— Oi, tudo bem? Como é seu nome? — falei.

— Tudo bem, meu nome é Cláudia, você é o índio que vai entrar no seminário?

— Isso, sou eu mesmo.
<p style="text-align: justify;">A Cláudia era muito bonita, e dava gosto ficar olhando. Se eu fosse um poeta naquele momento, ia declamar uma poesia para ela. Um jeito de simplicidade, um sorriso que embeleza qualquer ambiente, e a presença dela fazia aquele lugar mais lindo. Por isso é que os poetas são felizes, porque sempre têm uma mulher linda para inspirá-los. Já pensou se não existissem pessoas assim? Talvez não teríamos poetas para declamar.</p>
— Nossa, já são mais de 22h00, já tinha que ter ido embora! Tchau, índio — disse ela com aquele sorriso lindo. Pena que quando estamos bem acompanhados as horas passam mais rápido, e a gente nem percebe. Mas valeu a pena conhecê-la, sabia que outro dia teria oportunidade de falar outra vez com a Cláudia.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">(&#8230;) Saí de lá correndo e fui contar para meu avô que ia viajar com o cacique.</p>
<p style="text-align: justify;">De manhã meu avô me chamou para fazer artesanato, fizemos muitos arcos e chocalhos, porque é mais fácil para vender, parece que é o que os jurua kuery (não índios) mais gostam. Quando vamos para a cidade em Guarulhos, voltamos sem nada, porque vendemos tudo. <span style="color: #ffffff;">olivio jekupe</span></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Sob sigilo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Feb 2024 12:55:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[buscando acolhimento em grupos
de mães acusadas como eu,
penso <em>sortuda</em>:
ao menos ele não come o cu de meu filho.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Entramos, como leitoras, neste livro, sem nenhuma indicação. Não temos no que nos apoiar, pois não conhecemos os contextos, a identidade das personagens, nada que nos assegure terreno real. A única pista é o título, e o próprio conteúdo do texto.</p>
<p style="text-align: justify;">Há algo, porém, que sabemos (e bem sabemos): há um corpo de mulher cravado em cada violência que estas frases “soltas” nos trazem, um corpo que não aguenta mais, e grita. E o desespero desse grito, esse conhecemos bem. Ele ressoa no nosso corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa mulher é uma mãe. Está desesperada. Já estivemos desesperadas muitas vezes, já tivemos medo. Já fomos invadidas pela fúria, porque a dor reverbera em nossas células mais escondidas.</p>
<p style="text-align: justify;">A dor de uma mãe desesperada é uma marca que ressoa em nossos corpos que menstruam e que guardam gargantas machucadas pelos inúmeros sigilos que nos foram impostos, desde a infância, desde o primeiro “Fecha a perninha!” que ouvimos, desde o primeiro “Baixa a calcinha!” que muitas, muitas de nós ouvimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto sofrimento pode ser guardado em um único corpo? Não sabemos. Sabemos que o sistema permite a manutenção de estruturas desonestas, escraviza corpos, vende lenitivos de todos os tipos, gera fome e desigualdade, impõe a violência sob as mais inúmeras formas. O sigilo que nós mesmas nos impomos, sobre tantos acontecimentos das nossas vidas, também pode ser pensado como uma forma dessas formas de violência.</p>
<p style="text-align: justify;">O que salta da leitura de uma obra como esta, também, é a reflexão sobre o próprio desenho de uma ideia de família “feliz” estruturada e calcada na idealização de um comportamento adequado da mulher. Afinal, não podemos perder a compostura.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda que o sangue que irriga os sete mares das violências seja o nosso (e <em>Quem dera o sangue fosse só o da menstruação</em>) algo nos é constantemente exigido: que fiquemos quietas, não importando a medida do nosso desespero.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Telma Schrerer</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Mergulhar na pele, desoxidar a língua</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/mergulhar-na-pele-desoxidar-a-lingua</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Nov 2023 19:20:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[a mulher abriga
ruídos da onça
a casca afina o
mistério
rasga a água
do mar
o peito luta]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Mergulhar na pele, desoxidar a língua</em> é entender a pele enquanto mistério maior da existência. É a celebração do verbo pelar, enquanto presenciamos uma dissecação detalhada das várias camadas dessa cobertura pelas mãos da autora de forma robusta e delicadamente num poro só! Essa pele-ritmo, pele-diário, pele-casa, pele-eu, pele-você, pele-nós, pele-confronto, pele-transformação, pele-fortaleza é uma viagem em que o mapa é a própria sensibilidade da escrita que nos é presenteada. O mergulho é real, os poros vão se abrindo de tal forma que até a superfície tem a sua profundidade e também transborda troca, enquanto se reinventa e se encontra. Este livro é para você que sabe que a pele fala e vai agora poder finalmente escutá-la. Aqui, o mapeamento vai acontecendo à medida que a bússola, que também é língua, se funde ao vasto reino dos poros.<br />
Essa é uma pele que respira e por isso vive na iminência de ser asfixiada. Aqui, pele e língua viram sinónimos no radar da violência que se desenha e tenta se afundar nela. Apesar de serem lidas como isco, são na verdade a fonte da resistência. Essa pele-língua é arco e flecha cheio de sabedoria ancestral, é encontro que segue enfrentando a violência, escancarando as cicatrizes, se desfazendo das crostas, evidenciando e desfazendo os enigmas e principalmente se pelando de novas possibilidades, novas linguagens, num mapeamento tão profundo que protege. Aqui, pelar, é existir na pele no seu todo. Afinal, é esse o maior órgão que temos. Tchibum! <strong> <span style="color: #ffffff;">Julia Peccini</span></strong></p>
<p><strong>Jorgette Dumby</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Reclamar a sacarina surpresa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Nov 2023 17:47:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Espero
que a data da minha
última menstruação
me seja bem
anunciada,
para
assegurar
a maior das
festas,
com o mais
elevado gáudio,
a mais estridente
gargalhada,
o mais
ostensivo
guarda-roupa
e o mais
animado
arpejo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Como naquele instante em que, ao vestir-me, senti que o meu corpo era o corpo da minha mãe; que eu era ela ou o contrário, não sei muito bem, e assim me tornei oficialmente adulta.</p>
<p style="text-align: justify;">Denise reconhece na bisavó as suas próprias pernas. Aquelas que seguram o peso do corpo, da família, da casa, do trabalho invisível e do trauma. Enquanto mulheres sabemos bem que verbos guardam para nós: suportar, servir, aguentar, ouvir, carregar, engolir, calar, cuidar, cuidar, cuidar, calar — variantes viciadas da subalternidade. O que herdamos das nossas mães e avós é mais carga simbólica que genética. Ressentimos no corpo as falhas da História e perdemo-nos na repetição. Mas o que temos de nosso afinal? Quem podemos nós ser no meio da confusão?</p>
<p style="text-align: justify;">Denise volta ao início. Observa-se. Descreve-se para se encontrar e, ao fazê-lo, propõe um novo atlas sensível da anatomia feminina, que é poema e manifesto — insurjam-se, moças, contra o ato de contrição. O direito à ira é vosso, assim como o desejo, o prazer e a alegria!</p>
<p style="text-align: justify;">O exercício que lhe serve de contorno estende-se a nós, neste pequeno poemário de palavras afiadas e exatas, em que o corpo se faz de matéria, mas também de política, memória, dor e festa, tempo, espaço, campo, revolução e voz, voz, voz…. que nos encharca de riso áspero e choro, espanto e admiração.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez as pernas ainda suportem o peso do passado, mas chegará o dia em que um grito das entranhas se lançará livre pela primeira vez.</p>
<p><strong>Mariana Camacho</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Yby kûatiara um livro de terra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Oct 2023 18:19:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[as raízes
que puxam nossos pés
de volta pra terra
foram plantadas
por nós
ontem

as que plantamos amanhã
sustentaram o céu dos de antes

a lição é desaprender tempo
e contar terra]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Para a gente-peixe que pisa e nada em muitos mundos, fazer poesia é ancestral.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu vou desobedecer a ciência moderna para falar de nós. Para mim, cada verso faz parte do que vivemos desde que nos encontramos em Brasília e descemos juntas para a Chapada dos Veadeiros. Foi ali que passamos a nos chamar de irmãs. Foi ali que soubemos a radical diferença entre o mundo branco, feito de lume, de luz; do nosso, de fogo, de espírito, de terra.</p>
<p style="text-align: justify;">É nessa certeza que sorrio, ou choro, ou tenho raiva e força. É aqui que a sinestesia dos meus sentidos se sente segura para ler e saber que não há ambiguidade colonial na polissemia das palavras. Nossas palavras são “ciência, arte e civilização ancestral”, como diz Pirá. E você vai poder senti-las e talvez até ficar com medo ou recuar, porque “Não queremos nada além de tudo de volta”.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez você recue com esses versos porque a colonização produziu essa diferença entre indígenas e não indígenas: de língua, de religião, de economia, de cosmologia, de política, de identidade. Mas eu sou devota (não sou cristã, sou makuxi, e isso significa que meus deuses são outros) de que tudo o que foi forjado dentro desse tempo de 523 anos (e contando) pode ser contestado, se acaso alguém realmente quiser.</p>
<p style="text-align: justify;">E há muito o que podemos fazer coletivamente, uma trilha dada aqui pela poesia é a luta contra o garimpo, contra o folclore, contra a língua e a mentalidade portuguesa que ainda se pensa soberana.</p>
<p style="text-align: justify;">Um corpo wassu-cocal atravessa o Atlântico, e volta. Mais certa, mais ancestral, mais forte, curando toda contradição com ritual.</p>
<p style="text-align: justify;">Então estamos aqui, na nossa terra ancestral, às vezes nadando juntas, pisando em terras inimigas que nosso dna lembra, mas estamos juntas, e eu quero seguir assim, no caminho e nas águas dessa poesia cocal.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a gente-peixe que pisa e nada em muitos mundos, fazer poesia é ancestral.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Trudruá Dorrico</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Tansformações cíclicas para colher e descamar</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/tansformacoes-ciclicas-para-colher-e-descamar</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Oct 2023 14:30:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Me preparando
Para quando a primavera chegar

Não há como me antecipar
E nem pular etapas

A sensação é quem guia
Junto à lei natural das coisas
O momento exato

Do desabrochar]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Transformações cíclicas para colher e descamar</em> é um livro feito por mulheres que amam. Mas não se engane ao buscar nestas páginas o amor romântico, idealizado. Aqui, os poemas dialogam com relações amorosas reais, evidenciando sua natureza ambivalente. A metáfora do ciclo é completa no sentido de não ocultar o sangramento ao qual a mulher é submetida, seja ele físico ou emocional.</p>
<p style="text-align: justify;">O eu lírico de Leila atravessa sua própria pele para expor a dor da violência verbal, munindo-se de palavras para organizar as raivas provindas do abuso e, em ato contínuo, cria musculatura firme o suficiente para impor limites a quem lhe fere. Afinal, “não” é uma sentença inteira. E como é poético chegar ao não.</p>
<p style="text-align: justify;">Os poemas de Fernanda surgem para descamar e liberar o sangue do ventre. São palavras musicais e sintéticas, em que a dor — ainda latente — mescla-se continuamente às possibilidades de cura. Querida ferida, tu és para ser curada — dirá o eu lírico na busca do encontro consigo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Transformações</em> é o livro de estreia dessas duas poetas, um ótimo caminho para reconhecer-se na humanidade do ser mulher. Ou melhor, ser mulher galáctica: aquela que deixa de ser vira-lata, como o perdão da poesia, para abocanhar toda a sua grandiosidade.</p>
<p><strong>Patrícia Lima </strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>O discurso do buquê</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Sep 2023 17:26:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ele a puxou de volta para dentro de casa e deu-lhe uma tarefa para o dia seguinte. Aquilo era um pedido de silêncio e um acordo de que estaria viva amanhã.</p>
Aceitei.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No manejo das plantações, lavra-se a terra para que as camadas troquem de lugar enquanto as coisas do fundo vêm à tona. Assim, o ar entra.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, uma mulher conversa com o próprio passado enquanto alinhava o que está por vir. Ao descobri-la, sabemos também que, se há cenas impossíveis de apagar, não há o que não se possa cavar no fundo das relvas, das pedras, das pernas, das sentenças. Não há o que não se possa criar.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O discurso do buquê</em> é feito de poesia em prosa, da umidade das florestas e das mulheres — e sua capacidade inalienável de parir a si mesmas. Assim, de mãos dadas com a mulher que atravessa o poema, é possível trocar de pele, tocar na sede retida nos dentes, na confusão do corpo com a casa, no desejo de calçar os chinelos — já não “<em>por força do hábito. Mas por força do amor</em>”.</p>
<p style="text-align: justify;">Como acontece nas fendas por onde o ar entra no solo, é o viço da poesia que recupera a palavra. Alguma coisa, talvez, parecida “<em>como um abacate. Que misteriosamente amadurece no meio da noite. E vai ser comido quando raiar o dia</em>”. Sobretudo, com o “<em>extraordinário gosto do fim</em>”: a floresta quente na língua, a mão encharcada de vida, o som alto da risada tornando à boca. A poesia deste livro é o que nasce, fértil, depois da terra revirada.</p>
<p><strong>Camila Costa Silva</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Extra/vazante</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/extra-vazante</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Sep 2023 16:51:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A lasca perdida nos trânsitos da vida;

a quentura que envolve as mãos lanhadas repletas de histórias;

a dureza nos olhos de quem já viu muito. Ouviu ainda mais e pouco falou. Porque pouco viveu a vida que poderia

ter sido.

A redenção e — de novo — a quentura espalhada pela fumaça, mãos, olhos e palavras.

Voz trêmula, desacostumada.

Pigarro que prenuncia a permanência futura do alívio.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O livro em suas mãos é a certidão de nascimento da Coletiva Lã Terna. A Coletiva formou-se através de trocas literárias e vivências partilhadas pelas poetas Orquídea Fernanda, Joseane Maria, Monique Brito, Jacqueline Ferraz, Giselle Veiga, Carol Àdúnlabí e Ana Ladeira, que se conheceram ao longo do curso de formação de escritoras Feminismos Plurais, oferecido pelo Sesc Niterói, em 2022, no qual fui professora junto a Tatiana Pequeno, Monique Malcher e Amara Moira. Nascida do encontro, da prática de escrever em grupo, das transformações possibilitadas pelo escrever, entoar, ouvir, colaborar e performar, a Coletiva se inventa através de experimentações e exercícios de estar na pele da outra. Como o monstro de pedra, um dos habitantes deste livro, que descasca sua pele para sentir o frescor do vento. Para além da solidão, a escrita aqui é comunitária, modo de estabelecer elos, praticada na dinâmica da convivência e dos jogos de escrita com regras e restrições. Vamos percebendo os jogos e os elos ao longo da leitura dos poemas. Na trilha dos trocadilhos, <em>Extra/Vazante</em> apresenta uma voz autoral múltipla, tal qual um acorde dissonante em que soam juntas as vozes de cada poeta e seus estilos particulares. A coletiva é pluritonal. A imagem da ternura da lã (que remete a um feminino acolhedor, doce e maternal) nos dá uma rasteira logo nos primeiros poemas: “o sangue nunca foi suficiente/para me conectar a ninguém”, “minha gargalhada é a faca/que corta a tua garganta”. É através deste bote que se movem, para além das bordas do previsto para mulheres, as vozes de vazante. “ora, é feminina/embora também abrigue/meninos trans/uns e outros/que dizem sonhar um dia ser/ mãe”. As vozes aqui excedem a normatividade do feminino, criando literatura sem um teto todo seu. São poemas de quem escreve na marra, no ódio, apesar de. E é daí — da umidade do Saara e de insubmissos umbus — que tem surgido o que há de mais fértil na literatura brasileira.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Heleine Fernandes</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Ombrófilas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Aug 2023 21:49:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[abro as pernas e
começo a cortar

são meus pelos que
coloco nesse envelope

enquanto te imagino
descobrindo:

— o poema é um acontecimento.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quem dera o sangue é, com certeza, um mote forte o bastante para engendrar escritas diversas sobre um único tecido: o corpo ancestral feminino, esse a quem por tanto tempo quiseram calcar anseios alheios, diversos e contrários aos seus próprios desejos e desígnios. E não há território mais profícuo à resistência e à apropriação das próprias rédeas que a poesia.</p>
<p style="text-align: justify;">                <em>Ombrófilas</em> surge, portanto, também como corpo, aquele que, por abrigar regimes pluviais constantes, cria uma tessitura poética orgânica para fazer ressoar vozes incrustadas nas saliências da serra fluminense e que, aqui, ganham a vazão dos rios. Essa amizade com as chuvas, que a origem etimológica do termo sugere, tem para as mulheres daqui um significado profundo como as águas que gestam a vida no planeta e que, por vezes, arrasam em fúria a estrutura das nossas cidades.</p>
<p style="text-align: justify;">                Este livro reúne dez poetas que, depois das tempestades, semeiam florestas de significados. Esperamos que nossas vozes encontrem ressonância para além das montanhas.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Paisagens insulínicas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/paisagens-insulinicas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Aug 2023 13:43:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[sonsa

eu tentei lamber minha palavra
rasguei a minha língua

eu não sou polida
não sou palatável

eu sou a mulher
impossível]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Neste livro de poemas, a Gabriella nos convida a um mergulho profundo em sua intimidade, que, em muitos momentos, nos leva a lugares do nosso próprio íntimo. O olhar feminino sobre o sentir, sobre o relacionar-se, ora com os Outros, ora com nós mesmas, nos coloca juntas, em sororidade. Não estamos sozinhas em nossas angústias, descobertas e alegrias, e é pelo viver, pelo transitar com o nosso corpo, livre, pelo mundo, que podemos, enfim, encontrar as plenitudes do nosso ser.<br />
Ao aceitar esse convite, permita-se desagregar-se, permita-se voar de dentro para fora, permita-se parir a si mesma.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Juliana Léa</strong></p>
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		<title>Antologia Bidê</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Aug 2023 13:20:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[quando uma mulher volta da guerra ela
impõe os pés
no barro
sem unhas
e os olhos
vesgos
lesos
carcomidos em vermes ela
pendura
na sala de estar]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>um bidê e nove .</p>
<p>mulheres que respeitam as entranhas,</p>
<p>o avesso. mulheres que escrevem o íntimo</p>
<p>e criam recomeços.</p>
<p>mulheres que sabem do prazer e do gozo</p>
<p>e sabem quando não é prazer e não é gozo.</p>
<p>mulheres-memórias. experiência no corpo.</p>
<p>poesia de corpo, labirinto.</p>
<p>mulheres.poetas:</p>
<p>aline tóia dheyne samara priscila débora valeska juliana ingrid.</p>
<p>mulheres que carregam molotovs no peito,</p>
<p>que sabem ser sexualidade, sabem sair de cena,</p>
<p>sabem mãe e maternidade.</p>
<p>mulheres que sabem: amar me deixa suja.</p>
<p>sabem da depressão e queimam projeções</p>
<p>que não são suas.</p>
<p>mulheres que nascem, falam, leem, escrevem</p>
<p>e sabem que tudo isso é uma vitória.</p>
<p>sabem da guerra implícita imposta às suas existências.</p>
<p>mulheres unidas na solidão de histórias sem paz</p>
<p>e às vezes sem pais. mulheres que</p>
<p>puxam da garganta sons banidos.</p>
<p>mulheres que identificam mitos, dama se faz</p>
<p>de espinhos; e revelam crônicas da vida crônica.</p>
<p>mulheres diante da culpa injusta. e afirmam:</p>
<p>que a mulher ama o amor</p>
<p>é um segredo restrito às salas com divã.</p>
<p>mulheres que reverenciam quem veio antes,</p>
<p>que sabem que o amor às vezes é preciso ter peso</p>
<p>é preciso da realidade do sentido</p>
<p>que tenha corpo pra ver, que tenha corpo</p>
<p>pra tocar, que tenha corpo que cheire,</p>
<p>que tenha corpo que faça barulho.</p>
<p>mulheres que sabem da beleza da idade</p>
<p>impressa na pele, que fazem questão de</p>
<p>lembrar do que sustenta toda carne.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>mulheres-bagre.</p>
<p>mulheres que —</p>
<p>como definir estas mulheres?</p>
<p>esse corpo</p>
<p>que deixa</p>
<p>marcar mais em si</p>
<p>do que no outro</p>
<p>mulheres que escrevem</p>
<p>com as pontas do coração</p>
<p>(…)</p>
<p>e adormecem nas frases cegas da noite.</p>
<p>mulheres que me lembram wislawas, anas cristinas, conceições.</p>
<p>mulheres que me fazem lembrar.</p>
<p>mulheres: escrever para não esquecer.</p>
<p>são mais perigosas as que sentem prazer.</p>
<p>eu quero uma casa com bidê.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Anna Zêpa</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Bajubás poéticas da Travesti Quilombola</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/bajubas-poeticas-da-travesti-quilombola</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Jul 2023 15:16:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Transvestir o mundo é necessário
Transformar a educação é um caminho
Transvestilizar a sociedade cheia de espinhos
Transparecer que existimos e sentimos
Transgredir as normas do CIStema
Transpassar novos caminhos encruzas
Transvestir novos imaginários sentidos
Transformar as narrativas duras
Transportar saberes trans
Transvestidos os céus de cor]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Por aqui cada palavra é um rito, verbo vivo, palavra que subverte, TRANSpõe significados e significâncias. A autora nos convida para ler de corpa inteira, revirar concepções, reexistir, reinventar, reencantar. Djankaw apresenta em suas poéticas um chamado, um convite, uma provoc&#8217;ação: encruzilhar a si! Ler com o corpo inteiro significa também escutar com o corpo inteiro, imaginar, consciensentir&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">A cada poema somos lançades de forma rítmica e subversiva a TRANSperceber o que a autora nos convoca a ouvir. Ler e escutar as poéticas aqui presentes é como um intenso passeio por gramaturas distintas, é um exercício sensível que nos chama a revisitar nossas memórias junto às águas, às folhas, às montanhas, ao fogo — é um aquilombamento poético, cada poema é um território.</p>
<p style="text-align: justify;">Com profundas indagações [re]existenciais, a leitura nos leva a buscar por novas referências de significados, de linguagens, de uso das palavras, das imagens e paisagens. Somente uma corpa-encruzilhada poderia nos projetar para diferentes gramaturas subjetivas e temporais. Em vários poemas somos convidades a espiralarmos no tempo, na ancestralidade, nas faunas e floras dimensionais que Djankaw nos traz. Laroyê Exú Mulher!</p>
<p style="text-align: justify;">As escrevivências estão vivas e cheias de vida! Ao ler as próximas páginas deste livro, se permita aquilombar-se, prestar atenção ao bajubá, aos convites, orações e chamamentos que nos são apresentados. A obra <em>Bajubás Poéticas da Travesti Quilombola</em> é também um manifesto poético, existencial, místico-cultural. São poemas de reconstrução de um mundo-casa, de um mundo-colo, em que é possível existir e re-existir, criar e desejar&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Ao seguir para a leitura, esteja preparade para escutar palavras com sons de chuva, vento, tambores e, ainda, sentir cheiros e sabores, visitar lugares, territórios, questionar e projetar a si nos vários locais para onde a autora nos convida a ir. Esta é uma obra poética de reencantamento e de reexistência, é uma obra de referência decolonial sobre escrita, vivência e criação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Jojo Souza Santos</strong>, mulher cis barbada, artista independente e pesquisadora no campo de arte e cultura.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Barbatana</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Jul 2023 13:35:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Me pego pensando sobre quanto tempo tenho
que andar para algum lugar que, mesmo sem
antes entender, a porta está lá aberta, receando
o passo em falso, as viagens não planejadas,
das noites esperando o bacurau.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O título que Lucas Malkut dá ao seu livro de estreia guarda uma provocação inicial: o que a parte de um corpo pode falar sobre o corpo? E o que não está nele que também o anuncia? Em <em>Barbatana</em>, este jogo de presença-ausência parece desenhar as linhas com que o autor registra aquilo que fica de quem se dispõe a seguir com o movimento do mergulho.</p>
<p style="text-align: justify;">Dividido em quatro partes e intercalado por fotografias, alguns dos poemas possuem certa fisionomia de carta, introduzindo ao leitor a presença (ausência) de um “outro”, um “você” ou uma multidão a ser alcançada. Mas é no fugidio que reside a implicação literária aqui perseguida, como se para Malkut fosse uma sina capturar (com o corpo) o que é de natureza incapturável — ou ainda como se, “lambendo tudo que há contradição”, desejasse tal condição. E este é o acordo: “quero me misturar até ao que nunca vi”. É assim que a voz em <em>Barbatana</em>, que ora assume o nome do próprio autor, atira, para destinatários incertos, senhas e imagens que ficam à deriva por um certo tempo. E nesse quase-epistolar não há como saber se estamos diante da memória ou de conjurações. “Chance-fantasia”, nos fisga o autor em um dado momento. E não é assim que conspiramos?</p>
<p style="text-align: justify;">No contato com o ambiente ao redor, um exterior estimulante/fulminante, o corpo acontece. “Na rua você é tão radiante/mas em casa se cobre todo, emudecesse”, pode ser um lamento permitido, mas para Malkut tanto o dentro quanto o fora dão em águas. Em <em>Barbatana</em>, o mar se metamorfoseia, assim como lhe é próprio, e pode ser lido como sendo a cama, o desconhecido, a lente ou o próprio corpo: “somos quase idênticas (eu e a água)”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não é necessariamente um tema. Está mais para uma via de acesso com muitas direções, cuja função é a de criar o compromisso literário em nome de um arcabouço semântico prioritariamente encarnado, essencialmente erótico. Como quem diz: quem escreve deve ser o corpo em movimento, “desviado e libidinoso”, que se propõe, sem receio, a ser incompreensível, que “recolhe o todo por onde passa”, mesmo que deixem “rastros emaranhados sobre a imagem”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Jjoão Paes</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Terra dos homens</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/terra-dos-homens</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Jul 2023 13:13:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[As ancas bem-desenhadas,
a pelagem macia, carnes fartas,
a boniteza de um príncipe encantado
que achei num sertão bem afastado
num Dia de Reis,
como eu homem nascido,
como eu seu tudo me dado.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>O que será o homem?</em> é a indagação que serve de guia a <em>Terra dos homens</em>, livro de estreia do multiartista, pesquisador e sociólogo Vítor Medeiros.</p>
<p style="text-align: justify;">Os poemas exploram uma outra masculinidade. Na terra habitada pelos homens do livro, a delicadeza do gesto e a força do desejo se contrapõem à violência orgulhosa e viciante dos homens que fazem a guerra e destroem a Terra.</p>
<p style="text-align: justify;">É prazeroso encontrar nesta leitura o apogeu do encontro entre dois homens. O amor não sucumbe diante das frustrações, culpas e violências que marcam a vida das pessoas transviadas. E nisso está um acerto na costura dos poemas. A escolha do autor prima por realizar um ato de afirmação da liberdade de amar. Trata-se de restituir a verdade das experiências homoafetivas: a beleza também existe no regozijo de dois homens amantes.</p>
<p style="text-align: justify;">A exploração dessas experiências é dotada de uma forte carga homoerótica, cuja potência é amplificada pela construção de alegorias fincadas na <em>natureza</em>, no <em>mundo rural</em> e na <em>religiosidade</em>. Dos universos que marcaram sua experiência no mundo — a roça, o campo e a igreja —, Vítor extrai com habilidade, erudição e ousadia os elementos líricos mais potentes da tradução de suas experiências eróticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Com profundo conhecimento da tradição judaico-cristã, Vítor recorre ao imaginário religioso para reestabelecer o que há de mais sagrado: a realização do amor, a comunhão entre os seres, e a partilha de um sentido comum de vida que lhes confere a existência. E onde haveria culpa, há deleite. Onde haveria heresia, há cumplicidade. Em tempos como o de hoje, nos quais a imagem de Deus é vulgarizada por comerciantes da fé, políticos mercenários e homens de bens, a operação realizada nos poemas ecoa como um verdadeiro ato de subversão.</p>
<p style="text-align: justify;">A afirmação da liberdade se desdobra em ato de rememoração na parte final do livro. Revisitando personagens mitológicos, bíblicos e da literatura, Vítor nos faz lembrar da antiguidade dos amores homoafetivos. Estão lá: a lealdade entre Pátroclo e Aquiles, o beijo de Davi e Jônatas, a conquista de Heféstion por Alexandre, o medo de David por Giovanni, o amor-amigo de Riobaldo e Diadorim. Esse exame das origens se encerra com a revisitação das memórias pessoais da infância, da relação familiar e da vida doméstica.</p>
<p style="text-align: justify;">A leitura do livro nos convida à coragem de <em>erguer os olhos</em> e fazer do prazer uma prece. Ao leitor atento será difícil resistir à tentação de, finalmente, <em>abraçar o pecado com amor</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Lucas Gariani</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Faz a curva, paixão!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Jul 2023 14:22:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[subi em cima do meu nome
e decretei
sou eu]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O nome deste livro poderia ter sido “conjunto de manobras”. Ou um dos outros cinquenta que Ravel pensou e não colocou. Brinquei que elu podia ter feito um livro chamado “livro de nomes de livros”. No final, <em>faz a curva, paixão</em>, porque acho que o que importa pra Ravel e o que se vê nestes escritos é a coisa mesma do movimento. Assim, este livro nos conta sobre criarmos nossos próprios nomes, tomarmos nossos próprios desvios e escolhermos provisoriamente uma ou mais palavras de uma lista de cinquenta que pode sempre se expandir.</p>
<p style="text-align: justify;">Percorrendo a trilha destes poemas, que começam na “pré-história da tesourinha” (“carolina”), nos lembramos nostálgiques de nossas vidas cheias de pequenos prazeres, artimanhas, jogos, verdades e desafios, beijos dentro de armários mas também na frente de professoras (“as professoras ficavam em pânico”), porque sim, é preciso ter um tanto de coragem pra viver essa alegria. Dessa forma, estes escritos perpassam uma vida queer de um corpo que não se interessa em seguir uma linha reta, um caminho dado, mas sim fazer curvas, mudar trajetos, desviar, falhar, retomar, desistir de novo, quantas vezes for necessário. E então, como boas crianças queers que somos, ignoramos a linearidade da normatividade que divide a vida em fases pré-determinadas, porque não nos interessa deixar de todo pra trás o que fomos (e por isso não pisamos em nossos nomes, mas saltamos sobre eles), porque continuamos brincando, inventando, sustentando o “desejo óbvio de ter duas genitais” (“ônibus da volta”), driblando a normatividade e subindo em cima de nossos novos nomes com uma firmeza cambaleante (“ravel”), porque também não nos interessam as coisas fixas demais.</p>
<p style="text-align: justify;">Nós, trans não-bináries, ou, como diz Ravel, “povo das nuances”, que seguimos com alegria radical criando ficções e fricções no sistema, nos encontramos nas palavras de Ravel, que nos leva para dançarmos juntes com seus poemas entre agarrações em congressos estudantis, beijos triplos, paixões caseiras, motins e marchas feministas, nos espaços dos bares e das ruas, na micropolítica dos becos e das rachas. Como em “as crianças com outras ferramentas” (“ali cada criança tinha uma ferramenta/esquisita para qualquer normal”), proclamamos: queremos nos comunicar de forma torta, construir outras linguagens feitas a gritos agudos e com baba escorrendo no canto da boca.</p>
<p style="text-align: justify;">Nasce assim este livro, e nasce também Ravel, forte e bele como um cavalo novo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Flecha (machorra edições)</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Ainda hoje quando chove</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Jun 2023 16:30:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[traduzir gente é difícil, que nem contar as gotas do mar.
quem me dera parar de sangrar e poder ficar só observando as gentes e seus saberes. as gentes e seus teceres. mas
eu não sei parar de sangrar.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Desde o primeiro livro de Diana Castilho, acompanhamos o surgimento de uma voz polifônica. Por um lado atrevida, irônica, desbocada, política e, simultaneamente, introspectiva e poética, dedicada a desvendar os labirintos da existência. Se a sexualidade e o desejo feminino foram a matéria-prima de <em>Lubrificada</em>, lançado em 2021, um ano depois, ao publicar <em>Há Solidões</em>, a inspiração foram as múltiplas formas como a solidão nos atravessa e não necessariamente de forma negativa. Já neste novo livro percebemos outras modulações. A memória, a família e a infância ganham destaque. Em <em>Aind</em>a<em> hoje quando chove </em>—<em> memórias da carne,</em> Diana Castilho aproxima-se da prosa, sem abandonar a poesia, para construir uma espécie de autobiografia poética não linear, que mistura passado e presente, mas sem abandonar a projeção de futuros. Os poemas são breves instantâneos (flashes, cenas, memórias entrecortadas) que articulam concisão e força para montar uma imagem, sempre em devir, da identidade múltipla da poeta: mulher, mãe, filha, feminista, artista, anarquista. Os grandes acontecimentos da adolescência estão presentes: o primeiro beijo, a primeira transa, a angustiante escolha entre crescer e não crescer, a percepção de que os pais também falham, os abusos. O luto, como consequência de todas essas perdas, que, embora funcione como espécie de linha transparente a alinhavar os poemas, não confere um tom melancólico ao livro. Muito pelo contrário. O que descobrimos, ao ler a poesia de Diana Castilho, é que ela transforma a própria vida em matéria de invenção afirmativa e potente. Tornar-se mulher é um processo difícil, lento, cheio de encruzilhadas e de dores. Ao ter coragem de contar sua história, e assim reinventá-la por meio da escrita, Diana Castilho nos inspira a pensar e reescrever nossos próprios percursos e devires.</p>
<p><strong>Flávia Péret</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Camboa (poesia e outros mistérios)</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/camboa-poesia-e-outros-misterios</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Jun 2023 14:06:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[chega que nem brisa sazonal
tu chega aos meus pensamentos
e me toma a alegria
em uma estranha
inteireza

e me possui o desejo
pleno
anônimo
cru
feito tudo o que vive
e está]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Se a Anum, a escritora-mediadora deste livro, continuar se fazendo viva em suas criações, portanto permanecendo rebelde a este mundo por atender ao fluxo de sua própria existência dissidente, conseguiremos acessar, através das suas escritas, aquilo que pouco adianta conhecer para ter apenas conhecimento, pois é sábia, é velha, é criança e está de mudança.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, neste livro, a Anum criança tenta subir em cima do cajueiro com o salto alto da irmã para comer um caju, mas ao mesmo tempo, numa queda onírica, sem a pretensão de atender ao tempo linear dos homens, está como uma maricona em seu robe de cetim tomando um licor de caju, ao redor de várias gatas.</p>
<p style="text-align: justify;">O seu escrito se conecta com uma rede de bixas, de transviadas, de travestis, de hijras, de muxes, two spirits e de qualquer outra população ao redor do mundo que diz não à norma de gênero e sexualidade pairante nos corpos e no ar.</p>
<p style="text-align: justify;">Não vamos supor que essas duas categorias — gênero e sexualidade — sejam limitadas a passar um batom vermelho, enquanto enfia alguns dedos no próprio rabo, apesar desses dois gestos serem revolucionários para nós; elas são disparadoras para tatear outros mundos e temporalidades, um deslocamento existencial que, por si só, é arriscado em um mundo que quer acabar com aqueles e aquelas que arriscam e riscam uma possibilidade de existir feliz distante do centro. E é neste não-lugar, para os artistas, que nasce um tipo de arte que se encontra aqui: algo meio arqueológico, tateante e escuro, provocando antes de qualquer razão os sentidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Prazeres, ouvidos, olhos, bocas, ânus, linguagem, cabelos, lágrimas, risos, para além de as palavras criarem sentidos, elas fazem corpo, e é um corpo em vertigem, numa desarmonia ímpar que, por incrível que pareça, diante de tantas violências, evoca paisagens belas e imagens prazerosas. Se você não consegue se aliar com o resto da humanidade, se alie ao mar, à pedra que lhe chama o olho, ao amontoado de cristais que chamamos de areia, ao rio, às estrelas.</p>
<p><strong>Jupyra Carvalho</strong></p>
<p>Travesti, filha de pais analfabetos, artista e produtora</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>A lua fantasma</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/a-lua-fantasma</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Jun 2023 13:00:03 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em algum tempo no passado, se eu tivesse morrido, meu irmão teria escondido meu corpo, não iria me salvar, mas fazer parecer acidente. Era isso mesmo que ele pensava?
Uma hélice girando muito forte, zunindo, a força centrípeta atirando pedriscos, terra, grama em um terreno que se corta muito rente. Ele só consegue se lembrar de algo esquecido, guardado a sete palmos de matéria orgânica recalcada e que retorna, como um sonho ruim, de arqueólogo.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A primeira vez que vi Marcio Markendorf foi no início dos anos 2000, começando a faculdade&#8230; Era uma criatura rara, linda, enigmática, sobretudo apaixonante. Reencontro-me com ele, mais precisamente com seu verbo-afeto, duas décadas depois, unindo as duas pontas de nossas vidas literárias. E, neste lado de cá do tempo, seu livro de contos <em>A lua fantasma</em>, um hino de oblação a Caio F., demonstra exímio trabalho com as palavras, labor que em cada uma das narrativas deixa impressos os engendramentos operacionais dos afetos, melhor, dos afetos-outros, aqueles considerados socialmente <em>inadequados</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses afetos geram sujeitos <em>inconvenientes</em>. E para tratar deles o autor lança (ou dá a) mão para outros, <em>i.e.</em>, por debaixo da terra das palavras deste conjunto de textos, é possível vislumbrar, além de Caio F., Kafka, Raduan, textos sagrados judaico-cristãos, tragédia grega, muitos filmes, elementos onírico-insólitos e, claro, a vida acontecendo.</p>
<p style="text-align: justify;">Marcio, com erudição — não aquela que afugenta o leitor, mas pelo pacto que mantém com a palavra —, trata do ordinário cotidiano: a iniciação do amor adolescente se inclinando a um corpo-outro-igual, como se observa em “O dia em que vi o cometa Halley passar”, “Lá, na cidade pecuária”. Ou ainda, as relações efêmeras entre homens (“Cicatrizes” e “Animais noturnos”); homens que amam garotos (“O pinguim”); amores gays (im)possíveis (“A lua fantasma”). Em linhas gerais, pergunta: <em>pode doer o amor?</em></p>
<p style="text-align: justify;">Em cada conto, o leitor não passa incólume aos eventos e às personagens, mas torna-se cúmplice de cada uma delas, seja por identificação ou sentimento de outridade; é convidado a penetrar o mundo das palavras e ver o outro, a dor do outro — o verbo-dor —, e, nesse gesto, ver a si mesmo nos solavancos da vida, nos caminhos sinuosos, nas tentativas de (auto)afetos, nas tragédias às quais todos estão submetidos; daí que o autor, num claro intento de não ferir mais ninguém, não manchar mais nossos olhos com mágoas e desafetos, tece, como as abelhas o fazem, um verbo doce e delicado, sem, contudo, nos sonegar a <em>verdade</em> do mundo. Em outras palavras, é a delicadeza inscrita no horror.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A lua fantasma</em> perpetrado pela voz poético-narratológica de Marcio Markendorf, talvez, esteja indicando uma saída, uma fresta, outro caminho na contramão da hegemonia&#8230; Para descobrirmos outras vivências sociais — a educação pelos afetos — e, assim, escaparmos de caçadores sanguinários e vivermos como os leões: em comunidade.</p>
<p><strong><em>Flávio Adriano Nantes</em></strong></p>
<p><em>verão de 2023</em></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Se agarrar ao amor que de sol a pino é sombra</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/se-agarrar-ao-amor-que-de-sol-a-pino-e-sombra</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 May 2023 14:57:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[você se apoia em algo efêmero
como bolhas de sabão
e corpos sensuais de caras que andam
sem camisa na rua
malabarismos
o sinal
e eu atravessando entre
eles]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ainda que substancialmente diferente de <em>s-u-t-u-r-a </em>(2020), sua estréia como autor publicado, Gabriel Mação nos entrega mais uma tentativa de experimentar a poesia sob outras métricas. De forma mais contida do que em seu antecessor, os treze poemas que compõem <em>Se agarrar ao amor que de sol a pino é sombra </em>nos lembra que um livro de poesia também é um exercício de reinvenção: de si, de imensas histórias concentradas em versos curtos e de tudo o que parece pretender-se sólido e imutável, como o amor e o medo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas páginas deste livro, como “gaivota parada / no poste da ponte” ou mariposa “estática em sua leveza”, observamos uma história de amor e medo acontecer sob o sol fluminense. A história que Gabriel hoje nos apresenta é sim sobre a sutileza da linha imaginária que existe entre os dois sentimentos, mas, ao narrar sobre o amor, o autor nos aponta um caminho onde é possível “escolher dançar lá fora” entre “[rosas, deuses, serpentes, anjos e medusas]”, vencendo o “medo do que há lá fora no espaço-tempo.”</p>
<p style="text-align: justify;">Munido de coragem e sem medo dos clichês, Gabriel parece querer nos convencer de que escrever sobre o amor é “sentir o cheiro da pólvora / arriscar”, propondo um tipo chamado ao destinatário de seus encantos e a quem escolheu acompanhar o breve recorte dessa história – que não se sabe quando começou e quando, ou se, acabará. Aqui, sua escrita pede nossa atenção para aqueles eventos em que uma fagulha é o suficiente para nos colocar sob o risco de nossos próprios desejos.</p>
<p style="text-align: justify;">As treze cenas apresentadas neste livro contam com ritmo próprio e flertam com a forma de aforismos, trazendo algum tipo de moral sobre quando se escolhe reinventar a linguagem do amor para pintar novos quadros ou fotografar o que ficou de fora dos álbuns de família, por exemplo. Como “um quadro de museu / preservando a memória / que não quer ser guardada”, mas que existe e que é capaz de mudar sua forma a cada vez que for lembrada.</p>
<p><strong>rafael amorim</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Todo dia é assim</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 May 2023 14:27:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[quando me pegou
no fundo do quintal
beijando na boca
o filho da vizinha
mãe ficou estática
mãe não brigou
mãe não falou nada.
naquele dia
foi a chibata quem teve
conversa séria comigo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">É como se este livro nos tornasse ainda mais conscientes sobre a existência de uma grande alma <em>cuíer</em> compartilhada, na qual a impossibilidade de ser e a dor repercutem de forma igualitária. Foi o entendimento que tive, de maneira quase intuitiva, assim que tive contato com esta primeira compilação de poesia escrita por Aramyz.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Todo dia é assim</em> é uma obra sobre todas as portas que encontramos fechadas, antes e depois de sairmos do armário. Sobre aquela zona sustentada pelo desconforto e preenchida por todos os nãos que se encontram à nossa espreita.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cruzes nas paredes, cruzes aos pés, coração sangrante. </em></p>
<p style="text-align: justify;">Definitivamente, não há término para a empreitada aqui iniciada. De poema em poema, avançamos em um caminhar circular, episódico, constante, espasmódico. Do qual não há escapatória. Assim como o são os recortes da vida e da morte pelo autor retratados, aos quais reconhecemos e nos quais identificamos notícias já lidas, vozes ouvidas, rostos, situações: memórias — individuais, coletivas.</p>
<p style="text-align: justify;">Aramyz criou aqui seu compêndio de palavras-lâmina, forjadas com precisão nas chamas de uma centena de fogueiras da atualidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Palavras-faca. Palavras-flecha. Palavras-murro, palavras-escarro. </em></p>
<p style="text-align: justify;">O chão surge como único e provável horizonte para vidas e corpos indesejados. Corpos dissidentes. Corpos de viados. As tais bixas. As tidas como loucas. As invertidas. As travestis. Até mesmo as inclassificáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas páginas de <em>Todo dia é assim</em>, Aramyz, que inaugurou uma notável trajetória literária, confirma o quanto sua poesia se mostra como um corpo receptivo/combativo, fundamental para a perpetuação de palavras que são alma e território, encantamento e consumação, apesar do mundo, apesar de tudo.</p>
<p><strong>Cristina Judar </strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Era pedra e se quebrou</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 May 2023 13:44:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[a agonia seca
de aceitar ser
casca de ovo
vazia
comprimida para ser
pisada
pelos dois segundos
do estalo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Era pedra e se quebrou</em> é um encontro de imagens fortes para mulheres, sobretudo para aquelas que, como meninas aprendendo a experienciar o mundo, descobrem que estão além do compreensível e aceitável. Mulheres cujo corpo fala alto, mulheres de afetos perigosos. Vistas e marcadas como matéria inadequada, mulheres que muito cedo aprendem a dor da constante defesa, do constante ataque.</p>
<p style="text-align: justify;">Leilane Leta faz do poema a história de tantas que escorregam pelas bordas, com a voz firme de quem não vacila diante do incômodo, fazendo do ritmo da poesia a rota de escape e encontro com mulheres que também buscam a força da palavra.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Era pedra e se quebrou</em> é uma oportunidade de mergulhar na poética assertiva da autora, uma vivência literária enriquecedora que balança a inércia do pensamento fácil. Leilane Leta versa o difícil, mas decifrável: a realidade de ser mulher com um corpo que argumenta e uma sexualidade que ocupa espaço.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é um livro para todas aquelas que também sustentam o verbo e nomeiam os afetos entre mulheres, os movimentos corpóreos, a mais fundamental sede de existência plena. Um livro que cria mundos pelos poemas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“linhas vermelhas escorrem,</p>
<p>delineiam a menina,</p>
<p>que carrega nas mãos</p>
<p>um amontoado de carcaças</p>
<p>ocas”</p>
<p><strong>Jarid Arrais</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>8 minutos luz</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 May 2023 13:05:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[abaixo da clavícula
perto do mamilo
esquerdo
duas palavras

abra aqui]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Escrita frenética, quase automática. Pontuada. Quebrada. Mergulhada em humor ácido como a bile que processa e destrói. Fragmentada como curtos pensamentos angustiados. Sonhos e também prazeres obscuros. Difícil discernir fantasia de realidade neste livro. Escrevê-lo foi parte de um processo de cura, de autoconhecimento, de renascimento, mas também um chute no balde. Este livro foi um parto: doloroso alívio. Foi bom começá-lo, foi ótimo terminá-lo. E agora, melhor ainda, tirá-lo da gaveta e apresentá-lo a vocês. Boa leitura.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A caminho do centro da queda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 May 2023 12:53:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Após o devaneio de uma noite cinematográfica, uma tragédia força Leonel a abandonar o emprego em sua cidade natal e refugiar-se na pequena propriedade rural do avô, envolta pelos sítios arqueológicos da Serra da Capivara.</p>
<p style="text-align: justify;">A abertura da caixa de memórias do seu avôhai, encravada em solo pré-histórico, é o fio que conduz a dilemas universais e às profundezas das vastas e belas solidões das paisagens do interior do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Numa escrita que se equilibra entre a vertigem e a ternura, “A Caminho do Centro da Queda” expõe as contradições históricas de um país, assim como os caminhos e descaminhos que entrelaçam destinos.</p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Reunindo em si a tensão dialética de ser ao mesmo tempo um legítimo <em>flâneur</em>, que serpenteia o corpo nas ruas da velha cidade, e um cidadão que encara os seus vínculos obrigacionais como um trabalho de Sísifo, Leonel acalenta o desejo de subverter uma certa ordem das coisas que, para ele, não está suficientemente clara, tampouco para o cineasta Raul, e João, codinome Hunter, o professor.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse <em>palco de ressurreições inesperadas</em> e inquietudes que fundem abismos pessoais, o triunvirato  executa um devaneio cinematográfico que resulta no grande e iconoclasta acontecimento das suas vidas até então: o incêndio da estátua do Almirante Tamandaré, herói monarquista e ilustre desconhecido de quase a totalidade da população. Tal devaneio, entretanto, como ponto de inflexão do destino, faz Leonel procurar refúgio na pequena propriedade rural do avô, e provoca um reencontro decisivo com o seu passado.</p>
<p style="text-align: justify;">A abertura da caixa de memórias do seu avôhai, encravada em solo pré-histórico, é o fio que conduz a dilemas universais e às profundezas das vastas e belas solidões das paisagens do interior do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Combinando temporalidades distintas, não lineares, esta prosa poética que ora se apresenta, valendo-se de poderosas metáforas, expõe as contradições históricas do país, assim como os caminhos e descaminhos que se entrelaçam nos desertos pessoais de Leonel.</p>
<p style="text-align: justify;">Todos estes recursos, combinados e mobilizados na narrativa surpreendente que doravante chega às mãos do leitor e da leitora, fazem de “A Caminho do Centro da Queda” uma experiência única e indescritível.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Isso não é um testemunho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Apr 2023 14:40:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[nem missiva nem zéfiro
estival (incontido) o poema

exato como a fome
ou o ângulo que separa

o açoro do solo
tempo e tonsura]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Isso não é um testemunho”<em>,</em> promete e provoca Alice Vieira, a uma distância calculada em verstas. O acento russo nas medidas de “Bugiaria” sugere o nada, a noite, como norte. É diferente o “aqui”, em que o vazio se aviva, onde o trejeito desmedido e quase cômico da poeta se confessa, mas escapa. É “aqui” a dobra — o espelho — entre a promessa e o agouro, entre a dança e a timidez. É “aqui” que a poeta — esse “corpo de mulher trabalhando” — profetiza: o amor fará com que a chamem poetisa: será tudo culpa de Antônia?</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a poeta segue como pode, integrante de um “exército de mulheres cansadas”. Por vezes, como espantalhos à espreita; em outras, como cães à caça de lebres. Alice Vieira não produz um testemunho, antes oferece a decupagem de um <em>Habitat</em> que ora a abriga, ora a hostiliza — e que ela retém com todo esmero, total argúcia e expresso método: Alice Vieira capitula, também, o fracasso. O seu espaço habitado é o seu poema, é o seu corpo: não de poeta, mas de glicínias, que trepa e se multiplica, rastejante, sobre as superfícies do poema. Assim se lembram (a poeta, o poema e o seu corpo) de sua vocação intempestiva cuidadosamente manejada para o apaziguamento: explosão retardada — ou, com sorte, um “projétil falho”. Inteligência: estratégia.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Isso não é um testemunho</em> oferece a contemplação rápida e evanescente da fauna poética em que as formigas — as mulheres, “As meninas” — estão na moda, como Marylin Monroe ou Tippi Hedren, de quem ainda se tomam as medidas das cinturas: finas, como as das formigas. “O tempo da beleza já era”, anuncia a poeta, “odradek de anáguas”. São tempos de guerra, de fome, de fascismo, de, por enquanto, muito barulho. A cozinha ainda é claustro, e algumas coisas não se barganham. Diante das mulheres, um homem não corre de costas. Ele, o homem, não escapará às Moiras; a mulher (intransitivamente, porém) não escapará. É fera e é presa ou é berro: “mas a quem interessa”?</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não é um testemunho. A poesia não é um testemunho. Não é evidência, não é audiência, não é acidente que não pertence a lugar algum e que de fora se presta a olhar. Isso não é um testemunho. As testemunhas são a terceira parte envolvida. As testemunhas declaram o que viram. As testemunhas “não tomam parte no ato da cópula”. Alice Vieira não é testemunha.</p>
<p><em> </em><em> </em><strong>Constance von Krüger</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Ninguém quer o futuro</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/ninguem-quer-ver-o-futuro</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Feb 2023 19:06:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[um a um estão indo todos
pássaros que migram no inverno
nunca retornam
colorir a morte que havia em todas as coisas
foi a pulsação de uma vida
mas ainda se faz necessário
antes que os coveiros sumam
preparar o funeral
dos velhos hábitos
se ainda almejamos dar ao coração
a flor de um outro mundo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os poemas de Dyl Pires aqui reunidos podem a princípio soar melancólicos. Mas é só aparência. A velha melancolia poética não parece ser a melhor chave de leitura para os enigmas e desconcertos que eles propõem. Aos poucos, estes poemas revelam sua afinidade mais profunda com uma forma delicada e incisiva de sabedoria que remonta à certa tradição mística e poética oriental mas não menos a alguns dos assim chamados filósofos pré-socráticos. Dyl Pires leu e pesquisou durante um tempo a tradição poética do haicai e aqui acena também à contundência poético-filosófica de Orides Fontela. É menos melancolia que essa sabedoria de faquir que guia e dá o tom dos poemas.</p>
<p style="text-align: justify;">O poeta se assume como uma espécie de artista da fome que transita por esse nosso mundo inflamado mas frio, um mundo ora em chamas, ora em cinzas. A cidade, com sua junção contemporânea de explosão e deserto, de supermercado e desamparo, se anuncia como o espaço por onde o corpo do poeta se arrisca, onde ele põe à prova a sabedoria poética do faquir. A morte usa mil máscaras, mas a própria cidade “se recusa a colocar a máscara” e se empenha em fazer esquecer “os subterrâneos das florestas enterradas”. O ano da peste desmascara a cidade com outros rios e matas: “mortes caudalosas/e lives que crescem como mato alto sobre túmulos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa poética do faquir urbano desenha com precisão e errância o mapa perdido do mundo que habitamos. Não uma cartografia grandiosa e distante mas uma penetração poética no corpo desse mundo e, por isso mesmo, na sua finitude e nas suas fissuras, nas suas ruínas e fracassos, nos seus “sorrisos náufragos”, nos seus vazios ensurdecedores e silêncios repletos de gritos no fundo. Uma cartografia poética como um corpo a corpo — é do que se trata este <em>Ninguém quer o futuro</em>. Sem melancolia, mas com memória e desassossego. Pois é o corpo aceso do poeta que se lança nesse jogo, nessa luta, nesse trabalho de luto: “um corpo aceso como o potente mistério que nele habita/esmagando entre os ossos/o sentido da urgência/de uma vida toda”.</p>
<p><strong>Luís Inácio</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Mar de sal</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/mar-de-sal</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Jan 2023 13:54:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[E quando você fala e sabe que ela é louca

ela não sabe que você não é

olhos se enchem

arde água salgada

lá dentro tem muito sal

e não tem mar

logo, nem uma lágrima se atreveu a cair nesse deserto

quem quer mergulhar na praia de sal?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há alguns meses, lendo versões iniciais de poemas que vieram a integrar este livro, lembro-me de ter dito a Fabiola Glashan que eu via muito em sua poesia o olhar do artista curador, que pinça, aqui e ali, no que ouve e no que vê, matéria para sua escrita.</p>
<p style="text-align: justify;">Continuo tendo essa opinião. No entanto, é importante dizer, também, que Glashan não se filia a uma tradição que, para construir seus textos, pinça frases inteiras, trechos de diálogos, e dá a ouvir pedaços de conversas. Aqui não é essa a proposta. Na verdade, os poemas desta coletânea são tão entrecortados quanto o ritmo e a vida da contemporaneidade. O que a poeta seleciona em sua curadoria são unidades de significação mais breves: palavras e expressões curtas que aparecem em conversas, manchetes, poemas.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, mais do que através da fluidez, muitos dos poemas de <em>Mar de sal</em> são construídos através do acúmulo de imagens que são referidas com brevidade. Em vez de se demorar ou degustar cada uma delas, os poemas agilmente nos puxam o tapete e nos lançam, sem demora, em um mar de imagens espessas. Por isso é um pouco desnorteados que nós, leitores, flutuamos sobre essas páginas.</p>
<p style="text-align: justify;">“Flutuar” é um verbo que pode fornecer uma chave de leitura interessante para esta coletânea. Ora, quem flutua, flutua em que matéria? A resposta, em língua portuguesa, está no contexto. É possível flutuar porque se está sobre a água ou flutuar porque se está em suspensão no ar. E há uma diferença tremenda entre uma coisa e outra, mas, ao mesmo tempo, ao ouvir “flutuar”, adivinhamos certo “não tocar a terra a firme”, não estar com os pés fincados no chão. Pois bem: parece ser nesse clima de suspensão indefinida que Glashan encontrou caminho para sua estreia na poesia.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p>Lilian Sais</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Das vezes que lutamos sorrindo</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/das-vezes-que-lutamos-sorrindo</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Jan 2023 13:32:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[não permitiremos
que a liberdade
seja uma rotina de
exceção
mas uma rotina de
exercício]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O tempo que nos salva de morrer em vida é o intervalo, a pausa, o fôlego: tudo o que fica invisível nos livros de história, nos documentários e nas reportagens, e só ganha manifesto na poesia. “das vezes que lutamos sorrindo” é como a captura de lacunas no tempo que Eduarda Vaz, conhecedora de hiatos, reúne com uma escrita afiada e segura.</p>
<p style="text-align: justify;">Eduarda aponta soluções para captar este tempo escorregadio, e nelas a boca é a ferramenta protagonista: o zelo dedicado em lamber feridas, a risada que quebra o infinito silêncio, a mordida na maçã proibida, a voz libertada no grito de um corpo em óbito, a fofoca propagada pelos canos hidráulicos de um prédio antigo. Tudo passa pela boca e nos deixa de boca aberta, com tamanha sinceridade escancarada.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta é uma obra que chega para narrar o que existe no entre. Entre paredes, janelas, guerras e festas. É no hiato que se celebra a saudade, a espera, o cansaço. É no hiato que se procura um colo pra chorar e se chora. É no hiato que o silêncio, por vezes, se instala e a gente o recebe como visita esperada.</p>
<p style="text-align: justify;">Inspirada no sol em sagitário de Larissa, que espera agindo e descansa esperando, Eduarda, capricorniana, nos apresenta uma obra cheia de detalhes e miudezas de quem sente a vida com cada centímetro do corpo e olhos atentos. E para além de sentir, fala. Ela fala porque sua voz é adubo e suas palavras nutrem.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao final da leitura eu fiquei com vontade de morder a maçã. Como se Eva fosse uma água-viva que nunca morre e fez morada na Larissa, na Eduarda, em mim e que vai fazer em você também.</p>
<p><em>En esta mar de duda</em>, eu recomendo o mergulho.</p>
<p><strong>Aline Silva Nobre</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Boemia, existencialismo e outras bobagens adolescentes</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/boemia-existencialismo-e-outras-bobagens-adolescentes</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Jan 2023 13:20:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[patético coração aflito
encontra-se em paz
sem nada mudar

primata
primazio sentimento

tão bobas são as coisas
tão sérias nós fingimos

o silêncio aqui dentro
que me roía como um rato
agora dá sorriso]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Boemia, existencialismo e outras bobagens adolescentes</em> reúne trinta textos pré e pós-pandêmicos da autora Lambi. A morte e outras questões relacionadas à filosofia transcendental constituem tema central de vários dos poemas inter-relacionados. O livro tem como proposta, sob um sutil véu político, e a partir de reflexões geradas por experiências pessoais que ferem o coletivo, construir um diálogo sobre como esses assuntos são, ao mesmo tempo e de modo não excludente, tabus e banalizados, e como esses efeitos interagem entre si. Por que não falamos sobre a morte? Por que escutamos mais dos números que dos mortos? Quem são os mortos? De onde vem o sentimento de ameaça? Onde os corpos se encontram nisso tudo? Quem pode pensar sobre a morte?<br />
O título, então, assume assim caráter ambíguo de um deboche até metalinguístico. Alguns textos perpassam por boemia, existencialismos rasos e outras bobagens adolescentes, mas não se limitam a esse discurso.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Só as hienas matam sorrindo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Sep 2022 12:43:50 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">vou deixar minha coroa na mão? vou nada. minha coroa em primeiro lugar. vou dar um trampo na rua de baixo da firma, tem uns bar de playboy que sai da facu e fica lá entornando o caneco. já tô com a mercadoria aqui. só caio fora quando vender tudo. você vai colar comigo nessa operação? meio a meio, parça, nóis tira o gasto e divide os lucro, mas sem essa de encharcar, nóis vai pro trampo, tô falando porque outro dia levei um maluquinho aí, e o doido entrou numas de azarar as minas, tem cara que não se liga, acha que uma patricinha daquelas vai dar trela de verdade pra um zé roela que nem nóis, essas mina não casa, faz negócio...</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Esse cara, o Aramyz, tem o mesmo nome do mosqueteiro que queria ser padre, aquele lá do Alexandre Dumas, só que esse aqui tem um Y no lugar do I e um Z no lugar do S, e deve ter também uns parafuso trocado, sabe como é? Esse aqui não leva o menor jeito pra padre, não. Ele toca o terror na moral e não parece ter vindo ao mundo pra conceder perdão pra nenhum vacilão. O cara tem muito sangue no zóio. Ele escreve uns baguio irado que faz a gente miolar nos tormento que os personagens dele tão passando. E eu fiquei achando depois que eu li o livro, que bem que a literatura brasileira tá precisando de um maluco que escreve assim uns papo reto, falando tudo na bucha, chutando o balde e o rabo do diabo se ele se meter a besta de cruzar o caminho. Saquei também uns ecos de André Sant´anna, uma ginga de Roberto Drummond misturado com Douglas Diegues e umas colherada de Nelson Rodrigues. Mas é tudo na originalidade da escrita, que não poupa ninguém da metralhadora giratória que nunca escorrega da mão dele e vai só deitando tudo quanto é maluco que ele resolve espinafrar, e aí sobra pra juíza, pra meganha, pra repositor de supermercado, pra motora de busão. O maluco não perdoa nem porta eletrônica de agência bancária. Sobra raiva pro presidente e até pra Rainha, se aqui fosse a Inglaterra e tivesse uma desfilando safada tirando chinfra numa limusine. Sobra até pra Deus, cumpadi. E são uns texto oral pra cacete, uns diálogo febril prontos prum ator fodão sair falando, deixando a plateia colada nos assento suando frio. E é tudo sarjetão, mesmo que aqui e ali ele jogue um verniz em algum personagem que escuta Mahler, mas no geral mesmo é só porrada neste livro cheio de raiva genuína e desconforto. Cuida só, o Aramyz, que num é o mosqueteiro do Dumas, joga a merda toda no ventilador como se tivesse escrevendo um roteiro sinistro de um reality do inferno. Então eu vou bater a real pra vocês, oká? Isso aqui é escrita pesadelo pra quem tiver disposto a aguentar o tranco. Se tu jogar nesse time, cola na banca que o mano vai te entregar o produto que cê tava esperando. Caso contrário, é melhor ficar longe. O Aramyz não vai te deixar feliz.</p>
<p><strong>Mário Bortolotto </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Mito verdadeiro: cantos circulares e criselefantinos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Aug 2022 11:56:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Vivo ao sangue da lua
Concebido pelo mel
Flor de nobres Histórias
Sou produto Terra-Sol…]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A partir de definições várias de “Mito”, Portella Carneiro delega críticas contemporâneas a linguagens mitológicas, utilizando-se do tempo e da cultura como moldura para um quadro atual do Brasil. Desde o hexâmetro dactílico, metro poético enaltecido na Antiguidade Clássica, até a poesia concreta modernista, <em>Mito verdadeiro</em> explora diferentes linguagens para compor críticas à milícia da fé, que, por meio da criminosa família Bolsonaro, utiliza religião e agressividade para controlar a vida e a morte no Estado.  Este livro é dedicado à Musa grega Clio, para que, pela sua inspiração, o poeta remonte o caráter cíclico da História. O livro se inicia feito o molde das grandes epopeias da literatura, portanto com uma invocação às musas, e se encerra com um moderno palíndromo, o maior em língua portuguesa, contando com 666 palavras. Neste livro, composto por 33 textos poéticos, os mitos são referenciados até nos detalhes, mostrando que o verdadeiro mito pode ser uma crença, uma fantasia, uma mentira, um absurdo, por vezes tudo ao mesmo tempo. É na literatura que a mitologia confirma sua força, e é na política que o “mito” se afunda cada vez mais na História, ela que sabe ser perene feito ouro e marfim, e não menos imperdoável. Portella Carneiro apresenta um ponto de vista indignado e esgotado, mas o otimismo da Musa provará ser a vida feita de espirais.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A invasão &#8211; segunda edição</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 29 Jul 2022 18:01:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na verdade não somos índios. Somos Nhandeva (guarani), Kaiapó, Terena, Tukano, Tupiniquim, Krenak, Pataxó, Xetá e muitas nacionalidades mais. Essa palavra não tem tradução em nenhuma das nações indígenas, é fruto de um erro sociodemográfico.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os povos indígenas buscam manter sua resistência com estratégias que fortaleçam a territorialidade levando em conta o tempo e o lugar. O contato reduziu em grande número as nações que habitavam essa terra de pindorama. Passam-se os anos, novas estratégias de luta se apresentam e eis que surge uma literatura indígena, nativa do ponto de vista do lugar de onde se escreve, originária porque tem uma origem em um povo que compartilha saberes aprendidos com a natureza numa relação de afetividade, amor, harmonia, cuidado, doação.</p>
<p style="text-align: justify;">Desbravar horizontes ainda não imaginados foi o que fizeram os “colonizadores invasores”, invadidos na alma e no território, modificando modos de vida, adotando novos credos, descobrindo a cruz da dominação, imposição e capitalista opressora. Os povos já conheciam seu Deus, já tinham sua ligação com uma energia maior que movimenta o mundo e que fortalece a quem lhe busca encontrar. Deus para uns Nhanderú, Senerú, Tupã para os povos originários filhos da floresta.</p>
<p style="text-align: justify;">O livro “A Invasão” do escritor Olívio Jekupé vem refletir com a gente sobre esse olhar agora partindo de dentro para fora, com as ideias de quem fala do seu espaço de luta, do seu território memorial, na sua simplicidade de aldeia que não busca complicar as ideias do leitor, mas questionar quem são os invasores e como proteger nosso ser dessa invasão. Será que a literatura não é uma forma de descatequisar o que já foi colocado em nosso ser como indígenas e não indígenas?</p>
<p style="text-align: justify;">Deixemos que as palavras de Olívio Jekupé que é um pioneiro na literatura indígena fortaleçam em nós uma reflexão profunda de nossas ações e reações perante essa invasão ainda presente nas formas como somos abordados, nas ideias equivocadas de que “estamos nos aproximando da civilização e nos tornando humanos como os que nasceram em um outro lugar na urbanização das grandes cidades”. Que nos fale ao coração a literatura nativa de Olívio Jekupé e nos descolonize da forma que puder.</p>
<p><strong>Márcia Wayna Kambeba</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Dedo no cru y gritaria</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Jul 2022 15:17:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Largada a teus pés, faço teto das tuas solas. Teu dedão toma de assalto o céu da boca. Cascudo invasor. Eu me acanho. Teu calcanhar então calça caminho na minha cara e pisa em todas minhas vergonhas. Inspiro fundo, aspiro ao sol das tuas tetas — tão peludas. Apurar o grosso das canelas, adorar a tuas coxas como a falsos ídolos, vou subindo-subindinho até acabar cara a cara com a careca babada de deus.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>O que você tem em mãos é um petardo da literatura cuíer brasileira</em>, declarou madame Mercedes Sonsa na primeira vez em que a vi. Toda trabalhada nas cores cítricas e tonalidades neon, ela me visitou, por sete noites seguidas, na forma de uma aparição desejada, e, conforme minha leitura avançava, passei a entender melhor o que ela quis me dizer.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao entrar em contato com os dez contos que compõem DEDO NO CRU y GRITARIA, é possível descobrir qual literatura viceja nos bueiros mais sacrossantos. Qual linguagem lateja, reinventada, nos orifícios mais frequentados. Quais narrativas poéticas-prosaicas percorrem as peles e os pelos dos seres mais irremediáveis. Quais muralhas identitárias são dinamitadas com o extrato de fluídos que percorrem frequências antinormativas da existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste livro, é possível intuir as marcas de uma infinidade de autories desviades de outros tempos, somadas à essência inconfundível e atualíssima de Mercedes &amp; Ga Rossetti, corpo dissidente que, flanando da sarjeta aos céus, conta histórias enquanto vislumbra tragédias e maravilhas.</p>
<p style="text-align: justify;">DEDO NO CRU y GRITARIA apresenta rupturas e alianças que trazem à escrita novas tonalidades, a profanação dos limites entre os gêneros, bem como a absolvição e a possibilidade de criação artística pelo gozo, pelo sarcasmo, pela transformação, pela crueza das realidades retratadas e pela legítima expressão de vivências marginalizadas do nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Já na ansiedade pelas próximas empreitadas de Mercedes Sonsa &amp; Ga Rossetti, espero que esse livro seja tocado por todas as mãos possíveis,</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Cristina Judar</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Uma mulher em chamas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jun 2022 17:33:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Aquilo ficou cicatrizado em mim. Juro que desejei que o calor continuasse em meu pescoço, como as mãos do rapaz da escola em meus seios, apertando-os com violência misturada com os sons de gemidos quase imperceptíveis. Queria que a temperatura ficasse ali por mais algum tempo. Voltei meu olhar para a louça e continuei a tarefa de casa como uma dama exemplar. Tinha agora que direcionar minha atenção para o cardápio do almoço.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O<br />
T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O T-E-S-Ã-O</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O clitóris de Safo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Jun 2022 17:16:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ofélia mandou-me
um vídeo se masturbando
no banheiro

modernas cartas de amor]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>os amantes</strong><br />
com sabor de fruta mordida<br />
(cazuza)</p>
<p>o amor é obsceno<br />
às vezes ele surge com<br />
sua lucidez pornográfica<br />
entre a bruma da manhã<br />
e o mormaço do meio-dia<br />
é também amor tudo aquilo<br />
que não julguei ser amor<br />
o amor é uma inominável<br />
fruta mordida (esquecida<br />
num canto de geladeira)</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Vidro à prova de pobre</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/vidro-a-prova-de-pobre</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 May 2022 13:57:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">não sou bom em leitura, mas sou bom de conta. falei isso pro meu menino que estuda, é melhor ser bom de matemática, quem sabe fazer conta vai usar essa sabedoria, esse conhecimento pro resto da sua vida. essa meninada de hoje conta nos dedo, no celular, na calculadora. quando vou fazer um rejunte, já sei do tanto que precisa de cada coisa, isso é matemática, quando faço uma coluna, sei o tanto de ferro, o tanto de pedra, areia e cimento. a senhora mesma, é boa de conta?</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Viajou a distintos lugares e trouxe muitas coisas, das quais a maioria não deveria saber. Precisou resolver consigo toda mazela expatriada das memórias dos subúrbios, das favelas, das vielas…; mas seu estado já era outro…<br />
Considerou haver indícios de tristeza esfacelando com a mandíbula a boca seca acostumada. Muito discreto sussurrou, gritou baixinho:<br />
“queria morrer agorinha… preciso disso, tenho esse direito…”.<br />
Escreveu um livro… maravilhoso.<br />
Este é o segundo.<br />
Leia-se, pergunte: que circunstâncias deram fôlego à linguagem inusitada, esquecida, por vezes escondida do autor?<br />
Poderia dizer que aqui há apenas um que observa os impactos da sociedade pós-moderna pseudoglobalizada com suas conveniências e armadilhas, que de alguma maneira destina-se a retratar as incoerências carcomidas que a realidade pequeno-burguesa produziu ao longo das últimas décadas.<br />
Seria injusto de minha parte se assim fizesse.<br />
aramyz vai além, seu estilo expressivo adota uma espécie de distorção figurativa com o intuito de conflitar a confusão interna de suas personagens com a realidade externa de suas inconsistências.<br />
Percebe-se aí uma voz que marca, precisamente, a constituição de um sujeito impreciso, como alguns farão crer, imprevisível.<br />
Aproveite, aceite a escrita matreira viva assassinada de aramyz.<br />
É preciso um momento muito especial para poder trazer a nossos olhos a arte de escrever com tanta precisão que os leitores comecem a duvidar de sua própria visão.</p>
<p>aramyz é, sem dúvida, um desses grandes autores extremamente talentosos, cujas obras dificilmente passarão despercebidas, cujo desenho é, principalmente, retratar a figura humana. Entretanto aramyz explora infinitamente a luz e as sombras que, de algum modo, insistem imprudentes em acomodar o molde à superfície.</p>
<p style="text-align: justify;">
<strong>Flávio Moura</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Insulto à decência</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/insulto-a-decencia</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 May 2022 21:31:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[quem dera se eu tivesse a gozar
livre, libidinosa y gozante
eu p i o
em alto e bom som.

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Insulto à decência</em> nos convida a uma leitura sobre e sob tesão da palavra. Como numa cópula, cada poema vai sendo um verbo que se prende à pele e sussurra um vocábulo que toca. E é bem ali, no toque do ordinário e do sem vergonha, que a desordem torna-se habitante do corpo no qual o livro se transforma.</p>
<p style="text-align: justify;">Se este livro fosse uma pessoa, falaria calão.</p>
<p style="text-align: justify;">Estaria na boca do povo. De boca cheia. E numa esquina sangrada, com a língua bem solta, penetraria surdamente o reino das palavras à procura da poesia. Encontraria — arrisco dizer — na tensão entre criação e criaturas. Todas elas no feminino, no tato de quatro mulheres descobertas <em>na</em> e <em>pela</em> escrita. De vozes que lambem a (in)decência, regozijam no desejo e gozam nos insultos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se este livro se encontrasse com uma pessoa, ela estaria com água na boca.</p>
<p style="text-align: justify;">E seria um verso erótico.</p>
<p style="text-align: justify;">O prazer da deleitura, aviso, é todo seu.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Monise Martinez</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Nude</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/nude</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 Apr 2022 14:05:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Me levanto e vou tomar banho direto. O banheiro é logo ali, na primeira porta, ele me informa, enquanto caminho nua e ajeito os cabelos com um elástico surrupiado que tinha sobrado na mesa de cabeceira do lado da cama, provavelmente da outra de ontem, em cima de um livro do Sidarta Ribeiro.
Chamo ele pra tomar banho comigo. Ele me diz que já vai. Espero que entre logo e me faça companhia num banheiro que não é meu.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">No subterrâneo de veludo de Madame Scarpari, tudo está à mostra. Para definir sua prosa, “desbocada” é a primeira palavra que me vem à cabeça, mas é um drible: “desbocar” pressupõe <em>retirar a boca</em> e, ao contrário, a autora é voraz em seu apetite por nomear, provar, alimentar, sentir e abocanhar.</p>
<p style="text-align: justify;">A autora vê o intercurso como a encruzilhada entre ironia e lirismo: “Dois desconhecidos que estreiam o beijo e a foda serão sempre um par tateante num salão escuro”. Fala é feminino de falo, portanto o lugar desta prosa é ativo, operante.</p>
<p style="text-align: justify;">Olivia ensina que gargalhar de/gozar com machos toscos é bem mais empoderador do que cancelá-los — como se depreende pela hilária história da moça de “Limite rígido”: a narrativa é de quem segura a caneta e bota a boca no trombone, mané. E segue o baile.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Nude</em> expõe às entranhas as agruras e greias do tráfico contemporâneo de <em>dick picks</em>, <em>packs</em> de pezinhos e <em>printscreens </em>de pepecas, sem descuidar das nuances mais melancólicas dos amores que morrem mesmo antes do clique seguinte.</p>
<p style="text-align: justify;">Transas com bonecas, amigos, amigas e inimigos, <em>shibaris</em>, <em>ménage à trois</em>, sacanagens intergeracionais e até com o próprio marido — como na esperta putaria doméstica de “Me fode com força” —, eis alguns motores das ficções breves da autora.</p>
<p style="text-align: justify;">Se o amor só existe se declarado, o desejo só se arremata por escrito.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Ronaldo Bressane</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Néctares</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/nectares</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 Apr 2022 16:06:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[ilustrações de <a href="https://editoraurutau.com/autor/na-silva">Ná Silva</a>

Será que você se imaginaria
Dando trancos em uma gostosa sentada na pia?
Ou preferiria alguém
Que ficasse de quatro enquanto você metia?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ana Luzia Oliveira é palavra para o que não se escreve ante a altares sacros&#8230; Sua poesia é um convite ao sacrilégio da língua&#8230; Mutante&#8230; Ardente&#8230; Indecente!</p>
<p style="text-align: justify;">Sua poética deita num transcorrer explícito, líquido e fluxo que dispensa confissões e penitências. Uma ousadia à margem das normas. Versa em desobediências!</p>
<p style="text-align: justify;">Ignora a meia-luz! Desnuda hipocrisias e fala! Fala despudoradamente o que não precisa de pudor algum.</p>
<p style="text-align: justify;">Ná Silva empresta arte ao traço que traduz rodapés de (re)existência! Digitais de escritas em teias fêmeas subversivas contra muros de silenciamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ana Luzia e Ná nos trazem, na coloquialidade que pressupõe qualquer prazer, a porta aberta de mulheres que derrubam muros e fazem nascer primaveras eróticas e fecundas na estação das sombras.</p>
<p style="text-align: justify;">Erótica é a voz da pele de quem não se sabe caber, tampouco caber nas quatros paredes da página em branco. Erótica é a polifonia das fendas que não se amarram.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, Ana Luzia Oliveira e Ná Silva se derramam neste livro em total desconvenção. São por essência a vivência literária e artística do prefixo “des”. São a negação explícita!</p>
<p style="text-align: justify;">Se vocês, leitores, esperam comedimentos dos sentidos, um alerta: não abram este livro!</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui é lugar de espelhos dos avessos! De mergulho em marés cheias de tudo. Poesia nua, crua, dona de si e de todas as fases da lua.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Néctares</em> é alimento para almas livres! Início, meio e final de ciclos com as cores e dores de toda metamorfose-mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">A quem é de boa coragem, bem-vindes a este livro: é tempo de transformação e liberdade.</p>
<p><strong>Renata Corrêa</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Doze noites e seus trabalhos (sexo, fetiches, parafilias &#038; talvez amor verdadeiro)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 Apr 2022 14:03:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Prefiro chamar o meu de “plug anal” — a denominação mais contemporânea, neutra e eficiente como seu design —, que lembra uma chupeta, só que brilhante, em alumínio, como uma pequena espaçonave. Encaixa-se perfeitamente dentro de mim. Contrair os glúteos com ele me provoca ondas de um prazer portátil e discreto, um objeto de prazer que se incorpora ao meu corpo como um órgão transplantado, um pedaço de mim que me foi roubado no desmame e que hoje recupero em três vezes sem juros em qualquer cartão de crédito.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em <em>Sade, Fourier, Loyola</em>, Roland Barthes diz que o texto é um objeto de prazer, e sua capacidade máxima de deleite é quando a escrita do outro transmigra para o nosso mundo interior: uma conjunção, uma coexistência. Mas, e quando essa fricção tão profunda é, também, da ordem da perturbação, aquela que torna o prazer perigosamente próximo da morte?</p>
<p style="text-align: justify;">Há textos que se situam em zonas limítrofes. Agarram-nos pelos ombros e nos arrastam àquele espaço sem forma onde sexo e morte são indistinguíveis. Esse é o território em que o erótico e o pornográfico se confirmam meras categorizações culturais do prazer, suas gradações decididas por aqueles que pretendem demarcar as fronteiras entre libido e pulsão.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui, Jozias Benedicto se posiciona como os invasores bárbaros da ordem de Sade, Genet, Hilst. Os autores que rasgam a pele do biombo entre o permitido e o proibido sabem que o deleite do leitor não consiste em acepção voltada exclusivamente ao aprazível e ao gozo.</p>
<p style="text-align: justify;">Benedicto é escritor e artista visual. Não é por acaso que a força imagética de sua escrita resida na exuberância da montagem, criando um mundo oscilante em que a Barra da Tijuca é um sinistro e sublime Jardim das Hespérides, mais do que pano de fundo, elemento central de discurso que vai se esgueirando pelas brechas para se revelar avassalando tudo. É composição em que corpos se entrelaçam como numa alegoria da consumição mais voraz da vida: jogo e caça, o painel de Paolo Uccello, mas também a doce e caprichosa melancolia dos piqueniques do Rococó amalgamando-se ao <em>Triunfo da morte</em>, de Bruegel.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Doze noites e seus trabalhos</em> tem fundação no mito dos Doze Trabalhos de Hércules, de onde toma emprestado, para perverter, o mote da jornada do herói, e em <em>120 Dias de Sodoma</em>, de onde reconstrói a progressão cíclica: é um livro que nos conduz sem fôlego por uma luxuriante tapeçaria pontuada por fetiche, volúpia, vertigem, síncope, delírio, ameaça e, finalmente, horror. Não sem deleite.</p>
<p><strong>Léo Tavares</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Lubrificada: aforismos pornopoéticos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 Apr 2022 13:32:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[sua ppk toda depilada
e eu toda tarada
enfio a língua abusada
nela lisa quente e melada]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Não há hora, lugar ou gênero para trepar. Diana Castilho quebra a ordem das coisas e rompe com os padrões instalados nas relações sexuais numa divertida batalha entre fatos, sonhos e desejos. A autora declara guerra ao conservadorismo e inspira amor, flerte, sexo e gozo. Este é o mote derramado nas páginas de <em>Lubrificada</em>, em que trepar é um ato revolucionário feito de escolhas, um ato de liberdade que extingue tabus. Muitos desses poemas irão se tornar videoclipes nas cabeças dos leitores para serem encenados em lugares não convencionais e principalmente na imaginação. Corpos que habitam outros corpos, entre o amor e a sacanagem, o desejo sempre os espreita.</p>
<p style="text-align: justify;">Ardente, político e anárquico, o livro todo é um diálogo de corpos-poemas tomados pelo desejo. Um tesão incessante em forma de poesias ousadas, para ser lido antes, durante e depois do coito de forma livre e sem vergonha!</p>
<p style="text-align: justify;">Contra a caretice do sistema, gozemos!</p>
<p><strong>Allysson Gudu</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Romanticuzinhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 Apr 2022 13:24:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Quem nunca usou banheiro público

não sabe o que é tonificar as pernas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Poliana Paiva começou a desenhar num momento em que não aguentava mais, depois de 7 anos publicando quadrinhos em seu instagram @romanticuzinhos, usar um template da internet com ilustrações previamente programadas. Afinal de contas, isso não garantia a ela nem a autoria nem a personalidade que seus textos mereciam. Em sua trajetória na internet, seja nas personagens criadas em seus vídeos e fotos-performance, onde contracena com seu vibrador e com um clitóris de resina, seja em suas tirinhas que só falam de cu, caralho, bolas, períneo, clitóris, pentelhos e umidades, Poliana sempre foi uma artista que soube muito bem ligar o foda-se, desprendendo-se da necessidade de agradar, dizendo o que lhe desse na telha, do jeito que lhe desse vontade, pois falar sempre lhe foi preciso. Nas tirinhas desse livro, o leitor vai se deparar com diálogos onde as mulheres dão voadoras em machos sem noção, com trocadilhos infames, e, também, com alfinetadas nos padrões estéticos e comportamentais de nossa sociedade patriarcal, que, entre tantas coisas, proíbem as mulheres de envelhecer. Tudo isso com muito, mas muito sarcasmo. Poliana pega pesado. Às vezes a gente ri é de nervoso. Observando seu Instagram, dá pra se ter uma ideia disso pela reação dos seguidores, que vai desde a gargalhada frenética às reclamações revoltadas, em especial da macharada, que fica incomodada ao se ver objeto de zombaria. Uma zombaria que se usa de uma suposta despretensão como instrumento de linguagem. Por não ter domínio da técnica clássica do desenho, Poliana cria personagens de traços simples e foca sua atenção em dar a eles expressões, movimentos e sentimentos bem definidos. Sentimentos que nos deixam um pouco aturdidos pela sinceridade aguda. Que nos fazem devorar cada uma das páginas desse, que é seu livro de estreia, como se não houvesse amanhã. Que nos dão vontade de, uma vez no inferno, abraçarmos o capeta. Só posso desejar que vocês tenham uma puta leitura. E que fiquem bem molhadinhos.</p>
<p><strong>Bel Petri</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Ensaio sobre a escatologia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Feb 2022 13:27:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<a href="https://editoraurutau.com/autor/lais-pinheiro">Lais Pinheiro</a>

Pedras encaixadas sob os pés com areia fina branca
Brisa salgada em largas janelas
Egos de altos andares

Vendo folhas de palmeiras que se movem
distantes da brisa de merda expelida em
suas baixas ruas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Trata-se aqui do que já é hoje o fim de um mundo, mas é também sobre o horizonte de excrementos que nos cerca em um tempo-espaço e que nos tem confiscado diariamente a pulsão de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma iniciativa encorpada de duas atuantes e ativas mulheres que traçam caminhos muito precisos em relação ao que querem, usando o traço, a palavra ou o olhar através das lentes para desenhar a militância que transborda e se forja no ar dos tempos.</p>
<p style="text-align: justify;">O choque do real ampliado pelo encontro de Bianca Carvalho e Lais Pinheiro nos convoca a olhar nosso entorno pelo viés dos altos e baixos. Encarar de frente egos de andares altos, baixas ruas e orgasmos atrapalhados pelo capitalismo. Aqui não cabe subterfúgios.</p>
<p style="text-align: justify;">Bianca, arquiteta nascida e criada em Vigário Geral e agora moradora do Morro da Conceição, e Laís, arte-educadora nascida em Bonsucesso e moradora da Maré, locais emblemáticos que desenham em seus corpos todo dia um mapa de força. É dessa partida que somos convidados a um passeio pela cidade onde o enfrentamento de espaços é ao mesmo tempo um tapa na cara, um abraço, um sacode, um grito, uma dança.</p>
<p style="text-align: justify;">Bianca e Lais fabulam sobre um cotidiano perverso, mas abrem frestas desafiando a mudanças. Novas dobras em esquinas. Novas escolhas. Uma área poética de espera. Espera de esperança.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Ensaio sobre a Escatologia </em>é</p>
<p style="text-align: justify;">poesia-manifesto</p>
<p>poesia-deboche</p>
<p>poesia-cuspe</p>
<p>poesia-reverberação</p>
<p>poesia-cínica</p>
<p>poesia-flecha certeira</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que a bolha fure e espalhe essa escatologia urgente pelo mundo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Valéria Martins</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Amém, miséria</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/amem-miseria</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Feb 2022 12:10:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">As imagens que afluem à memória se dissipam rapidamente à medida que ele vai comendo e seu estômago dói com violência: a fome que passou na Europa, as dificuldades recorrentes no Brasil, tudo se concentra em um ponto entre o estômago e o coração a ponto de perder o fôlego. Pede um pouco de água da torneira.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O Brasil não é para amadores, disse Tom Jobim. Nem para fracos, acrescento eu. Afinal, são tantas emoções! Uma hora o Brasil é o país do futuro de Stefan Zweig. Outra hora é um país com um enorme passado pela frente, para citar agora Millôr Fernandes: um passado colonial, escravagista, patriarcal. E cristão. Ontem eram os missionários jesuítas, como José de Anchieta e Antônio Vieira. Hoje, pastores como Malafaia e Edir Macedo. Ah, mas uma coisa permanece a mesma: uma horda de escritores anônimos e frustrados num país que não é conhecido pelo hábito de leitura.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é o caso de Pedro, o protagonista dessa narrativa com extensão de novela e fôlego de romance. Contrariando os pais, que preferiam engenharia ou direito, ele optou pelo malfadado caminho das letras. Graduou-se, fez mestrado, publicou um ou outro artigo acadêmico que ninguém leu. E alguns livros de ficção, que granjearam um ou outro leitor e lhe fizeram cócegas no ego. No entanto, hoje, cinquentão, faminto, Pedro sobrevive desfazendo-se dos exemplares de sua biblioteca nos sebos da cidade e de uma ou outra oficina de escrita criativa, pois,  todo mundo, ainda que não leia, quer ser escritor. Pedro não acredita muito no que faz, e seus alunos mais inteligentes também não.</p>
<p style="text-align: justify;">Um belo dia, convidado por um conhecido, Pedro vai visitar uma dessas igreja que transmitem a mesma mensagem moralista numa roupagem jovem e descolada. Pedro se torna um pastor promissor — ainda que sem fé, pois a fé é um quesito dispensável nessas igrejas. Assim, em meio a carreiras de cocaína, vinhos uruguaios e frases de autoajuda , <em>Amém, miséria</em> é um retrato fiel, pelas lentes da galhofa de um Brasil que tem tudo para dar certo, mas prefere flertar com o abismo. Leitura recomendada para aqueles que desejam uma luz no fim do túnel — e que não seja o trem vindo. Com efeito, toda distopia aponta para vestígios de utopia. E é esta que buscamos, como um negativo fotográfico, nas frinchas da obra de Marcelo Alcaraz.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Otto Leopoldo Winck</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Carro alegórico</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/carro-alegorico</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Feb 2022 14:19:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Homem</strong>
Eu falei que ia dar merda. Falei. Isso é pra ver se assim vocês aprendem! Vocês não sabem de nada, caralho! Vocês não são nada! Eu sei o que é o melhor para vocês, merda! Eu sei! Eu sei! Agora levantem, me desamarrem e sigam quietos por onde eu mandar.<em> (Retorna ao trenó.)</em></p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Com um pé nos debates mais difíceis da nossa década e outro nas questões que moveram o século XX, Carro alegórico, mais do que à reflexão, é uma obra que nos convida à ação. O consenso ruim, o desnudamento de nossos desejos e problemas mais profundos e inconfessáveis, o estado de aprisionamento e guerra permanente, essa é a carne dessa, como diz o título, alegoria. Os personagens da trama estão nus, acorrentados e, como num carro de arruar, levam seu algoz pelas ruínas de um mundo. Precisam atravessar também a própria miséria, medo e sonhos para darem bom uso a suas correntes. O carro alegórico é um trenó e nele estão uma velha doente chamada Terra e uma criança sem pais chamada História — tão reféns do Homem, como qualquer um de nós. Acompanhamos as tentativas de motim atordoados por uma mistura de névoa, cinzas e neve que nos levam a puxar também esse trenó. E como nessa vida aqui, a que nos circunda e entorpece, não há mapa, não há saída, não há mundo outro para ir. É preciso, como tanto já ouvimos, construir um mundo aqui, a partir das ruínas desse mundo. Carro alegórico nos entrega um dilema antes de tudo físico, nos movimentos de seus personagens e na coreografia que é possível armar para derrubar os tantos algozes que temos e que tantas vezes somos.<br />
Esse é o primeiro livro de Beatriz Malcher, dramaturga e pesquisadora, que também escreveu<em> Onde está Liz dos Santos?</em>, que estreou em novembro de 2021 no Teatro Firjan SESI Centro (RJ), sob a direção de Tatiana Tiburcio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Heyk Pimenta</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Caspas e muriçocas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/caspas-e-muricocas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 03 Feb 2022 14:03:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[presidente
pede
pra
sair]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">C<em>aspas e Muriçocas</em> é o alastramento de uma coceira que se espalha entre poesia e política, economia e política, casa e política. Esse livro transita do mínimo para o macro, do íntimo para o público, da casa para o país, em uma coceira permanente que mostra que “o caminho das caspas” traça um modo de inscrição do nosso tempo: caspas levam a covas, a larvas, a um trabalho de decomposição dos corpos, a um trabalho de luto. A casa, aqui, é uma hospedagem que se transfigura como um corpo hospedeiro, isto é, no duplo sentido de hospitaleiro e hostil ao mesmo tempo.<br />
(&#8230;)<br />
<strong>Danielle Magalhães</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Nervo</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/nervo</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Dec 2021 22:16:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[congelar corpos
para não se fazer mais
bebês
é uma alternativa que me vem
durante a meditação o gozo
não envelhece]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma boca mastiga cerca de 47 vezes para partir um nervo. A velocidade média de resposta nervosa de um dedo anular é de 56 metros por segundo. Nesse livro, o impulso é maleável e conduzido rapidamente, mas impossível de partir. Escrito em meio a um eminente colapso global, toma formato de jornal dos absurdos, a linguagem de manchetes induz o leitor a não distinguir realidade e ficção. Uma escrita poética que traz à tona os saltos do espaço-tempo, assim como nos levam a compreender a dimensão distópica que vivemos.<br />
O nervo de coxa na fila do açougue, já não sabemos se é do homem ou do animal. Ao longo da leitura, talvez você se pergunte: quem caminha para o abatedouro, nós ou o frango? No país do maior rebanho bovino do mundo, o ser humano se transmuta na fome e no prato. E Maria Clara, nos dá uma única certeza: caminharemos com um deboche irreverente, enquanto ela veste nossos ossos, nos dá o que comer.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Isabela Equor</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Pílulas sobre a quarentena (e fim do mundo)</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/pilulas-sobre-a-quarentena-e-fim-do-mundo</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Dec 2021 17:39:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[82. A vida em LIVE já nasceu DEAD.
83. Quando eu pedia para emendar o Carnaval com o Natal, não era isso que eu tinha em mente.
84. Ir e vir é um direito, já carro se compra; saúde é um direito, já plano de saúde se compra, e por aí vai. Respirar é um direito, já respirador...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">E se pudéssemos acompanhar o que acontece na mente inquieta de um homem comum, frente à notícia de que precisará adiar seus planos mirabolantes de dominar o mundo? <em>Pílulas sobre a quarentena</em> nasceu nesse terreno fértil em uma terra sem lei. Voraz e acostumado a construir a novidade de cada dia em meio a centenas de pessoas, nosso homem comum desvenda, passo por passo, diante de leitores eventuais de uma rede social não menos perplexos, cada descoberta sobre a vida que se impõe sem rota de fuga. O homem, que não cabe em si, e que encontra uma forma de transbordar seu movimento interior enquanto revê prazos, sonhos e planos no pior lugar possível para se viver quarentenado: o Brasil de Bolsonaro.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Pílulas sobre a quarentena</em> é montado a partir dos pensamentos vertiginosos de um professor de arte e de história que procura reorganizar seu cotidiano entre aquilo que era, o que poderia ser e a proibição de simplesmente continuar. Com o bom humor e a ironia ferina de quem permanece enjaulado enquanto o mundo convulsiona, o professor perdido empurra o leitor em um túnel escuro que se transforma em labirinto de onde não é mais possível escapar. Um diário contemporâneo em que se compartilham flashes de pensamentos incompletos sobre um mundo sem respostas prontas, e que desenha a cada nova notícia outra possibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Acompanhar diariamente o desenvolvimento desse personagem complexo em uma situação impensada foi equivalente a participar do nascimento de um gênero da expressão artística por escrito. Literatura que pulsa, da melhor qualidade, dentro da despretensão sincera de quem redescobre a realidade a cada post, como uma criança que transita da empolgação ao desespero quase sem se dar conta. Agora, em formato de livro, faz de uma história de solidão contemporânea a reflexão viva sobre como sobreviver em um mundo doente.</p>
<p><strong>Maurício Soares Filho</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Alimária</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/alimaria</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Dec 2021 15:12:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[contra a poesia — seu avesso
um poema (e o negativo)
debatido no chão (bulício
registrado uma sugestão) em
desespero o bicho nos burgos
esta metrópole que avança contra
a poesia um poema seu avesso]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Peixe, jumento, ave, cachorro, coruja, porca, bacurim, elefante, vaca, crocodilo, cobra, rato, rã, lagartixa, sapo, onça, barata, minhoca, pombo, siri, bode, hipopótamo, crisálida, tartaruga, gato, carijó, anta, araçari, urubu, abelha, galo, grilo, galinha, zebra, burro, pato, porco, ovelha, boi, carneiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses são alguns dos bichos que nos olham das páginas de <em>Alimária</em>, palavra que significa “animal irracional” ou “besta de carga” e, por extensão, “pessoa estúpida, grosseira”. Os sentidos dicionarizados revelam mais sobre as gentes humanas do que sobre bichos. Foram elas que definiram outras gentes segundo suas funções no sistema econômico.</p>
<p style="text-align: justify;">Vivemos ainda esse sonho de azar: capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a linguagem está cheia de tocaias. Aqui os poemas torcem os sentidos literal e figurado até que a gente compreenda: “ter minhocas na cabeça / sabê-la viva e adubada”.</p>
<p style="text-align: justify;">Em <em>Alimária</em>, gentes de toda espécie dão seus recados. Assim como são as pessoas, são as criaturas. O Mendiguinho surge e ressurge cantarolando o fim do mundo e Zé Doidim avisa: te alui. Bois deliberam sobre a fome. O poema terceirizado anda de busão, enquanto o poema sério esquece de onde vem o marfim com que fabrica sua torre. Um verso gritará “iêi ô putaria” nas ruas de Fortaleza; correndo como Iracema, Geni anuncia docinhos azedados pelo sol. De algum lugar próximo, no tempo ou no espaço, uma voz aconselha: “é ódio meu filho ódio / ódio o que te falta no coração”.</p>
<p style="text-align: justify;">Primeira queda do céu: o caçador se transformou em caça. E os xapiri, dançando para os xamãs no tempo do sonho, sustentam outro firmamento. Mas parte das gentes humanas se esqueceu desse tempo e segue destruindo os que não se enfeitiçaram pela mercadoria: segunda queda do céu.</p>
<p style="text-align: justify;">Pobre bichinho esse que não sabe mais sonhar. Às vezes podemos rir dele, rir com ele, rir de nós mesmos. Riso nervoso.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse mundo, o poema é o avesso da poesia: a alimária real está concretada nos muros da metrópole, como um fóssil.</p>
<p><strong>Suene Honorato</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>É proibido falar de amor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Dec 2021 00:20:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Compro seu voto!
À vista, a prazo! Compro!
Venda seu voto! Venda seu voto!
Diga: quanto você quer?
Vote
em mim!]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>amor, sujeito oculto</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Na mira de um século da semana de 22, esbarro na experimentação poética de Virgílio Magalde Azevedo, neste É proibido falar de amor. Começo citando-a não por acaso, já que o poeta carioca, em sua possibilidade e descobrir antropofágico, mergulha num desbocar linguístico que Oswald de Andrade nos escancarou há exatos cem anos.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre denúncias, protestos, piadas, Virgílio mescla vozes das primeiras gerações do modernismo, ao concretismo, neoconcretismo, geração mimeografo e outras tantas vozes deste hoje, a arquitetar o seu dizer. Em cinco partes (Tragédia, Comédia, Drama, Ficção Científica e Des-créditos), apresenta de forma ácida e aberta inúmeras nuances desses dias, interseccionando vozes – Drummond, Bandeira, Leminski, irmãos-Campos, Gullar, e este cearense que vos fala, cartografando dizeres inquietos às ruas, às redes (que apenas lá não cabem) e se espatifam por novos gritos, novos ditos, descortinando outras vistas – eis a poesia.</p>
<p style="text-align: justify;">Afirmando ser proibido falar de amor, Virgilio teima, e fala, não de forma entregue, mas dizendo de seu mundo, de suas vistas, de sua cidade, de seus dias, de seus des-saberes, por cá, o amor é perene, brincando de esconde entre versos.</p>
<p><strong>Mailson Furtado</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A era das manadas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Nov 2021 10:34:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Conduzidas
como animais de barro
em mansas fileiras
destinadas ao corte
mecânico
do instantâneo
levam palavras em excesso
a sacrifício extremo
com suas patas poderosas.

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uns lançam explosivos. Outros atiram versos. O autor deste livro joga a potência da poesia na água suja do nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">A palavra esvaziada a ponto de bala. A palavra, fúria revolucionária concentrada. A palavra, vômito na cara dos canalhas. A palavra, ponte entre existências.</p>
<p style="text-align: justify;">Todo poema é um ato político. Cada poeta, a seu modo, revela o jogo do poder e as marcas das lutas sociais de determinada época.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>A era das manadas</em> divide-se em três parte. Na primeira, o leitor é atropelado por um tropel plástico-perverso, o movimento de estouro de rebanho, tão poderoso que provoca a demolição de todo o ordenamento social. Reproduz-se o assalto ao poder por multidões instrumentalizadas pelo ódio, o símbolo maior da “ignorância ostentação”, a tropa de choque obediente a comandos espúrios, domesticada pelos donos do poder, avessa às ciências e às artes.</p>
<p style="text-align: justify;">Na segunda parte, “Zona de abate I”, podemos observar o acúmulo de forças necessário à explosão. Das expedições nazibandeirantes aos capitães do mato; do exército de ustras aos bolas-patriotas; do genocídio de índios ao massacre de quilombolas, o gado foi engordando. Até ficar a ponto de barbárie.</p>
<p style="text-align: justify;"> A “Zona de abate II” fecha o livro. Trata-se de pequena exposição do percurso inverso ao de manada, a luta por autonomia, a busca, às vezes desesperada, por oxigênio. E o modo brutal pelo qual muros, cercas, barreiras e governos liquidam as ilusões de liberdade.</p>
<p style="text-align: justify;">A leitura deste livro é de extrema relevância para captar o modo pelo qual a poesia reage às provocações desse tempo obscurantista.</p>
<p><strong>Karl Philipp Kamenzzof</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cartões de crédito para gastar no inferno</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/cartoes-de-credito-para-gastar-no-inferno</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Nov 2021 10:29:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Não satisfeito de acabar com a vida da mulher, desfigurou-lhe o rosto, retalhou o corpo. Depois, quis ultrapassar os limites da crueldade: enfiou a mão nos cortes profundos e arrancou dessas profundezas o coração da morta: tinha outro homem dentro dele.

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Olá!</p>
<p style="text-align: justify;">Você tem agora em mãos <em>Cartões de crédito para gastar no inferno</em> — textos em ondas curtas.</p>
<p style="text-align: justify;">Para utilizá-lo, você precisa desbloqueá-lo. Para tanto, vá passando e lendo as tantas páginas deste novo-velho livro, de novos e renovados temas, de Caio Junqueira Maciel, conhecido sonetista, ensaísta, trocadilhista, romancista, vasquista, contista, cronista, cruzili(ani)sta, artista: grande fazedor de artes em verso e prosa.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Cartões de crédito para gastar no inferno</em> oferece verdadeira pletora de referências (notadamente bíblicas), não tributadas em 30 dinheiros, mas creditadas nos 30 textos que compõem este volume, que, aliás, quase de cara, logo após o “prefácio”, já se inicia com o título “Proibida a entrada nas entranhas do Paraíso”, e termina com “O desmonte do Presépio”.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesses <em>Cartões de crédito para gastar no inferno</em>, vicejam a irreverência, o chiste, o lúdico, a anedota, mas, em meio — ou 2/3 — a isso, nesse tempo que se encontra partido, repartido, polarizado, em que símbolos obscuros voltam a se multiplicar, como já nos alertou Drummond, há a crítica incisiva, por vezes sisuda, contumaz e não raro mordaz. Como escreve um tal Bonifácio Acácio, no prefácio, o livro apresenta temática recorrente: “incomodar, assustar e até agredir a [incômoda] comodidade burguesa”.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas chega de cera nesta orelha! Como também escreveu Drummond, ela pouco (ou nada) explica. Melhor mesmo é ler esse autor — “espalhador de palavras”.</p>
<p style="text-align: justify;">Bem-aventurados os que agora açambarcam esses <em>Cartões</em>, pois neles serão bem embarcados e abarcados de sempre boa e prazerosa viagem pela literatura, organizada e praticada por Caio Junqueira Maciel.</p>
<p style="text-align: justify;">Gilberto Xavier</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Mentiras e outros pequenos furtos: um inventário da verdade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Jun 2021 17:27:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Como agir e me portar...
O que era certo ou errado...
O que podia e não podia...
O que era sagrado e o que era pecado.
E eu não entendia... ao certo...
Mas fazia o que me pediam...
Sempre me vi como uma fonte da mais pura e intensa energia]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“A noite não adormece nos olhos das mulheres”</p>
<p style="text-align: justify;">Há um texto da escritora Conceição Evaristo. Chama-se “A noite não adormece nos olhos das mulheres”. É um poema que não me deixa dormir, escrito por ela em homenagem à historiadora, roteirista e poeta Beatriz Nascimento. Duas forças que nos atravessam com o poder convocatório que só a poesia encarnada é capaz de fazer. Essas duas mulheres são assim. Escrevo aqui pensando no encontro entre mulheres em atos criadores. São tantos, inclusive invisíveis, do tipo que permitem que o mundo continue existindo. Não precisamos gritar, embora possamos. Nós agimos. Tem sido assim. Realizamos, nós mesmas, entre nós, mas servindo ao coletivo. Há alguns anos, fui convidada para falar em um evento chamado ZONA lê dramaturgas, organizado pela dramaturga Maria Giulia Pinheiro. Ali, conheci colegas e fiz amigas. Tratava-se de um evento com dramaturgas falando sobre seus processos de criação. Algo tão raro, que todas realizamos falas entusiasmadas. Não porque não falássemos antes, mas daquela vez, veja só, a sensação era de que, finalmente, estavam mesmo nos ouvindo. Depois que você conquista a sua voz pública, não consegue parar de falar. Porque ouvimos muito, há milênios estamos ouvindo e falando sem escuta, mas sem perder o ânimo. Aparentemente, este livro apresenta os trabalhos de um Núcleo de Dramaturgia Feminista INDEPENDENTE, que reúne mulheres com o objetivo de ler, debater, refletir e criar dramaturgias. Mas, na verdade, esse núcleo é uma incubadora de vozes públicas. Porque nascer sem dor é quase impossível, por isso um ambiente acolhedor e amorosamente rigoroso se faz imprescindível. Intuo que esse Núcleo seja assim. Audre Lorde, uma das autoras estudadas por elas, nos lembra que “o silêncio não vai nos proteger”. Por isso, estes textos aqui presentes são uma espécie de Caixa de Pandora aberta em pleno século XXI, em que a esperança, de fato, pode ser o grande mal liberto, uma vez que o excesso de positivismo também mata. Por isso, é importante ler dramaturgia, textos criados a partir de um exercício de encontro com outras forças, tabus, segredos, malefícios, mentiras que sempre esconderam grandes verdades. Há lugares onde a fragilidade constrói força. A escrita é um deles. Que possamos ouvir estas vozes, cientes da importância do lugar que elas criam. Ouçamos. Falemos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Dione Carlos</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Grand-tour</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Jun 2021 19:02:16 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[na parede do apartamento,
fixadas com fita adesiva,
fotografias dos objetos ausentes.

no centro do mosaico quadrangular a imagem
de uma mesa.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O presente livro é um convite a viagem: <em>Grand-tour</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2014, um grupo de nove artistas mobiliza-se a residir durante três meses nos arredores da <em>Alfinete Galeria</em>, na cidade de Brasília. Essa investigação-vivência <em>entorno</em> da galeria desdobra-se em muitas paisagens, um processo-território tecido por escritas, imagens e afetos que resultam em uma exposição, um livro e em um grupo de pesquisa, o coletivo <em>Vaga-Mundo: Poéticas Nômades</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">A presente publicação de <em>Grand-Tour, </em>este <em>diário de bordo / livro de artista / relato de viagem</em>, permite que o que outrora fora um exemplar único sonhe-se múltiplo e possa dispersar-se por todos os cantos (não seria essa sua [con]vocação?). Afinal, o encontro com um livro, tal como com uma paisagem, é sempre fortuito, sempre um acontecimento feliz. Diz-se “paisagem” como quem diz “encontro”; a leitura e a viagem são cúmplices nessa poética do deslocamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao abrir esta estratigrafia de páginas, enuncia-se e engendra-se uma viagem em múltiplas espessuras. Deve-se sempre tatear um livro, sentir sua sutil aspereza, sua superfície fibrosa, e trazê-lo à fronte, até sentir seu aroma, até fazer da leitura um exercício de vertigem. Toda página prepara horizontes na cisura de sua encadernação; toda noite do livro sonha-se à aurora da leitura.</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro é, por fim, um convite e uma convocação: podemos também viver na aventura de um nomadismo poético, podemos também habitar essas topografias imaginadas no tempo de sua contemplação. Desvelar, da leitura, sua condição de <em>vaga mundo: </em>virar a página, viver distâncias, quem sabe voltar.</p>
<p style="text-align: justify;">Um convite generoso: habitar o entorno, estar junto, redescobrir-se no deslocamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Boa leitura!</p>
<p style="text-align: justify;">Boa viagem!</p>
<p style="text-align: justify;">Bom encontro!</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Antígona morreu então preciso falar com você</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/antigona-morreu-entao-preciso-falar-com-voce</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Jun 2021 17:14:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Alugo espaçoso quarto mobiliado, local tranquilo e silencioso com banheiro individual, ar-condicionado, luz, gás, net e wi-fi inclusos no preço, cozinha, lavanderia e entrada independente. Total privacidade, em uma casa localizada bem no centro de Tebas. Espaço grande demais para uma pessoa só. Sem pets, não aguento perder mais ninguém. Preferência por órfãos e/ou filhos únicos.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A tragédia de Antígona começa com um decreto de Creonte que proíbe o enterro de Polinices, seu irmão. Antígona quer obedecer a outra lei, mais antiga: a lei dos deuses mais antigos, honrar o irmão morto e enterrá-lo. A tragédia começa com Antígona contando seu plano a Ismênia, fora do palácio. Ismênia teme o destino da irmã, mas não participa da ação. Antígona vai sozinha.</p>
<p style="text-align: justify;">Final de abril, início de maio, 2020. Estávamos lendo <em>Antigonick</em> de Anne Carson — a sua tradução para a <em>Antígona</em> de Sófocles — enquanto o Brasil vivia o início da sua experiência catastrófica com a pandemia do coronavírus.</p>
<p style="text-align: justify;">Os curtos-circuitos que Anne Carson promove na história da recepção de <em>Antígona</em> e sua tentativa de correspondência entre o real e o ficcional (Carson faz uma carta endereçada à personagem; o grito de Antígona chega aos nossos ouvidos) fabricaram a energia que desembocou no desdobramento de nossa leitura em uma série de cartas: para Antígona, para a sua irmã, Ismênia, para Hêmon, mas também para amigos e familiares, contando da tragédia, tentando conversar sobre a necessidade de se enterrar os mortos.</p>
<p style="text-align: justify;">O que estamos fazendo aqui? Alguma coisa híbrida, mas não sabemos bem o que é.</p>
<p style="text-align: justify;">Antígona (agora nós também estamos falando com você), você foi enterrada viva enquanto ainda estava gritando, e nós estamos encostando os ouvidos no chão.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Toda-mulher-vaga-lume</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Jun 2021 15:45:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Provava o absurdo
A saudade de si
Gritou
Um nome
O próprio nome
Até perder a voz
Até não ter mais nada
Só amor]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando concluí a leitura de Toda-Mulher-Vaga-Lume, eu me recordei de um livro que relera há pouco tempo e permite comparar dois panoramas literários distintos, extraindo algumas considerações. De Júlio Ribeiro, “A Carne&#8221;, é um romance que, publicado em 1888, escandalizou a sociedade e atraiu a ira da igreja, ao apresentar temas até então ignorados pela nossa literatura, como a independência da mulher, divórcio e o amor livre. Polêmico e alvo de curiosidade, o livro esteve entre os mais vendidos durante décadas. Era comum ser comprado em segredo, muitas mulheres foram impedidas de ler ou, quando obtinham permissão, as páginas consideradas impróprias eram rasgadas. No entanto, em 130 anos, essa “obscenidade” perdeu o viço, revelando uma drástica mudança de comportamento que durante séculos permanecera incólume e, se é inegável o quanto foi difícil esta caminhada, também é notório que há um longo percurso a ser vencido. Prova é a possibilidade — o lugar de fala — e a dificuldade — a crise do mercado editorial — para publicar este livro. Reunindo 15 escritoras e 70 poemas, ele versa sobre o universo feminino, em especial, sobre as implicações da subordinação de gênero, isto é, a assimetria de poder nas relações entre homem e mulher não importa que ela seja de foro íntimo ou esteja inserida num contexto social, político e econômico. Exibindo estilos diferentes, algo que enriquece a seleção, os poemas compilados trazem à tona inúmeras situações. Tomando de empréstimo o abecedário, elas vão do <em>a</em> de abuso até o <em>v</em> de violência para expressar nossas mazelas e, sobretudo, nossa força para resistir e transcendê-las. Porém, Toda-Mulher-Vaga-Lume não é um livro destinado apenas ao público feminino. Ele irá agradar a todos que apreciam poesia e desejam conhecer o trabalho de autoras que escrevem de forma independente, mas que se conectam e se completam por meio do grupo As Contistas.</p>
<p><strong>Leila de Carvalho e Gonçalves</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>As Bruxas de Blergh</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Jun 2021 14:20:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Fassa uma silhueta
humana em um pano
dobrado. Não vale
pano de roupa
usada ssenão volta pra
vosssssseeeeeee!]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Existe uma velha canção infantil, provavelmente de origem ibérica, que entre seus versos enumera as qualidades necessárias de uma mulher: <em>que saiba costurar, que saiba bordar, que saiba abrir a porta para ir brincar</em>. O último e mais importante requisito que a moça tem que ter é &#8220;saber abrir a porta para ir brincar&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">A frase, que soa indiferente para as crianças, desperta inquietude a medida que crescemos e procuramos algum sentido nela. Julio Cortázar intitula assim um ensaio publicado em <em>Ultimo round</em>, onde trata do erotismo na arte latino-americana. Para ele, em uma viagem teórica que é um manifesto à vida, disso se trata:  <em>abrir a porta para ir brincar</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">As Bruxas de Blergh sabem abrir as portas para ir brincar, entre nervuras de palavras e peles, atacam, com humor, bispos e machos alfa, os alvos móveis deste tempo de horrores e vão escancarando portas numa constelação de signos toscos porém palpitantes.</p>
<p><strong>Maria Angélica Melendi</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Fazia calor e usávamos máscaras</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/fazia-calor-e-usavamos-mascaras</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Jun 2021 13:55:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Estávamos tomando banho juntos e, logo depois que saí do box, Miguel me pediu para voltar. Ele queria me mostrar algo.
— Mamãe, esse ovinhos que tenho aqui são iguais aos da galinha!]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este é um conjunto de escritos diversos que paradoxalmente não se leem como um livro de contos de vários autores, por exemplo. Ele tem muitas vozes, formatos diversificados, mas que vão se enredando e formando um só tecido (uma teia?) de texto e imagens. Nas manifestações subjetivas, o trivial, rotineiro, o invisível da vida cotidiana vai subversivamente se travestindo em relato exemplar. Sua abordagem — que se supõe ser um certo imiscuir-se no universo do outro (como em uma carta roubada) — torna-se uma proposição de tipos humanos nos quais nos reconhecemos (e essa não é a qualidade dos diários de escritores que nos capturam?).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Marília Panitz</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>Lutas e lentes: retratos da resistência</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/lutas-e-lentes-retratos-da-resistencia</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Jun 2021 13:34:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na essência das fotografias há muitas analogias com literatura e psicologia, mas ao meu ver, tem primeiro, vozes que foram reprimidas por muito tempo e que agora estão vivas, e livres, e que nas fotografias continuam indagando e exigem nossa resposta, no momento exato em que olhamos pra elas. Citando agora a Larissa Luz (em <em>Descolonizada</em>), “Liberdade é não ter medo”, e a principal mensagem das fotos é essa, essas pessoas não têm medo. As fotos são a própria alegoria da coragem; as causas estão vivas, esperando pelos bravos. E nós, que agora, com o livro em mãos, olhamos tudo — parados e mudos?</p>
Lucas Grosso]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quadros em declosão</p>
<p style="text-align: justify;">A declosão-do-Mundo começa aqui dentro&#8230; Declodir o olhar como experiência de abertura, retirada e destruição das molduras e enquadramentos criados pelo Mundo-Branco&#8230; Derrubada das cercas e retirada das clausuras.</p>
<p style="text-align: justify;">Inventar molduras que transgridem e ao mesmo tempo quebram a lógica de repetição do olhar hegemônico colonizador. A arte de mostrar e esconder sem fixar a imagem dos corpos, interromper a narrativa que cristaliza e persiste durante a História. Pois, conforme Jota Mombaça e Musa Michelle Mattiuzzi, “a visibilidade é uma armadilha e a representação é um beco sem saída”. Recriar as nossas existências, inventar rotas de fuga em meio às múltiplas lógicas de capturas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por sua vez, as insurgências e revoltas ao longo da história do Brasil nos conta dos Malês, dos guerreiros Tupinambás, Anacés, Tupiniquis, Cariris&#8230; Os protestos espalhados pelo Brasil nos últimos dois decênios revelam as múltiplas faces do poder, da dominação e das formas de resistências por meio dos enquadramentos das teleobjetivas, angulares, macro, olho de peixe, olho por olho&#8230; Comprova, inclusive, que o monopólio da violência-legítima e simbólica é Branco. E que a noção de ‘não-violência’, por sua vez, é uma criação da situação colonial. O Mundo-Branco como essa força motriz colonial-capitalista-heteropatriarcal inventora do Outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das funções da violência colonial no Brasil contra corpos-negres, dissidentes de gênero e empobrecidos sempre foi, por um lado, esvaziar o passado e impedir seu futuro por meio de floreios e perspectivas românticas da negação de sua verdadeira face genocida e extrativista e, por outro, perpetuar o desejo de exploração e a tentação de eliminação de populações inteiras. Ela se manifesta, inclusive, por meio da noção de ‘não-violência’ — face colonial onde a “paz” mais parece ter a forma de uma “guerra permanente”. A produção da vida, portanto, só pode surgir do cadáver em decomposição do Mundo-Branco.</p>
<p style="text-align: justify;">A violência-emancipadora é a forma que os corpos-encurralados têm para responder às imagens coloniais reencenadas na contemporaneidade: lógicas dos Navios</p>
<p style="text-align: justify;">Negreiros, da Plantation e do Cativeiro. Nas palavras de Achille Mbembe, a violência-emancipadora trata-se de “dar a morte àquele que se habituou a jamais a receber, mas a sempre a ela submeter outrem, sem limites e sem contrapartida”. É preciso impor, por meio da violência, uma redefinição e distribuição da morte. Ainda assim, a violência-emancipadora não estabelece uma simetria de poder entre os corpos, mas abre possibilidades do sujeito historicamente prostrado erguer-se por meio daquilo que Frantz Fanon chamava de “práxis absoluta”.</p>
<p style="text-align: justify;">A inauguração de uma vida possível no em-Comum: o fato de sermos cada vez mais convocadas e convocados à questão central de nosso tempo: “abrir-se ao outro sem asfixiar o eu mesmo”, como nos desafia Édouard Glissant. A possibilidade de um bem-comum passa pela inevitabilidade da violência como um dos fenômenos da descolonização material, portanto, relacional deste Mundo-Branco que separa “nós” e “eles”.</p>
<p style="text-align: justify;">Cada fotopoética contida neste livro é um elogio aos quadros em declosão, um exercício cotidiano de um olhar-opositivo. É uma rasura e uma brecha possível na afirmação insurgente de uma pluralidade e a necessidade de borrar fronteiras, habitar encruzilhadas com fogo e lentes. Enquadrar sem fixar. Fotografar constitui, ainda, a ação de pixelar os mosaicos das múltiplas trincheiras de luta e ao mesmo tempo aquarelar os rostos, deitar água como tática de desaparecimento e sobrevivência às miríades formas cotidianas de enclausuramentos.</p>
<p><strong>Rômulo Silva</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Cabra marcada para morrer</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 05 Jun 2021 12:22:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[não sei quantos minutos
são três e dez
quase hora de bater
o sino
quase hora de voltar
no tempo
chacoalhando os ponteiros
recém-conhecidos
mas tia Cátia não ensina nada sobre isso
o relógio só anda pra frente
a mão só anda pra dentro]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Eu e Paula trocamos cartas de amor há anos. Com ela, descobri que uma mulher nunca escreve sozinha. Construímos uma relação a partir do pequeno gesto de bravura que é tirar um poema da gaveta de calcinhas. Aos poucos, fomos revelando, uma para outra, nossas palavras abafadas. Tirar do armário, pedir licença, ler em voz alta, descobrir que não é preciso pedir licença, ler de novo. Com Paula, descobri que todo encontro de palavras é singular, todo encontro de palavras é ritual. Em <em>Cabra marcada para morrer</em>, a singularidade desse encontro está nas palavras que carregam ideias de fogo — e elas estão, sim, disponíveis para serem deslocadas conforme o manejo poético daquela que se aventurar.</p>
<p style="text-align: justify;">Onde é que a língua torce? Quem falou primeiro? Quem segura o lápis? Paula retorna ao gérmen das estruturas de opressão para encontrar em que ponto a engenharia patriarcal começa a se reproduzir. Em qual bifurcação perdemos a mulher? Qual foi o mito original que aprisionou a deusa? Qual foi a oração que sacralizou o hímen? É no manancial da história que o lirismo de Paula busca embalo para correr solto. É chafurdando a origem das palavras, se perguntando a origem das imagens, recorrendo às fundações, que Paula pinça os símbolos que deseja subverter, preenchendo sua poesia de imagens profanadas e impossíveis.</p>
<p style="text-align: justify;">A metáfora da água como símbolo do feminino também é pervertida nesses versos: a água que corre não é a imagem romantizada da mulher como um rio, mas a imagem da água suja do bueiro obstruído. As águas em <em>Cabra marcada para morrer </em>são as águas poluídas de séculos de repressão e de incessante violação de um ecossistema. Mas a poesia de Paula nos lembra de algo crucial: se essas águas imundas estão confinadas nas tubulações de aço ou de plástico (atrás de todas as paredes de todos os prédios), se essas águas imundas precisam de uma estrutura pesada de ferro para serem contidas (debaixo de todas as avenidas), é nessa contenção que elas também encontrarão força para romper o cimento e o asfalto. E explodir. <span style="color: #ffffff;">Paula Dias Conrado</span></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Incidente ofídico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Jun 2021 20:10:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[No final de março de 2020, éramos novíssimos.
O apocalipse chegava de longe, estrangeiro.
Exótico o vírus, sempre familiar a tragédia.
Mas eram cheias de novidade as paredes:
os olhos projetavam hologramas no teto da casa.
Dava quase a sensação de escapar, um dia —
que seria hoje, que hoje, antiquado,
já não tem mais remédio, não.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Atenção! Antes que se resolva adentrar estas páginas, é prudente saber: este livro não é como um livro qualquer. Trata-se de um livro-experiência, que pede do leitor uma urgência visceral. É também um livro-testemunho: um afirmar que se esteve viva frente aos escombros de um mundo em decomposição.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao transver o mundo, Gabriela dá legitimidade e força a tudo que pede passagem e, assim, nos convoca a honrar o que nos atravessa e o que é em nós travessia. Ao conhecer precipícios e percorrer labirintos, chega à borda de seu corpo-território. E dá de presente, a nós que estamos do lado de cá do espelho e passamos para dentro dos seus textos, o compartilhar de um percurso existencial que busca o encontro consigo mesma, mesmo que nunca a mesma, numa viagem de volta a um mundo de singelezas. Neste percurso, ecoa uma voz — imperiosa — que vem de longe. A partir daí, tudo passa para dentro, por dentro. Nesse encontro almado, saímos todos ganhando: ao mesmo tempo em que somos chamados a testemunhá-la por meio de suas narrativas poéticas, vamos sendo legitimados em nossas experiências mais profundas, invisíveis a olhos desatentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Gabriela possui uma estranha lucidez que parece estar a serviço de um chamado a olhar e ver, a viver sem anestesia os desenrolares dos fios da vida e os traduzir. Ninguém melhor do que ela sabe nos contar daqueles momentos em que, num piscar dos olhos cotidianos, a vida se recolhe ao profundo de si e não é possível mais apreendê-la. Estados limiares que fazem de nós habitantes da orla da vida, momentos em que se abalam nossas afetações identitárias. Partida do ser. Angústia do ir-se <em>des-tecendo</em>. Êxtase por tocar o invisível da vida, com todos os possíveis devires. O instantâneo da metamorfose do desejo e do olhar.  Gabriela faz com que a solidão desses momentos indizíveis seja muito bem acompanhada. De presença e palavras e sentidos. É desse caldeirão que sairá tudo que fundamentará outros mundos possíveis. Mundos onde se existe. Plenamente e com força.<span style="color: #ffffff;"> Gabriela Ruggiero Nor</span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Carmen Livia Parise</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A vós</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Jun 2021 19:55:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Declara-se
aqui
uma
nova destruição
de propriedade
da mulher-objeto
da bela
da história de repressão
obscurantismo
ocultamento]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Duas netas<br />
Duas avós<br />
Um abraço</p>
<p>Para todas as ninguéns<br />
que já foram cerne,<br />
raízes e troncos fortes<br />
Para todas as flores, frutos<br />
e alguéns que só foram possíveis<br />
com as regas do passado<br />
Aqui, a junção de duas ninguéns<br />
que combinadas seivam<br />
fortes potências e afetos<br />
e alguéns<span style="color: #ffffff;"> Laís Auler e Lívia Auler</span></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>haja haja!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Jun 2021 19:05:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[cada ser
é um novo mapa
com novos horizontes
de possibilidades
bem maior que si]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Da ansiedade ao zelo, o sarau se faz diante dos olhos: com cada um trazendo seu melhor poema: a poesia se completa na verdade do poeta seguinte. Se o barco de Thays Pantuza &#8220;navega onde transborda&#8221;, é porque, assim como Camila Marques, ela é &#8220;um todo que grita&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;A arte é um grito de desespero&#8221; escreve Daniel Ribeiro. Num livro chamado &#8220;Haja haja!&#8221;, um verdadeiro grito de guerra: cada um com suas palavras, temos aqui vozes  que clamam e pouco a pouco, um de cada vez, vamos nos sentindo parte do roteiro: é impossível estar só em poesia, é impossível não ouvi-la cada vez mais alto: &#8220;não estou sozinho. não estamos.&#8221; nos lembra danilo crespo.</p>
<p style="text-align: justify;">O conjunto é atual e se faz presente: enquanto vivemos um momento de lonjuras e telas de computador, o coletivo Com Versar se une e nos traz para dentro dessa união sem desobedecer nenhuma regra de distanciamento social. Quando podemos perceber o caleisdoscópio de palavras que se forma, é notória a riqueza de vida que nos rodeia: &#8220;a que será que destina o peito aberto?&#8221; indaga Jaci Carioca Sampaio. Ora, o coração do outro, o de Pedro Lopes, é &#8220;um enorme leão&#8221; que ruge e o meu ruge junto.</p>
<p style="text-align: justify;">Haja haja! é uma celebração da fartura do que nós possuimos mesmo que isso signifique desespero.  A materialização de uma potência muitas vezes esquecida numa gaveta. Poderia ser nada, é muito mais fácil ser absolutamente nada, nunca ter existido. E, ainda assim, fez-se tudo: a risada e também a profunda reflexão. É claro: &#8220;precisamos daquilo que faz doer&#8221; aponta  Alex Moura, afinal, &#8220;a vida é um sopro&#8221; já nos disse Cecilia Guimarães no primeiro poema do livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Poesia. Resistência. Vida. Calar-se jamais.</p>
<p style="text-align: justify;">Haja haja!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Henrique Fonseca</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Quam sacer cruor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Jun 2021 18:38:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Avós.
Mulheres fortes, mas silenciadas.
O silêncio não é vazio.
Ele é parte da interação humana
Se for integrante do discurso.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Este livro traz o sentimento e a sensibilidade de 13 mulheres poetas que, cada uma à sua maneira, fazem eclodir da alma um brado de feminismo e liberdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Do olhar entre cortinas, vendo hibiscos florescendo (<strong>Araci</strong>) ou o azul do céu, o verde das árvores e o canto dos pássaros (<strong>Shirley</strong>), clamam por verdade e justiça, ao mesmo tempo em que querem afago e flor para amenizar a dor (<strong>Maristela</strong>).</p>
<p style="text-align: justify;">São poesias que falam de heroínas violadas, com a alma encharcada do oceano dos olhos (<strong>Rita</strong>), e que tiveram seus sonhos siderais interrompidos (<strong>Elciana</strong>), tal como Medusa, bela sacerdotisa grega que, por ceder aos assédios de Poseidon, recebeu como castigo transformar em pedra quem ousasse para ela olhar (<strong>Susan</strong>).</p>
<p style="text-align: justify;">Os seus poemas escancaram a luta incessante pela liberdade, pela busca ao respeito, ao mesmo tempo em que revelam a suavidade da alma das mulheres, que cantam nas asas da poesia (<strong>Rosa</strong>), e também a sua força e determinação. Seja Verônica, a amazona leviana, que arrisca a sorte sobre um cavalo em disparada (<strong>Dani</strong>), ou a diva, que joga os tamancos na parede e canta, desafiando o seu homem (<strong>Rosana</strong>).</p>
<p style="text-align: justify;">Num tempo em que desaprendemos o sabor dos abraços, umas aprendem a fazer pão <strong>(Neysi</strong>); outras são donas de casa “com orgulho”; e ainda há as que sonham com o príncipe encantado, enquanto lutam pelos seus direitos (<strong>Francine</strong>).</p>
<p style="text-align: justify;">São mulheres que plantam sensibilidade, acertam e erram (<strong>Laura</strong>), mas não desistem nunca de resgatar a deusa que existe em cada uma (<strong>Carla</strong>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nanci B. de Lara Reis</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Posfácios</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/posfacios</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Jun 2021 18:03:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Como se fosse em mim a tua ferida,
curada
na poesia silente
do nosso amor imutável,
centauro e mulher.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O que estamos vivendo é inimaginável, mas é inconcebível o quanto temos nos deixado dividir e desarticular. Está aí um micro-organismo, letal aos pulmões, deixando claro que é a mão invisível que nos sufoca, desorienta, arranca-nos órgão por órgão, membro por membro. Lamentável ver que muita gente não dá por isso. E estando nesta grande caixa de Pandora encontramos a Literatura, que substanciosa e perenemente nos irriga. Esta publicação literária que agora você toca, olha, ouve, sente é uma oferta sinestética e coletiva que lhe é feita.</p>
<p style="text-align: justify;">Dois anos atrás, os brasileiros Anderson Antonangelo, Vitor Varella e Taynnã Santos encontraram-se num bar da cidade de Braga e fizeram de uma epifania pedra fundamental, materializando ali o que como tríade já eram: um coletivo. Impulsionados os três pelo fôlego do encontro, foram com olhos atentos, e mãos dispostas, forjando o <em>Sinestéticas</em>; já de pronto perceberam a urgência de intersecção com outras vozes, outros compassos, indo além da combinação que o termo que os nomeia prescreve.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo o trio de brasileiros deu por estar num tecido conjuntivo maior: uma miríade. Em apenas dois anos, foram publicados na página do coletivo trezentos textos de artistas de distintos continentes, que mesmo com a distância física uniram-se pelas artérias digitais, e a ideia de uma antologia era nelas cada vez mais irrigada.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora, através do reconhecimento da Editora Hecatombe, o <em>Sinestéticas</em> vê viabilizada a <em>Posfácios</em>, antologia poética, uma publicação internacional que traz textos inéditos de nomes que nossos olhos e ouvidos assimilam facilmente, bem como as produções de autoras e autores cujos nomes e expressões começam a se fazer ouvir, mais, a partir dessa reunião de textos. Que neste tempo de obstruções emulemos a natureza das antologias, sobretudo organizando e ativando nossos membros: veja o exemplo de um poeta brasileiro de dois séculos atrás, que num verso lapidar já convidava a toda a gente a apedrejar mãos vis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>David Medeiros</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Leoa</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/leoa</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 May 2021 17:53:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“Tampe ou ouvidos”, ele disse. “Mulher não pode ouvir essa palavra”. Minha voz percorreu as inquisições da minha mente e saiu expulsa das minhas entranhas quando respondi: “Está tudo bem, eu vivo no mundo há vinte anos, sei o que são palavrões e não tenho medo deles”. Um silêncio acompanhou o olhar arregalado dele para mim. Irritou-se, foi embora. Viu? Revolução. Evolução.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Leoa é um livro sobre mulheres que sangram e sobrevivem. Escrito para desengasgar revoltas, os contos aqui reunidos mostram a saga daquelas que carregam no ventre a dor e o amor da existência. Pretende, de certo modo, emergir como um propulsor de micro-revoluções poéticas que sejam capazes de acordar vulcões adormecidos.<br />
Aqui se encontram mulheres corajosas, mas machucadas, que tiveram sua calmaria invadida pela violência de um sistema muito bem arquitetado para aprisionar. Doloroso, potente e poético, é um manifesto pela liberdade de viver em paz em vez de morrer em paz. <span style="color: #ffffff;">Larissa Merlo e Letícia Merlo </span></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Nanuscritos fictício-filosóficos</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/nanuscritos-ficticio-filosoficos</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 May 2021 17:34:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[(acorde)

&#160;

Ele, o ponto de tensão dela.

Ela, a escala pentatônica dele.

Foram assim, cantando.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Breve e lancinante são palavras prováveis para aproximar o espírito do nosso tempo à ideia que faço de escrever com o mínimo. O mínimo é o talvez possível, o talvez visível, quando o grande se torna invencível. Quis experimentar, como num laboratório, tirar o verbo, descobrir o adjetivo (deixá-lo nu!), usar o substantivo como predicado inteiro, a ambiguidade como brincos. Fazer do sujeito verbo, assaltar do sujeito que agora é verbo o objeto intransigente e ver o que sobra. Trocar de lugar, de sentido, a oração e o pensamento, a ver se com isso o sujeito termina menos determinado. Testar a resistência do que não é dito. A palavra manca, o capítulo cxxxix que Brás Cubas não teve. O resultado são textos de buraco de agulha (meio prosa bem passada, meio poesia crua) que, com sorte, furam aqui e aí, para então costurar.<span style="color: #ffffff;"> Elenice Zerneri</span></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Uma baleia nunca dorme profundamente</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/uma-baleia-nunca-dorme-profundamente</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 May 2021 12:01:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[li uma vez que
em algum outro lugar do mundo
perguntaram a um marinheiro qual seria
o castigo divino para alguém que
matasse uma baleia
e ele respondeu que esse castigo
não existe afinal
ninguém mata
baleias]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma mulher enquanto baleia, a baleia enquanto carro popular e o carro, máquina: tudo precisa de máquina para existir. Entre o que queremos esquecer e o que precisamos resolver, Lilian Sais acumula metáforas e reflexões no intuito de encorpar a discussão sem nunca oferecer respostas prontas, pois o que nos entrega é poesia de qualidade sobre temas urgentes.</p>
<p style="text-align: justify;">A leitura adulta de experiências de infância, o cerceamento ao redor da construção de uma identidade feminina, redes sociais e o fazer poético: seção a seção, nada escapa à autora cuja imaginação passa por deduzir que baleias poderiam dirigir de olhos fechados até chegar à conclusão de que toda imagem é um lugar do qual falamos sempre em língua estrangeira.</p>
<p style="text-align: justify;">A baleia amarra os temas do livro, de solidão a autoimagem, enquanto poeta e poetisa se preparam para um duelo de repentes. Da soberba do vinho à crueldade das dietas, este livro é lugar de clamar que o mar tem fim, sim, e discutir o preço da morte e da vida.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Leandro Rafael Perez</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Não alimente a escritora</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/nao-alimente-a-escritora</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 May 2021 12:45:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Sempre há brisa
nas manhãs
livres de tapas.

Sorvo,
nas vísceras,
essa década.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Telma Scherer e a poesia aprisionada</p>
<p style="text-align: justify;">Na Feira do Livro de 2010 em Porto Alegre, ela foi presa pela Brigada Militar sob a vaga acusação de perturbar a ordem pública durante uma performance. No dia em que a prenderam, disseram que ela não tinha, que não era, que nada tinha sido, que ela não tinha nada. Ela era um corpo, um obstáculo que perturbava as compras e as vendas na Feira do Livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Escoltada por dez policiais e duas motocicletas, ela foi presa. As câmeras apontaram para ela como as escopetas que impediram sua liberdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa prisão, mais de dez anos depois, ainda permanece. O dia que nunca terminou, cercado de leitores de bestsellers, aqueles que têm um teto sobre suas cabeças, poltronas confortáveis, que se perguntam que crime ela cometeu, porque se ela foi presa, deve existir uma razão.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela &#8220;atrapalhava&#8221; a Feira, porque estava numa casinha de cachorro, sobre um cobertor vermelho onde havia livros. E um cartaz na entrada da casinha: &#8220;Não alimente o escritor&#8221;. Onde a escritora estava acorrentada, tão rodeada de liberdade e espaço, de literatura, de papéis pintados, no meio da praça. Então a levaram.</p>
<p style="text-align: justify;">E essa prisão foi a continuação, não o fim do espetáculo. Tinha começado muito antes, quando ela começou a produzir arte, poesia.</p>
<p style="text-align: justify;">Aquele dia continua, e vem de sempre, como agora. Vem da liberdade ilusória de falar e de ser ouvida quando ela tenta dizer que o show acabou, para que eles possam ir se refugiar em seus best sellers ou votar em Bolsonaros.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta prisão é a da artista e sua obra, de sua atitude e seu significado. Está também presente neste livro, nesta poesia livre e agredida, como a vida. Nestes dias em que uma mulher é presa a cada momento. Nestes tempos em que a liberdade é poesia, na performance de uma existência plena, livre e solidária. E neste livro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fernanda Melchionna</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>A flor é a pele</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 May 2021 12:29:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[tem gente que não passa da comissão de frente
perde todo o espetáculo
os garis no final
as musas dos carros
as fantasias
a bateria
e alegorias quebradas
ego de vidro não passa
não banca <span style="color: #ffffff;">Luana Galoni</span>

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>é a pele o maior órgão do corpo,</p>
<p>por onde percebo esse mundo lascado,</p>
<p>das dores doídas,</p>
<p>dos amores amados,</p>
<p>dos sorrisos escancarados,</p>
<p>e das lágrimas fazendo sua rota pelo rosto.<br />
preta,</p>
<p>marcada,</p>
<p>trajada de histórias,</p>
<p>minhas e de outras,</p>
<p>de um corpo que não termina,</p>
<p>nem começa aqui.</p>
<p>dessa pele que,</p>
<p>por hora,</p>
<p>cobre 1,62 m</p>
<p>das cutículas finas aos lábios,</p>
<p>os dois.<br />
vejo pela pele,<br />
escrevo pela pele.<br />
sinto pelos poros,<br />
e sem culpa.<br />
sinto muito,</p>
<p>e isso nunca foi uma desculpa,</p>
<p>porque a flor é a pele.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Esse sangue não é de menstruação, mas de transfobia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 May 2021 16:38:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Será o desejo por voar ou apenas esse zumbido estancar? Fica na ponta do pé, segura um salto nas largas mãos. O corpo é comprimido pois não deseja esparramar-se alguns andares abaixo, no chão.
Mas ouvir esse zumbido, esse som que cresce no seu corpo ouvido, Ela não aguenta quer. Então voaremos, assim como voa uma bela e atordoada mulher.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Eu ouço Ela cantarolar. Já ouvia antes d´Ela começar a caminhar. Ela era outra, ao mesmo tempo em que era ela mesma. A sua jornada, como de toda pessoa trans, não foi de si para o mundo, foi do cenário exterior para o seu próprio interior, descobrindo-se ao mesmo tempo em que se compunha. Atriz de sua peça, protagonista de sua vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Canções de outrora abafadas pelo barulho da contemporaneidade. Maria Lucas escutou as vozes ancestrais e contou a Ela, afetando-se-lhe.</p>
<p style="text-align: justify;">A sagaz escritora confere a Ela uma capacidade ímpar de compreender o quanto de subalternizante pode haver em atos aparentemente gentis da cisnormatividade. Ela pergunta a quem a lê: quais são os limites da sua sororidade? Até que ponto não se resume a um gozo ante à dor alheia? O que significam “casa” e “família”? Por que o sofrimento afligido a esta corpa lhe importa menos do que a uma mulher cis? Por que você fala em amor mas a deseja apenas como objeto sexual?</p>
<p style="text-align: justify;">Estas não são questões exóticas, são universais. A fábula fala de ti também, não importa a sua identidade de gênero, mas qual papel você encena? Gênero são óculos que foram colocados no rosto de todo mundo, mas poucos sabem que o usam.</p>
<p style="text-align: justify;">Através de quais lentes você enxerga o seu próprio mundo? Um microscópio que nos reduz a bucetas e paus ou um telescópio que nos alcança nas constelações?</p>
<p style="text-align: justify;">O fato de estar cercada de artistas de forma alguma a isola da transfobia ou lhe garante um abraço. Ela denuncia o sonho da oprimida em se tornar opressora, porque se sente melhor ao pisar na travesti, que considera menos mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas Ela não é minúscula e Maria Lucas é uma estrela! Nestas páginas você não conhecerá um falso brilhante, há substância nestas linhas. Gritos de liberdade. Resposta amorosa ao mar de ódio que tenta nos afogar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela não abaixa a cabeça para falsas acolhidas, parte da casa assassinada. O que lhe prepara o futuro? Este livro não responderá, Maria Lucas tem muito mais estória do que cabe na prosa. <em>Evoé.</em></p>
<p><strong><em> </em>Jaqueline Gomes de Jesus</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Pieces project</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 May 2021 14:08:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><span class="fontstyle0">“O real precisa ser ficcionalizado para ser pensado”, sentencia Jacques Racière, em </span><span class="fontstyle2">A Partilha do Sensível</span><span class="fontstyle0">. Aqui, entendo ficcionalizar não como invenção ou criação, mas como um exercício de alteridade que torna a violência – vivida e experienciada por nós mulheres – em fissura sobre a imagem de um rosto; um rosto real, cuja imagem impressa em papel fotográfico real nos convoca a pensar e ressignificar nosso imaginário.</span></p>
&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Pieces Project</em>, o primeiro projeto fotográfico de Iasmin Schleder — que também dá nome ao livro — vem para expor as marcas deixadas pela violência de gênero.</p>
<p style="text-align: justify;">Utilizando-se da intervenção fotográfica, a artista revela em seu trabalho aquilo que as estatísticas por si só não evidenciam, uma aproximação inevitável daquilo que não quer ser visto.</p>
<p style="text-align: justify;">É doloroso e assim se apresenta porque é preciso.</p>
<p style="text-align: justify;">Além de <em>Pieces</em>, outro projeto visual integra a publicação: <em>Descartografia</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Trazer questões interligadas ao passado e presente, entrelaçando gênero e território: o tema aqui são as fronteiras, marcadas para que exista lá e cá, um e outro.</p>
<p style="text-align: justify;">Por trás de todo mapa há um interesse, e a maioria deles serve ao poder, para conduzir cultura, política e economia. Da mesma forma, gêneros que foram criados para delimitar, produzem o mesmo efeito dos territórios, criam margens.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Descartografia</em> é um impulso para afastar o que nos limita.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Quantas festas</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/quantas-festas</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 May 2021 13:53:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[cartografar um labirinto
é coisa simples, meu bem
primeiro saiba o que tem
nas mãos: porra nenhuma
depois perceba como o som
dos nossos corpos é suave
como um acidente sem
vítimas e como o asfalto]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quanto? Uma palavra para indicar quantidade, intensidade, valor. Neste livro, porém, as medidas não medem, as instruções não prescrevem ensinamentos finais. As observações parecem mais apontamentos de um caderno de viajante, tornando visível o percurso. O trajeto até oferece aprendizados a compartilhar, mas não são os lugares de destino que importam.</p>
<p style="text-align: justify;">Importa mais contornar a experiência. Talvez quando a realidade chega chegando, impactando com intensidade – quantas festas! –, haja um movimento vital do corpo para nomear, transfigurar-se, expandir-se como palavra, imagem: este livro de poesia, encharcado de sensorialidade.</p>
<p style="text-align: justify;">              Há tantas instruções, regras do jogo, listagens dentro dos poemas. Se as enumerações e ordenações não servem para hierarquizar, como elas funcionam? Talvez seja para colocar à vista, como em um altar – o altar do que vibra, do que canta. A lista, essa artimanha primeira de organizar a informação, reinventa o redemoinho; faz uma arrumação lúdica, convida a um jogo de composição e de liberdade. Não são listas pragmáticas; são brinquedo de botar abaixo a diferença entre ordem e desordem, para friccionar e mapear os sentidos e os significados.</p>
<p style="text-align: justify;">   No itinerário percorrido, dão-se as mãos memórias de infância purulenta, cidades do presente e do passado, imaginárias ou de concreto, famílias de sangue e de purpurina, vivências formativas de tantas festas diferentes.</p>
<p style="text-align: justify;">              Eu contei: vinte festas por assim dizer manifestas, cento e setenta e duas disfarçadas. E veja que exclamação não se faz por acúmulo quantitativo: pensa o estrago de um beijo, de uma fogueira, de olhar um mar, de banhar-se em um rio, de um só amorzinho. Então a quem pergunta quantas foram as tantas, tantas que fiz, que faça parecido com o que sugere o poema de Alda Merini para a contabilização de seus amores: “(&#8230;) olhe/ nos bosques para ver / em quantas armadilhas ficou / meu pelo”.</p>
<p style="text-align: justify;">              Da mesma maneira orgânica com que a criação de uma autora conversa com a da outra, transbordante, dentro dos poemas há a incorporação de canções, diálogos, outras vozes do mundo que se integram nos versos, formando música própria. O caleidoscópio, no movimento dos versos encadeados, traz motivos que retornam ao longo do livro sob diferentes prismas. Cenas, temas, emoções, objetos, relações.</p>
<p style="text-align: justify;">              Quantas festas? Esse título não se identifica por uma pergunta, mas uma constatação. Uma afirmação. É a vida, meu bem. Uma “resplandescência que jamais cessa”. <span style="color: #ffffff;">Christyne Gryschek e Juliana Maffeis</span></p>
<p><strong>Moema Vilela</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>Tramoias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Apr 2021 13:50:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[as mulheres nas manchetes do jornal
as mulheres com o corte da estação
as mulheres retiradas de suas crostas pois são
um prato exótico
a minha mãe lendo o jornal de manhã enquanto toma café
a minha mãe refletida na tela do jornal que passa na televisão

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O primeiro tear mecânico, inventado em meados do século XVIII, foi batizado de Spinning Jenny. Nem a máquina nos deixa esquecer da forte relação que existe entre mulher e trama. Antes de sua invenção, os atos de fiar e tecer sempre estiveram nas mãos de mulheres. Para os gregos antigos, o fuso e a roca eram uma imagem do Cosmos: as Moiras teciam a vida de cada indivíduo na Roda da Fortuna, passando pelas etapas essenciais da existência – do início ao seu fim. Além disso, tecer era um meio de comunicação, pois na sociedade grega não se dava a palavra às mulheres. Silenciadas, elas teciam.</p>
<p>Etimologicamente, texto quer dizer tecido. A mulher que tece não somente escreve, ela cria a si mesma, conta sua própria história. Natália é uma moça tecelã que, como no conto de Marina Colasanti, tece seu próprio destino e se recusa a ocupar a posição de obscuridade relegada às mulheres durante séculos. Tramando suas linhas, ela expõe o lado avesso da História, escrita nos bastidores (como o avesso dos bordados).</p>
<p><em>Tramóias</em> é um conjunto de poemas sobre mulheres e linhas, sobre (r)existência feminina na tecitura. A trama é o lugar da lembrança, do registro de uma passagem, de uma vida, feminina acima de tudo e além de tudo (inclusive da história com H de homem).</p>
<p>Há múltiplas formas de se fiar uma trama. Assim como há inúmeras formas de se devir mulher.</p>
<p>A aranha vive do que tece. Vê se não esquece. <span style="color: #ffffff;">Natália Rezende</span></p>
<p><strong>Rachel Leão</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Há quem deseje o desajuste</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/ha-quem-deseje-o-desajuste</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Apr 2021 13:44:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[quando escolho
em falsa inteireza
fazer verso com tua carne
corro perigo:
de me perder
em controle
da forma que assume
em minha boca]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Este é um livro-resposta, um livro-manifesto a favor das existências inconformadas. Acompanha a escrita, o desejo de liberdade, que mesmo utópica, se apresenta como exercício do entre. Entre as linhas de um poema, entre as pernas entrelaçadas dos corpos-mulher jogados juntos na cama, no chão ou na lembrança. Também estão aqui as experimentações não-monogâmicas e a descoberta recente de que amar é verbo conjugado em coletivo. Há os olhos, os toques e o gozo dos amores que me constituem no efeito do erótico, das angústias e dos tempos. A memória, agora apalavrada, não é mais minha. Também nunca foram meus os corpos que aqui se desenham. Assim como os versos dos poemas, são livre associação dos desejos, a caminhar pelo mundo. <span style="color: #ffffff;">Gabriela Walter</span></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Lapidação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Apr 2021 13:42:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[é fato que muita gente vai achar no casamento mais motivo para chorar que para sorrir. as longas listas de processos de divórcio provam que isso é verdade. por quê? a única resposta é que deus não foi consultado. eles escolhem seus
cônjuges por si mesmos, em vez de deixar a escolha com aquele que é o único conhecedor do coração humano — muitas vezes tão enganador.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A que gênero discursivo pertence esta plaquete? Difícil dizer, porque há nela mais de um gênero, há muitos. É uma peça de teatro, mas nela há verso, há prosa, há tragédia e comédia, e há o relato de um sonho que inclui uma peculiar colcha de retalhos feita de toalhas estendidas no chão. Muda-se de gênero ao se passar de uma personagem a outra, passando pelo sermão, pela interdição, pela ameaça, pela doutrinação, pela aula, pela oração, pelo diálogo e pela história de amor, para então voltar à lei – na qual a definição prescritiva do gênero do interlocutor (“Esta é minha ordem: Seja forte e corajoso!”) não será um aspecto menor. Aqui, se é importante quem fala, é igualmente importante, em cada situação, a quem se fala. Em quem se pode confiar? A quem confidenciar? E o que não será contado e será mantido em silêncio? Por tudo isso, não parece um despropósito que seja lembrado aqui o gênero da história de amor, ainda que seja uma história de amor ressignificada. E, de fato, quem ler este texto verá que nele aparece um <em>nós</em>, na unidade mínima da vida em comum. A colcha de retalhos, enfim, se torna “nossa”: “aonde vamos chegar?” – pergunta a plaquete.</p>
<p style="text-align: justify;">O que é esse teatro, o que são essas falas, o que são essas vidas? Qual o sentido da colcha de retalhos? Apesar da luz vermelha, apesar de todas as aparências, “isso aqui não é bordel”, adverte uma voz repressora. Então é o quê? Uma casa também não, mas, mesmo assim, “eu a chamo de mãe”. Marte</p>
<p><strong>Marcos Natali</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
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		<title>Neuroses de bolso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Apr 2021 06:54:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<span class="fontstyle0">Ela se senta à mesa de xadrez. Abro a boca a fim de pegar fôlego para falar. Percebo que ela também faz isso e disfarçadamente puxo o fôlego de volta, para dentro.
— Espero que isso não te pareça estranho, mas eu estava pensando no seu nome um dia desses.
— Você estava pensando em mim? Que gracinha.</span>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Um conto deve te vencer por nocaute, não por pontos, afirma Julio Cortázar. Ou seja, o conto deve capturar quem o lê desde a primeira linha, ou vai perder a interlocução.</p>
<p>Será?</p>
<p>Os contos de Marte Wirthmann, neste <em>Neuroses de bolso</em>, relativizam a afirmação de Cortázar. São contos escritos linha a linha, com extremo cuidado na escolha de cada palavra, com extremo cuidado quanto ao lugar de cada palavra escolhida. Assim, quem pega estas páginas não sofre uma derrota, mas se enreda linha a linha, como num poema — ou como numa luta vencida por pontos.</p>
<p>Devemos advertir, no entanto, que não se trata de prosa poética. Todas as fichas são apostadas na força de captura dos acontecimentos, dentro ou fora das personagens — às vezes no tênue embaralhamento entre o dentro e o fora.</p>
<p>“Olhares me invadem ao caminhar pela avenida e não sei se sou mentira ou invenção. Prefiro abaixar a cabeça e acompanhar as rachaduras da calçada.” As rachaduras da calçada são uma metáfora da fragmentação de quem não se sabe real ou invenção, verdade ou mentira, e, simultaneamente, elas compõem a imagem de uma cena cotidiana, quase banal. Pode-se afirmar, aliás, que esse é um procedimento corrente nos três contos: fazer do rotineiro, do banal, metáfora para o que é subjetivo e de apreensão mais sutil.</p>
<p>Vejamos mais um exemplo: “Sinto uma textura pastosa e árida entre a língua e o céu da boca, como o pequeno deserto de um planeta distante”. Acordar com uma espécie de deserto pastoso na boca é a descrição do despertar num dia qualquer de cansaço e, ao mesmo tempo, metáfora que torna sensorialmente acessível (pela imagem) as porções de solidão que deixam “os ossos retorcidos”.</p>
<p>Mas e o conteúdo? Do que se trata um livro chamado <em>Neuroses de bolso</em>? A resposta caberá a quem se deixar  apreender por estas páginas. Apenas dois spoilers: são histórias de pessoas que se encontram e se desencontram “sobre as irregularidades de um céu rachado”; ou, ainda, são histórias sobre pessoas tentando encontrar uma casa no mundo, lembrando que “<em>casa</em> é a aflição na ponta da língua ao esquecer uma palavra”.</p>
<p><strong>Wesley Peres</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Desobrar-se</title>
		<link>https://editoraurutau.com/titulo/desobrar-se</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Apr 2021 18:49:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Criei uma obsessão por gengibre no ano passado. Além da influência da biomedicina que aparece nas revistas e blogs naturebas, com seus anúncios pernósticos que nos fazem mudar os hábitos alimentares, sexuais e de lazer; por medo ou por aquele sentimento bom de que há uma boa autoridade que nos encaminha ao bom caminho do bem-viver.

&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A língua que passa por esta orelha, acaricia, preenche, alaga. É onda que se embrenha pelo labirinto do ouvido, bate, afeta, bigorna, estribo e martelo. Convoca uma leitura cocriadora, invoca máquinas desejantes.</p>
<p style="text-align: justify;">“Desobrar-se” é um convite ao desmoronamento de si; e na língua de Maria Eduarda, desobra não se substantiva, é sempre ação: <em>desobrar-se</em>. Sustentar-se mesmo que na queda, fazer-se asa no precipício.</p>
<p style="text-align: justify;">Os versos que você encontra neste livro des-obram institucionalidades violentas: corpos compulsoriamente medicados — vertidos em hospícios privados – corpos trans aniquilados na média dos 35 anos.</p>
<p style="text-align: justify;">A minoridade na qual se lança quem não se adequa às performances hegemônicas. Para quem o recalque e a fetichização não são recursos suficientes e, por isso tem o desejo interdito, psicopatologizado.</p>
<p style="text-align: justify;">Este livro é uma clareira aberta, fogo aceso, copos cheios, faz-se música: convida. A língua aqui é manejada como território de encontro possível. De uma alegria selvagem, porque o possível no qual se chega entrelaça a dor e o prazer de entregar-se.</p>
<p style="text-align: justify;">Espaço de autopoiesis. Para corpos que, mesmo comprimidos, não se engolem em jejum, com água parada de um copo dormido na cabeceira, para não sentir, dor, angústia, tesão, medo, gozo.</p>
<p style="text-align: justify;">“Desobrar-se” é constituir-se na própria implosão. Implosão que não acaba em entulho porque pousa no mar. “Perto do mar, longe da cruz”. Os destroços, estilhaços: flutuam. São ilhas, continentes, todo um planisfério a devir.</p>
<p style="text-align: justify;">A língua deste livro se desdobra, percorre tantas, tão variadas topografias. É uma língua picotada na língua materna. Plural, arde como língua geométrica: “po(ética)”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Desobrar-se” é uma dança, é assumir a minoridade, defender a minoridade, exercê-la em sua máxima potência. No poema “Cuira-te”, <em>queer</em> é verbo e <em>cuirar-se</em> é um compromisso ético.</p>
<p style="text-align: justify;">Fazer-se “um corpo de repúdio” e de gozo, frente à ira tosca dos que se gastam convertendo o desejo em pedra; para se compor muro nos edifícios brancos da heterocisnormatividade.</p>
<p style="text-align: justify;">Este é o convite, “cu(i)ra-te”. Suporta o credo e delicia-se.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Juliana Guida</strong></p>
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		<title>O jogo que continuamos a brincar, mesmo depois de grande, é a brincadeira do esconde-esconde</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Apr 2021 18:09:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A arte na universidade talvez nunca se encaixe devidamente nos eixos; facilmente, ela recai no “demais” ou “de menos” — talvez seja esta sua peculiaridade: a de estar à beira de um transbordamento em outra coisa, algo em
constante perigo. <span style="color: #ffffff;">Victor Santos</span>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">“É Novembro de 2017. Uma roda de conversas. Aqueles jovens sairão da escola em poucos dias. Passarão a viver com ela, do lado de fora. Muitas perguntas precisam ser respondidas. Eles parecem ter ânsia de ouvir, pela voz que escapa, as respostas precisas. As palavras corretas. Eu as falo. Talvez, pela primeira vez. A escola está em suspensão. São os últimos dias de recuperação. Notas a serem fechadas. As pessoas parecem esperar o momento certo de agir para cada coisa que precisa ser ajustada. A-jus-tes. Um que desencadeia o outro. O próximo, sou eu. Cinco de Dezembro. O jogo da vez é o <em>jogo dos erros</em>. De um lado não serão mais utilizados seus serviços pela nossa empresa. Do avesso, doutrinar e aliciar crianças – uma realidade inapropriada. Saio sob uma chuva de pétalas e pedras. Não havia nada, pedagogicamente, que pudesse me tirar dali. Havia um corpo existindo fora e que se corporificou demais do lado de dentro. Era como se metade de mim fosse digna de aplausos e a outra parte não tivesse alguma dignidade. Passo a ouvir histórias de outras pessoas desajustadas. Relatos docentes que compõem um<em> Corpo decente</em> – corporificado em cinquenta minutos de voz e centenas de quilos de giz. Corpos que se chocaram com escolas. Desmaterializados, descorporificados, despixealizados. Valorizam nossa mente como se esta estivesse separada do corpo. Como se não aprendêssemos com todo ele. Como se não existíssemos em sua totalidade. Falam pelas costas. Sabemos por todos os lados”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Bruno Novaes</strong></p>
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		<title>Fantásticos excrementos – três histórias eróticas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Apr 2021 18:02:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Aos poucos ele foi descobrindo um sutil prazer que flutuava em seus interiores enquanto ele passava os olhos por aquelas criaturinhas ignorantes de sua presença. O rapaz ficava cada vez mais consciente de seu prazer, e cada vez mais despudorado em sua observação.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Três corpoemas</p>
<p style="text-align: justify;">Que barato essas personagens que Éster nomeia desde o título com esses nomes que estão na boca do povo – Kevin, Vânia – ou não estão – Ayla, Malliá, Proteu.</p>
<p style="text-align: justify;">Que barato esses excrementos que agitam como dizendo à leitora: agite seus neurônios antes de usar porque são e não são coisas quaisquer! São coisas quaisquer porque são palavrões tomados como palavrinhas comuns. Não são coisas quaisquer porque valem ouro ao provocar o leitor até o último fio de cabelo da virilha. <span style="color: #ffffff;">Éster Wolff</span></p>
<p style="text-align: justify;">Já faz um bocado de tempo que algumas cabeças psicanalisadas puseram merda e ouro, excrementos e capitais em relação. Ambas são formas de excretar, de dispender e de gastar em troca de alguma compensação (ou não). Ambas – fezes e dinheiros – são veículos de metamorfoses cotidianas que incidem seja sobre nossas carnes-ossos-e-buracos, seja sobre as voláteis-ficções-de-estratosféricas-cifras.</p>
<p style="text-align: justify;">Fantásticos excrementos como coisas quaisquer: três relatos doces e salgados, perfumados e pestilentos, eróticos e pornográficos, fantásticos e excrementícios ao mesmo tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Deleitem-se na leitura, também, pelo tom de conversa alegre, pelo multicolorido da linguagem, pela perversão humorada, pelo saber e o sabor das vísceras e dos orifícios de uma pá de corpos virados ao avesso.</p>
<p style="text-align: justify;">Contra, vigorosamente contra o horror destas eras mórbido-fóbicas, a potência e a graça das escrituras mais livres que se possa conceber.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Joca</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Marejar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Apr 2021 16:40:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Brotam dos cantos do corpo
dos orifícios escorrem.
Não existem toalhas suficientes
para estancar o sangue.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na primeira vez em que vi Andrea Pech, fiquei impressionada com seu olhar. Tempos depois, acompanhei sua performance <em>Stream</em>. Voltei a me impressionar com seus olhos, dos quais corriam lágrimas contínuas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ela não parecia estar triste, apenas entregue a um fluir interno. Tentei racionalizar o momento, mas no fim das contas o que ficou foi algo intenso, uma coisa que nenhum poema é capaz de fazer sentir.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste <em>Marejar</em>, Pech me levou a um itinerário de rituais alquímicos. Segui intensidades corporais e fluxos subjetivos de uma poeta-performer que parece desejar diluir a dor de um amor sem final feliz, e acaba reconstruindo a memória dessa relação.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao acompanhar essa busca, conheci fragmentos de memórias do amor</p>
<p style="text-align: justify;">entre duas mulheres, sempre mediado pela água.</p>
<p style="text-align: justify;">Tive acesso a fluidos corporais – pequenos potes com lágrimas, inclusive em decomposição —, excertos de um rio, água da bica com sal, fragmentos de espelho, água potável de uma cidade mineira. E descobri que essas são águas mágicas, que contêm intenção e sentido, levam em si diferentes potências e podem ser recombinadas.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Marejar</em> é um livro íntimo, sensível e forte. Deve ser lido por todo mundo que está à procura de um bom livro de poesia contemporânea. Mas as pessoas que sobreviveram a um amor que naufragou – será que todos nós? – vão particularmente se identificar.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Letícia Féres</strong></p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Os sete sábios da Grécia &#038; outros poemas safados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Apr 2021 16:37:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[(lustrado por Yuri B.)

Pelo que sei
pelo que me informaram
os sete sábios da Grécia
davam o rabo<span style="color: #ffffff;"> Caio Junqueira Maciel</span>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">PUXÃO DE ORELHA</p>
<p style="text-align: justify;">Meu querido poetinha de merda,</p>
<p style="text-align: justify;">Que coisa feia estás a fazer! Nunca pensei que um amigo de minha sobrinha Ana Filipa Seabra, proprietária do “Absalão”, fosse capaz de escrever tantas asnices! No outro livro, <em>Pele de jabuticaba</em>, percebi críticas aos os que caçam veados, atividade tão enraizada nas famílias mais tradicionais. Agora vens criticar os que caçoam de “viados”, esses paneleiros degenerados que comprometem a continuidade da geração humana! Que coisa mais indecente produzir poesia sobre gente indecisa sexualmente…</p>
<p style="text-align: justify;">Fazer poesia conspurcando as 7 maravilhas do mundo, as 7 colinas de Roma, os 7 sábios de Roma… Não deixas de atacar nem as 7 notas musicais, as 7 cores do arco-íris, os 7 anões, e ainda levas de roldão o Robin Hood, cuja única falta era pecar contra o sétimo mandamento… Ah, se eu estivesse aí no Brasil iria dar-lhe umas boas chineladas!</p>
<p style="text-align: justify;">Imagine só, escrever sobre os 7 pecados capitais, colocando a luxúria em todos eles! E, ainda por cima, faz poesia sobre pintores desmunhecados e escritores que se suicidaram porque também, bem-feito! estavam no caminho que contraria a natureza, esse caminho sem volta que só vai dar em Sodoma e Gomorra!</p>
<p style="text-align: justify;">Ah, meu gajo safado, estás a provocar sarilhos, andas a abusar dar forças cândidas do Espírito Santo!</p>
<p style="text-align: justify;">No outro livro, desta tal de Urutau, trouxeste à baila os negros da fazenda de teus antepassados, agora vens com profusão setemaníaca por sexo, por safadezas…</p>
<p style="text-align: justify;">Tanges a lira com dedos impuros, valei-nos ó virgem mãe santíssima! Há um poema sobre a obra-prima de Alexandre Dumas, <em>O conde de Monte Cristo</em>, que tanto leio na solidão do claustro, e tu, gajo infame, insinua coisas horrorosas ali, Deus seja louvado! Ainda bem que todo mundo sabe que 7 é número de mentiroso. Tudo neste abominável livrinho é pura mentira… Só faltou dizeres que a barata tem 7 pregas no fiofó, mas é mentira da barata ela tem é uma só.</p>
<p style="text-align: justify;">Crie modos! Toma juízo!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Irmã Manuela Seabra</strong>, Braga, Portugal.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O pote de ouro era amor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tiago]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Apr 2021 20:25:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[eu me sento e calço meus sapatos
surrados
porque já andei muito chão
não me julgue pelos meus atos
sem ter caminhado a mesma direção
só quem conhece a estrada
é minha sombra na calçada
a alma e o coração]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando me tornei socialmente invisível, me aprofundei no indizível. O silêncio, por vezes, pode se mostrar caótico, mas tem poesia. Os registros dessa plaquete são fragmentos do meu existir como LGBTQIA+. Na maior parte, em primeira pessoa, que é pra causar identificação com os versos. E não é muito louco que um leitor qualquer, independente de cor, crença, condição sexual ou entendimento de gênero, possa se reconhecer nos meus sentimentos? Foi assim que eu me entendi parte do Todo e descobri que somos todos seres diversos, mas essencialmente iguais. <span style="color: #ffffff;">Naiara Reis</span></p>
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